Euler de França Belém
Euler de França Belém

Carambaia lança livro de Robert Musil com tradução de Marcelo Backes

“O Papel Mata-Moscas e Outros Textos” reúne narrativas de extensões variadas, mas predominantemente curtas

Foto: Divulgação

Se o alemão Thomas Mann é “A Montanha Mágica”, o austríaco Robert Musil é “O Homem Sem Qualidades” (traduzido duas vezes em Portugal e uma vez no Brasil). Mas sua obra não acabou com este romance tão sensacional quanto complexo (mais comentado do que lido — como James Joyce).

Recentemente, a Editora Perspectiva publicou os contos “A Perfeição do Amor” e “A Tentação da Quieta Verônica” num só volume, com 240 páginas e tradução de Kathrin Rosenfield (organizadora) e Lawrence Flores Pereira.

Em 2016, a Editora Âyiné publicou uma preciosidade, que só havia sido editada em Portugal: “Sobre a Estupidez” (62 páginas, tradução de Simone Pereira Gonçalves).

Agora sai “O Papel Mata-Moscas e Outros Textos” (Carambaia, 180 páginas, tradução de Marcelo Backes). Leia a sinopse:

“Em ‘O Papel Mata-Moscas e Outros Textos’, a Carambaia reúne narrativas de extensões variadas, mas predominantemente curtas, do austríaco Robert Musil (1880-1942), autor de dois romances célebres que marcaram o início e o fim de sua carreira literária, ‘O Jovem Törless’ (1906) e o monumental ‘O Homem Sem qualidades’ (1930-1943). Escritor filosófico por excelência, Musil imprimiu em toda sua obra uma inquietação diante do papel do indivíduo e da massa em um mundo em conflagração.

Robert Musil, autor do romance “O Homem Sem Qualidades”

“A seleção de textos forma um prisma multifacetado do pensamento de Musil. O escritor Marcelo Backes, que organizou, traduziu e é autor do posfácio de ‘O Papel Mata-Moscas e Outros Textos’, considera o volume uma ‘realização parcial’ da ideia de uma coletânea planejada por Musil pouco antes de morrer. Compõem o livro quatro contos, três ensaios (um deles sendo uma discussão ficcional sobre a própria obra do escritor), quatro textos que podem ser considerados aforismos longos e uma coletânea de aforismos curtos.

“A aparência de miscelânea não esconde a recorrência metódica dos temas favoritos de Musil. O escritor — que lutou na Primeira Guerra Mundial e morreu pobre na Suíça, onde se refugiou do nazismo depois da anexação da Áustria pela Alemanha — parece ter acompanhado minuciosamente, em sua literatura esparsa, o progressivo desastre civilizatório no coração da Europa. Isso é perceptível na descrição ao mesmo tempo brutal e minuciosa contida no conto que dá título à coletânea da Carambaia, escrito antes dos dois conflitos mundiais.

Em ‘Sobre a Estupidez’, ensaio derivado de uma conferência, Musil procede a uma implacável investigação que, embora não destituída de ironia, contempla com profunda seriedade a balbúrdia de convicções no mundo intelectual de seu tempo. Sobressaem nesse texto o retrato da falência iminente dos valores em que se baseiam os pactos sociais e os evidentes limites da razão. Com esses temas, Musil se aproxima de muitos de seus contemporâneos de escrita em língua alemã, de Kafka a Walser, de Thomas Mann a Hermann Hesse, de Benjamin a Freud. Seu estilo desafiador, no entanto, é único, o que levou Mann a lhe dizer em uma carta: ‘Não há outro escritor alemão vivo de cuja permanência eu tenha tanta certeza’. E, de fato, diz o organizador Marcelo Backes: “‘Sobre a Estupidez’ é tão atual que, para um analista agudo, seu princípio poderia se dirigir a vários governos e regimes instaurados hoje pelo mundo afora’.

“Robert Musil nasceu em Klagenfurt, filho de um engenheiro e professor universitário que viria, mais tarde, a receber o título de nobreza Egler, que o escritor herdou mas nunca utilizou literariamente. Aos 10 anos foi encaminhado pelo pai para a Escola Militar de Eisenstadt.  Aos 17, chegou à Academia Militar de Viena. Um ano depois abandonou a carreira militar e passou a estudar engenharia. Depois de formado, cursou filosofia e psicologia experimental na Universidade de Berlim, onde se doutorou. Em 1906, publicou ‘O Jovem Törless’, inspirado em seu período no internato militar. Trabalhou nos anos seguintes como bibliotecário e editor enquanto se dedicava à literatura.

“De 1914 a 1918, Musil participou ativamente da Primeira Guerra Mundial, na condição de oficial de infantaria, e foi condecorado por bravura. Em plena guerra, Musil encontrou tempo para visitar Franz Kafka, escritor que tinha em alta conta, em Praga. Com o fim do conflito e o colapso do Império Austro-Húngaro, Musil se estabeleceu em Viena e alternadamente em Berlim. Deu prosseguimento à carreira literária, com contos e peças de teatro.

“Entre 1930 e 1933, publicou dois volumes de ‘O Homem Sem Qualidades’, totalizando mais de mil páginas. A parte restante do romance, em que um ex-matemático testemunha o colapso do Império Austro-Húngaro na Viena anterior à Primeira Guerra, só viria à luz em 1943. Durante a década de 1930, empobrecido, Musil recebeu ajuda financeira de colegas escritores, por iniciativa de Thomas Mann. Com a ascensão do nazismo, que baniu seus livros, Musil, casado com uma judia, se refugiou na Suíça em 1938. Viveu em Zurique e em Genebra, onde morreu depois de um derrame, aos 61 anos.

“Durante anos a obra de Musil permaneceu em relativa obscuridade até ser redescoberta no início dos anos 1950, quando começou a ser traduzida para outros idiomas. No Brasil, ‘O homem Sem Qualidades’ só chegou em 1986. A recepção crítica aos livros de Musil raramente deixa de mencionar seu caráter provocativo e denso, corroborando a frase do próprio escritor: ‘A imortalidade da obra de arte é seu caráter indigesto’.

“O projeto gráfico de ‘O Papel Mata-Moscas e Outros Textos é de Daniel Trench e traz como ilustração de capa e de páginas interiores algumas moscas — e suas sombras — criadas pela artista Regina Silveira (Porto Alegre, RS, 1939)”.

Marcelo Backes é um dos principais tradutores patropis da literatura alemã. Suas traduções de Kafka são apontadas como da mais alta qualidade. E é um crítico sólido e polêmico. A sinopse cita Thomas Mann como entusiasta da obra de Musil, mas não menciona o filósofo e escritor Elias Canetti, que era apaixonado pela singularidade de sua literatura.

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