Euler de França Belém
Euler de França Belém

Brasil comemora 100 anos da Revolução Russa com lançamentos de livros

Obras discutem Trotski, a queda da União Soviética e a influência de Stálin no movimento comunista internacional. O Jornal Opção sugere quatro livros para as editoras traduzirem

Na edição de 18 de dezembro, o colunista Maurício Meirelles, da “Folha de S. Paulo”, publicou um pequeno texto, “Centenário da Revolução Russa será lembrado com lançamentos de livros”, listando obras que serão publicadas para comemorar os 100 anos do “golpe” de Estado articulado pelos bolcheviques de Vladimir Lênin, em outubro de 1917, com o apoio de vários grupos de esquerda, que, em seguida, foram liquidados pelos comunistas.

“Uma das iniciativas de mais fôlego é uma coleção de seis livros escritos até 1927 que a Editora 34 prepara com narrativas da revolução, organizada pelo pesquisador Bruno Gomide”, informa Maurício Meirelles. “Gomide também prepara para a Boitempo uma antologia de textos escritos no calor dos acontecimentos, entre 1917 e 1924. São autores do naipe de Isaac Bábel e Vassili Rozánov. A mesma editora tem no prelo uma ‘biografia intelectual’ de Lênin, do húngaro Tamás Krausz”, acrescenta. A Difel publicou “Lênin — A Biografia Definitiva” (630 páginas), de Robert Service. A pesquisa do doctor inglês é de primeira linha, mas a tradução e a edição deixam a deixar. Primeiro, em nenhum momento o autor e a editora inglesa informam que se trata de uma “biografia definitiva” (não se pode dizer isto nem a respeito de Jesus Cristo). Não há biografias definitivas e, no caso de Lênin, menos ainda, porque é preciso que se tenham mais informações e há informações dos arquivos russos que ainda não vieram a público. Lênin, mesmo morto, é um ser em construção, aos menos para os historiadores. A tradução é canhestra: o nome de um aliado de Lênin é escrito de cinco modos diferentes na mesma página! Mas o livro, dada a excelência da pesquisa, resiste aos maus-tratos da edição patropi.

O historiador Daniel Aarão Reis prepara para, a Companhia das Letras, “uma antologia com textos escritos enquanto a revolução se desenrolava. Traduzidos do russo, a maioria é inédita em português”, anota a “Folha”.

A Companhia das Letras lança “O Túmulo de Lênin”, de David Remnick. Como correspondente do “Washington Post”, o repórter estava na União Soviética quando o país se dissolveu, em 1991. Por isso fez uma retrato tido como preciso, inclusive por historiadores gabaritados, da queda do socialismo. Uma pena que, tendo sido publicado há vários anos, chegue ao Brasil um pouco tarde, depois da publicação de um livro melhor (com o acréscimo de pesquisas em documentos aos quais poucos jornalistas e historiadores tiveram acesso), “O Último Império — Os Últimos Dias da União Soviética” (Leya, 543 páginas, tradução de Luiz Antônio Oliveira), de Serhii Plokhy, professor de Harvard. O historiador observa que há uma tendência a sugerir que a corrida armamentista e jogadas dos Estados Unidos, notadamente de Ronald Reagan, foram decisivas para o fim da União Soviética. Ele admite que isto teve seu peso, mas atribui a queda mais a fatores endógenos, como a “crise” dos países que estavam agrupados à força sob o nome de União Soviética. A tendência separatista, com um Estado (o soviético) relativamente em frangalhos, se tornou incontrolável. Mikhail Gorbachev, ao produzir medidas liberadoras, abriu as portas para o “monstro” do separatismo. Há outro livro interessável sobre o assunto: “A Queda do Império Soviético” (Campus, 617 páginas, tradução de Álvaro Cabral), de Michael Dobbs. Como Remnick, Dobbs estava na União Soviética na época de sua dissolução, como correspondente do “Washington Post”. A Companhia das Letras publicou o magnífico “O Fim do Homem Soviético” (596 páginas, tradução de Lucas Simone), da jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch. São relatos, em geral doridos, das pessoas que viveram sob o socialismo e passaram a viver numa economia competitiva, vista como selvagem por muitos.

Vladimir Lênin e Ióssif Stálin: líderes da Revolução Russa de 1917

A Record prepara o lançamento de “A Maldição de Stálin”, de Robert Gellately. Segundo a “Folha”, trata-se de “uma visão que tenta mostrar as tramas do ditador para espalhar o socialismo pelo mundo”. Stálin financiou, por exemplo, Luiz Carlos Prestes no Brasil. Gellately é autor do estupendo “Lênin, Stálin e Hitler — A Era da Catástrofe Social” (Record, 798 páginas).

“Trotski”, de Robert Service, sairá pela Record. Há uma edição portuguesa. Robert Service é autor de biografias de Lênin (comentada acima) e de Stálin, além de um livro excepcional sobre a história dos comunistas (“Camaradas”).

A Editora 34 vai concluir a publicação dos “Contos de Kolimá”, de Varlam Chalámov. Um dos portentos editoriais do país, prova a seriedade e a competência da editora. Os contos, uma denúncia candente do stalinismo com seus campos de trabalhos forçados (e extermínio, frise-se), são literatura de primeira linha, mas também são documentos históricos de valor inestimável (tanto que Anne Applebaum usa as história fartamente no seu importante livro sobre o Gulag).

Sugestões para as editoras

Sugiro a tradução de quatro livros excepcionais sobre a Rússia. Três deles já publicados em Portugal e um em inglês e em espanhol (a edição que tenho em mãos).

1 — “Fortaleza Vermelha — O Coração Secreto da História da Rússia”, de Catherine Merridale, saiu em Portugal pela Editora Temas e Debates (664 páginas, tradução de Artur Lopes Cardoso). “Numa cultura que procura controlar a própria história, [o Kremlin] é um sobrevivente incômodo, uma testemunha magnífica, fascinante mas, em última instância, incorruptível, do coração escondido do Estado russo”, anota a professora da Universidade de Londres. Simon Sebag Montefiore escreve a respeito da obra: “Esta crônica do Kremlin é na realidade a história fantástica da própria Rússia, desde os primeiros czares passando por Lênin e Stálin até Putin; quem desejar compreender a Rússia atual não só ficará a saber muito mas também apreciará cada página deste livro”. Fica a dica para, entre outras, Amarilys, Companhia das Letras, Record e Intrínseca.

2— “O Baile de Natacha — Uma História Cultural Russa”, de Orlando Figes, professor da Universidade de Londres, é outro livro excepcional. Tenho a edição espanhola, “El Baile de Natacha — Una Historia Cultura Rusa” (Edhasa, 828 páginas, tradução de Eduardo Hojman). “Um estudo maravilhoso, exaustivo, magnífico… Uma delícia de leitura”, comentou o historiador Antony Beevor, expert em Segunda Guerra Mundial e Guerra Civil Espanhola. “Um desses livros que nos obrigam a perguntar: como pudemos viver até agora sem ele”, escreveu Robin Buss, no “Independent”.

3 — “A Cortina de Ferro — O Fim da Europa de Leste” (edição portuguesa da Civilização Editora, 697 páginas, tradução de Miguel Freitas da Costa), da historiadora Anne Applebaum, é um livro de qualidade ímpar e merece tradução brasileira.

4 — “Operações Especiais — As memórias de uma Testemunha Indesejada”, de Pavel Sudoplatov e Anatoli Sudoplatov, traduzido em Portugal (Europa-América, 543 páginas). Pavel Sudoplatov foi um dos principais articuladores do assassinato de Liev Trotski, no México, em 1940. Ele respondia diretamente a Stálin. A história está contada, detalhadamente, entre as páginas 89 e 110. É um relato valioso. Sobre o diplomata sueco Raoul Wallenberg, que salvou milhares de judeus na Segunda Guerra Mundial, mas foi assassinado pelos stalinistas, há um capítulo especial, entre as páginas 294 e 313. Como está saindo uma biografia categorizada de Trotski, vale publicar o livro do agente de Stálin.

Livros publicados que são obrigatórios

O leitor brasileiro tem sorte: o melhor livro sobre o movimento que balançou o século 20 já saiu no Brasil, trata-se de “A Tragédia de um Povo: A Revolução Russa — 1891-1924” (Record, 1103 páginas, tradução de Valéria Rodrigues), de Orlando Figes. O historiador britânico une o rigor da pesquisa acadêmica com uma prosa límpida. Pode-se sugerir que é a bíblia sobre a revolução forjada pelos bolcheviques de Vladimir Lênin, Liev Trotski e Ióssif Stálin. Figes é autor de outra obra magistral (e dolorosa): “Sussurros — A Vida Privada na Rússia de Stálin” (Record, 822, tradução de Marcelo Schild e Ricardo Quintana). Havia uma vida dupla ou até tripla na União Soviética. A pública, sempre discreta, para garantir a sobrevivência. A privada, silenciosa ma non tropo, o que assegurava a convivência familiar e as amizades (desconfiava-se de tudo, até dos familiares). E a íntima, que, esta sim, era uma garantia mais segura de que se poderia sobreviver. Figes conta a história de uma médica, filha de Kulaks, que escondeu sua história da década de 1930 até 1991. Com a extinção da União Soviética e o fim do socialismo, sentiu-se segura para revelar sua vida secreta, e quase inacreditável, aos familiares.

“História Concisa da Revolução Russa” (Record, 403 páginas, tradução de T. Reis), de Richard Pipes, é outro livro de alta qualidade sobre o golpe bolchevique. Crítico e muito bem informado.

Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (Companhia das Letras, 860 páginas, tradução de Pedro Maia Soares), de Simon Sebag Montefiore, é um estudo brilhante sobre o período stalinista. Enfim, é análise precisa de como o totalitarismo transforma os homens, tornando-os abjetos. Stálin mandou prender a mulher de Viatchelav Molotov, seu braço direito. Por quê? Porque era judia e porque queria testar a lealdade do “amigo”. Molotov, que morreu em 1986, aos 96 anos, não se moveu, optando por ficar ao lado de Stálin, abandonando Polina Mólotova no cárcere. Depois da morte do ditador, em 1953, os dois retomaram o casamento.

Há um livro brilhantíssimo, de um equilíbrio impressionante, que não mereceu resenhas calorosas no Brasil: “O Século Soviético — Da Revolução de 1917 ao Colapso da URSS” (Record, 500 páginas, tradução de Silvia de Souza Costa), de Moshe Lewin. O livro é elogiado por Ian Kershaw (“perspicaz e original, este soberbo livro de Moshe Lewin é uma aula magna), Eric Hobsbawm e R. W. Davies. Moshe Lewin é do tipo de historiador consciencioso que, mesmo sem usar a interpretação para forçar os dados (para forjar uma teoria), tira grande proveito deles, sugerindo que dizem mais do que parecem indicar. Seu livro, pela independência, ou pela relativa independência, é fadado a não agradar a esquerda e a direita militantes. Por isso, quem sabe, não foi muito comentado no Brasil quando lançado.

Três livros imperdíveis

Outra prova de que os leitores têm sorte: três livros excepcionais ganharam traduções, há algum tempo, no Brasil. “Mente Cativa” (Novo Século, 248 páginas), de Czesław Miłosz, é uma obra de alta qualidade, que merece leituras mais detidas. É uma análise precisa do totalitarismo. Ressalte-se que o escritor polonês ganhou o Nobel de Literatura pela sua produção poética.

A rigor, “1984” (Companhia das Letras, 416 páginas, tradução de Heloisa Jahn e Alexandre Hubner), do escritor inglês George Orwell (por sinal, nascido na Índia), é um romance. Mas é um romance incomum que implode o romance, porque, além de literatura, é história e é filosofia. Trata-se de uma análise cerrada e implacável do que o totalitarismo às vezes dissolve os homens, tanto os que torturam quanto os que são torturados, ao negar-lhe o direito de ir e vir, de agir livremente e, até, de pensar.

“O Zero e o Infinito”, de Arthur Koestler, ganhou duas traduções no Brasil, da Amarilys (304 páginas, tradução de André Pereira da Costa) e da Globo (238 páginas). É um dos livros fundamentais para entender o fenômeno totalitário.

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