Euler de França Belém
Euler de França Belém

Cachorro manca imitando o dono que mancava, talvez para mostrar empatia

Russell Jones fraturou o tornozelo e teve de colocar gesso, aí ficou mancando. Bill começou a imitá-lo

A “Odisseia”, de Homero, relata a história de Ulisses, o guerreiro que, depois da Guerra de Troia, luta para voltar para sua terra, Ítaca, e para sua amada Penépole e para o filho Telêmaco.

Quando a falta de esperança já prevalecia, Ulisses retorna para sua casa, disfarçado, pois os pretendentes à mão da formosa Penélope poderiam matá-lo. Quando o andrajoso Ulisses aparece, não há viv’alma que o reconheça. Mas, de repente, um cachorro “arrebitou as orelhas”. “Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu para a sagrada Ílio.”

Argos estava abandonado, era um cachorro velho, de 20 anos. “Mas, quando se apercebeu que Ulisses estava perto, começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas; só que já não tinha força para se aproximar do dono. Estão Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima. Escondendo-a discretamente de Eumeu assim lhe disse: ‘Eumeu, que coisa estranha que este cão esteja aqui no esterco. Pois é um lindo cão’.”

Em seguida, Ulisses entra no palácio, onde estavam os “orgulhosos pretendentes” de Penépole. “Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte, depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.” A história é contada nas páginas 413 e 414 da “Odisseia”, na edição da Companhia das Letras-Penguin, com tradução de Frederico Lourenço.

Russell Jones e Bill: amigos | Foto: Reprodução

Argos era dotado de empatia e memória. Criando cachorros há anos, Kirilov, Sartoris, Frida, schnauzers, Meg (de minha filha Eline), whippet, e João Fidelis, labrador, percebo que, sim, cães são empáticos e distinguem com precisão as pessoas da casa, afeiçoando-se mais a um do que ao outro, ainda que deem atenção a todos.

Reportagens sobre cachorros inteligentes — “quase humanos” — na maioria das vezes são exageradas, mas, no geral, verdadeiras. Como aquela história de um cachorro que voltou para sua casa depois de longo tempo desaparecido. Ele viajou dezenas de quilômetros para reencontrar seus donos. A história é verdadeira.

Leio no jornal “O Dia” a reportagem “Homem manco gasta R$ 2 mil em veterinário e descobre que seu cão o imitava”. Vi o vídeo e, a rigor, o indivíduo não é manco. Manca porque está com parte da perna direita engessada, pois havia fraturado o tornozelo.

Ao perceber que o cachorro, aparentemente um galgo, estava mancando, Russell Jones decidiu levá-lo ao veterinário. Bill (ou Billy) estaria com a pata quebrada, mas, depois de feitos os exames, como raios-x, o veterinário informou-o que não havia problema algum. O cachorro estava saudável, em perfeita forma.

O que estava realmente acontecendo? Bill, o cachorro esperto, estava imitando seu dono, quiçá por solidariedade. Talvez estivesse mostrando empatia, carinho pelo seu amigo humano. Quando Russell Jones retirou o gesso, Bill parou de mancar.

Russell Jones mora em Hertfordshire, no Sul da Inglaterra, e diz que ama Bill. E Bill, ao seu modo, também o ama.

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