Se mexerem nas obras literárias, esvaziando-as dos “problemas” do tempo em que foram escritas, o que se fará — se está fazendo — é construir uma história, ou estórias, edulcorada, sem contradições e ambiguidades. Impor o presente ao passado, reclassificando-o, é uma ingerência brutal tanto na história quanto nas artes

Desde algum tempo, há um movimento, apontado como “politicamente correto”, cujo objetivo é censurar a literatura. Como de hábito, a tese é, aparentemente, positiva: o que se quer é proteger os leitores, sobretudo crianças — que, aliás, são mais espertas e inteligentes do que imaginam os neo-censores —, de linguagens e termos “agressivos” ou “ofensivos”.

Ióssip Stálin, Franklin Roosevelt e Winston Churchill: unidos para destruir Hitler | Foto: Reprodução

O que se está fazendo é elidir as contradições da vida real e, até, da literatura. Estão contornando a história — aquilo que aconteceu —, descaracterizando-a. O que se opera é a reconstrução do passado, numa espécie de apaziguamento do conflito. Retirar o “sofrimento” — o incômodo — da literatura pode até ser possível, graças aos censores (totalitários disfarçados de democratas). Mas não dá para retirá-lo da vida real.

Se mexerem nas obras literárias, esvaziando-as dos “problemas” do tempo em que foram escritas, o que se fará — se está fazendo — é construir uma história, ou estórias, edulcorada, sem contradições. Impor o presente ao passado, reclassificando-o, é uma ingerência brutal tanto na história quanto nas artes.

Minha Luta é abominável, mas é um documento histórico | Foto: Divulgação

Se há racismo num livro de Monteiro Lobato — e, frise-se, o escritor não fazia proselitismo do racismo (os negros não eram bem tratados na vida real, daí o registro do autor) —, isto tem a ver com o tempo em que foi escrito, e também um sinal de que o escritor de Taubaté estava, de alguma maneira, atendo-se à história, aos fatos. Não estava açucarando os acontecimentos. Estava, por assim dizer, historiando, ensinando, mostrando o que acontecia.

Censurar livros — começa-se com a literatura, depois se passará à história, quem sabe à filosofia e à pintura —, construindo uma história ajustada, para agradar os homens e mulheres do presente, é pura contrafação, falsificação intelectual. Está em cena uma espécie de “totalitarismo do bem” que quer retirar o “mal” da história — daí da literatura —, não criticando-o, e sim eliminando-o dos textos. Mas “esconder” o mal não equivale a destruí-lo. O mal precisa ser evidenciado, na sua integralidade, até para que possa ser combatido.

Monteiro Lobato: uma das vítimas do neo-censores da literatura | Foto: Reprodução

O primeiro-ministro britânico Winston Churchill combateu o nazista Adolf Hitler — o mal encarnado do século 20, ao lado de Stálin e Mao Tsé-tung — porque, ao contrário de Neville Chamberlain e outros ingleses, havia lido, com atenção, seu livro “Minha Luta”. A obra é um documento histórico e muito do que o líder da Alemanha pôs em marcha está contido em suas páginas. Ao ler a diatribe do cabo austríaco, o político da Pérfida Albion — será que se pode referir assim à Inglaterra, ainda que de maneira jocosa? — compreendeu que qualquer política de apaziguamento era ineficaz. O político e o nazismo que gestaram a morte de milhões de pessoas — 6 milhões de judeus e milhares de ciganos, homossexuais e testemunha de Jeová, em campos de extermínio e de concentração e outro tanto durante a guerra — precisavam não apenas ser criticados. Deviam ser destruídos, como foram, felizmente.

Se não tivesse lido “Minha Luta”, com extrema atenção, Churchill certamente não saberia como combater Hitler. O primeiro-ministro entendeu que, depois da aliança com Stálin, em agosto de 1939 — o que incentivou o nazista a invadir a Polônia, em setembro do mesmo ano —, o líder da Alemanha, em seguida, romperia com o poderoso chefão comunista, como de fato ocorreu em 1941.

A compreensão do mal, exposto em “Minha Luta”, foi decisiva para Churchill concluir que, no combate a Hitler, não poderia haver qualquer recuo. Era tudo ou nada. Por isso fez o diabo para atrair os Estados Unidos para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A censura à obra do escritor Roald Dahl

Roald Dahl: a “nova” vítima da patrulha do politicamente correto | Foto: Reprodução

A digressão acima tem a ver com a censura que a editora Puffin Books, braço da Penguin Random House, está impondo à obra do escritor britânico Roald Dahl (1916-1990) — com o apoio da Roald Dahl Story Company, responsável pelos direitos do escritor.

De cara, admito que a obra de Roald Dahl não me entusiasma tanto. Fui leitor de literatura infantojuvenil, durante anos — e com vivo interesse —, mas, no momento, mantenho-me à distância. Como indivíduo, dado seu antissemitismo, avalio o escritor como tão execrável quanto o genial francês Louis-Ferdinand Céline.

Porém, o fato de não apreciar o homem Roald Dahl, porque o antissemitismo é imperdoável, não equivale a concordar com aqueles que, em nome do politicamente correto, estão censurando sua literatura. Estão retirando as contradições de sua obra, como certamente farão, em seguida, com outros autores.

Se Roald Dahl não é um autor delicado no tratamento de determinados temas é relevante que seus “equívocos” permaneçam na obra, até para que possam ser criticados. Suavizar sua literatura, para torná-la palatável aos novos — velhíssimos — tempos, pode até torná-lo mais agradável, mas o que se estará lendo é menos a obra de Roald Dahl e um tanto o trabalho dos censores. Ao ser vilipendiada ou mutilada, a obra do autor ganhou coautores. Como se sabe, a mudança de uma parte costuma contaminar o todo.

Salman Rushdie: contra a censura à obra de Roald Dahl | Foto: Richard Burbridge

O escritor Salman Rushdie diz, com acerto, que Roald Dahl “não era um anjo”, mas considera as mutilações, em suposto nome do “bem”, como uma “censura absurda”. Em 1989, o britânico atacou o indiano, à altura perseguido por radicais iranianos que planejavam matá-lo por causa do romance “Versos Satânicos”. “A Puffin Books e os responsáveis pelo legado de Dahl deveriam se envergonhar”, acrescenta o autor de “Vergonha” (Companhia das Letras, 376 páginas, tradução de José Rubens Siqueira).

O primeiro-ministro inglês, Rishi Sunak, segue pela mesma seara: “As obras de ficção devem ser preservadas, e não retocadas”.

Numa entrevista à BBC, o escritor Philip Pullman diz algo com o qual concordo. É mais adequado deixar a literatura de Roald Dahl “desaparecer” do que descaracterizá-la. Uma literatura contraditória, portanto complexa, pode se tornar “morta” se suavizada. A força da literatura de Céline, por exemplo, advém da complexidade de suas ideias e formas estéticas. Ajustá-las, para agradar os leitores — e nem se sabe se os leitores de fato querem isto —, é uma espécie de assassinato literário.

“Se Dahl é ofensivo, parem de publicá-lo. Leiam todos os outros autores maravilhosos que estão escrevendo hoje em dia e que não recebem tanta atenção por causa do enorme peso comercial de autores como Roald Dahl, sublinha Philip Pullman.

As mudanças feitas pela editora — censora — têm a ver com gênero, aparência e peso dos personagens. A Puffin Books apagou e reconstruiu textos — numa espécie, digamos, de coautoria (imagine se James Joyce, do romance “Ulysses”, fosse popular; logo, apareceriam censores para “requalificar” sua linguagem, supostamente obscena).

Pega em flagrante delito, tendo acatado a censura da Puffin Books, a Roald Dahl Story Company tentou se justificar, garantindo que as “revisões” foram “pequenas e cuidadosamente analisadas”.

Porém, de acordo com reportagem do “Daily Telegraph”, as mudanças foram amplas, e, o que é importante, desnecessárias.

Ilustrações de Quentin Blake sobre algumas das personagens de Roald Dahl

Algumas mudanças feitas na obra de Roald Dahl

Ian Youngs e Paul Clynn, da BBC News, registram algumas mudanças feitas na obra de Roald Dahl. Confira a seguir.

O personagem Augustus Gloop, de A Fantástica Fábrica de Chocolate, agora é descrito como “enorme”. A palavra “fat” (gordo) foi retirada de todos os livros, segundo o jornal britânico The Telegraph.

A Senhora Twit, dos Twits, não é mais “feia e bestial” (“ugly and bestial”), mas simplesmente “bestial”.

No mesmo livro, “uma estranha língua africana” (weird) não é mais listada como estranha.

As palavras “louco” e “desequilibrado” também foram retiradas por causa da preocupação com saúde mental, segundo o jornal.

Uma ameaça de “acabar com ela” (knock her flat) em Matilda foi trocada por “dar uma dura reprimenda” (give her a right talking to).

As referências às cores também foram alteradas: o casaco no livro The BFG não é mais preto; e Mary agora permanece “imóvel como uma estátua” em vez de “branca como um lençol”.