Euler de França Belém
Euler de França Belém

Carlos Alberto, o Capita, num time de feras, como Pelé e Tostão, conseguiu se destacar

Na final, contra a Itália, a bola passou nos pés de quase todos os jogadores e, no final, Pelé rolou-a para Carlos Alberto, que fez um belíssimo gol

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Na Copa do Mundo do México, em 1970, o Brasil tinha um time de feras e ferinhas. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson (ninguém lançava tão bem, ninguém tinha uma visão do jogo tão ampla), Rivellino (a Patada Atômica) eram as feras. Pelé era hors concours, um desses gênios intuitivos e, em campo, dotado de uma inteligência rara. Félix (ótimo goleiro, mas às vezes subestimado), Clodoaldo (muito melhor do que Mascherano), Carlos Alberto Torres, Everaldo e Piazza eram ferinhas. Chamá-los de ferinhas não é nenhuma depreciação; eram craques quase excepcionais. Clodoaldo, por exemplo, era dotado de uma energia vital e era capaz de surpreender — driblando com habilidade, protegendo a bola como os craques — os adversários, quando estes estavam marcando em cima e duramente os cracaços. Saía de trás e entregava a bola “morta” para alguém fazer o gol. Como Pelé era inquestionável, amado por todos, os jogadores que eu mais apreciava eram Jairzinho, Rivellino e Tostão. As arrancadas de Jairzinho eram formidáveis. Ele era, de fato, o Furacão da copa. Numa seleção de craques acima dos craques dos demais países, ainda assim o Furacão despontava. No YouTube, você pode ver alguns jogos de Jairzinho. Acompanhe suas arrancadas formidáveis, sobretudo incontroláveis, e certamente o perceberá como uma espécie de pré-Cristiano Ronaldo, o ás do Real Madri. Eles são parecidos, ainda não que iguais.

Aos 9 anos, além dos craques mencionados, eu observava com atenção Clodoaldo e Carlos Alberto. O Capita era talentoso, forte, incontrolável. Na copa, na decisão contra a Itália (o Brasil ganhou por 4 a 1), fez um gol excepcional. Saiu de trás, caminhou em direção ao gol adversário, enquanto o time triangulava, com vários passes, até Pelé, com sua genialidade, rolar a bola para o Capita marcar um dos mais belos gols da copa. Pela jogada em si, denotando o entrosamento do time, que jogava por música — não exatamente pelo gol, quase trivial.

O capitão da melhor seleção patropi de todos os tempos morreu na terça-feira, aos 72 anos, de infarto. Nós, que amávamos a ferocidade do Capita, estamos, sim, de luto.

Copa vista na televisão

Nas cidades do interior de Goiás, parte dos torcedores, talvez a maioria, ouvia os jogos da Copa de 70 pelo rádio, com narradores de primeira linha, como Waldir Amaral e Jorge Cury, da Rádio Globo. No bairro no qual morava, em Porangatu, só havia uma televisão, na casa do cartorário João Borges. Lá, por meio de uma televisão nova, mas não colorida, vi toda a copa. A imagem não era perfeita, com os “chuviscos” impedindo que se acompanhasse as jogadas com nitidez. Mesmo assim, embora eu fosse apaixonado pelo rádio, sobretudo pela emoção dos narradores e dos comentaristas, a televisão era novidade e a casa de João Borges se tornou quase um estádio.

Pela televisão, sem a mediação da interpretação dos narradores das rádios, passamos a perceber como eram de fato as jogadas. Pudemos constatar como Pelé, Tostão e Gérson eram jogadores de uma inteligência ímpar. Eles jogavam com e sem a bola. Gérson era mesmo um maestro, cadenciando o jogo, orientando e distribuindo as jogadas. Tostão, com sua habilidade e inteligência tática, puxava uma parte da marcação e, assim, deixava Pelé um pouco mais livre. O camisa 10 era marcado e, até, caçado pelos adversários (como fazem com Neymar hoje). Jairzinho era uma força da natureza. Ninguém conseguia segurá-lo, nem os zagueiros e laterais mais faltosos. Primeiro, porque era veloz, extremamente ágil. Segundo, porque era forte como um touro e protegia a bola como poucos. Rivellino, como Gérson, era dotado de grande visão do jogo, lançava e chutava bem. E era um driblador de primeira linha. Clodoaldo era o craque que jogava para os outros, para o time. Mas, num dos jogos, driblou vários jogadores, dando um verdadeiro show.

Félix era um goleiro subestimado. Mas era um “gato” no gol. Compensava sua estatura, não era muito alto, com uma elasticidade impressionante. Piazza era um zagueiro que impunha respeito. A área era sua. Carlos Alberto era vibrante, forte como um touro, cheio de personalidade, como se dizia. Suas arrancadas eram incontroláveis e sabia voltar rápido, para seu próprio campo, para combater os adversários. Parecia não se cansar.

João Saldanha montou a seleção de 70, é certo. Mas Zagallo conseguiu aperfeiçoá-la. Não deixou a peteca cair.

Elenco e Comissão Técnica da Seleção Brasileira tricampeã Mundial de Futebol

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Em pé: Rogério (Olheiro), Cláudio Coutinho (Prep. Físico), Parreira (Prep. Físico), Félix, Joel, Leão, Fontana, Brito, Clodoaldo, Zagallo (Técnico) e Admildo Chirol (Prep. Físico); Agachados: Mário Américo (Massagista), Rivellino, Carlos Alberto Torres, Baldocchi, Piazza, Everaldo, Paulo César Caju, Tostão, Marco Antônio e Ado; Sentados: Edu, Zé Maria, Dadá Maravilha, Gérson, Roberto Miranda, Jairzinho, Pelé e Nocaute Jack (Massagista). Técnico: Zagallo

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