Euler de França Belém
Euler de França Belém

Boris Schnaiderman era uma ponte segura entre as culturas russa e brasileira. Tradutor morreu na 4ª

Brasileiro leu grande parte da literatura russa de qualidade graças ao talento e ao empenho do tradutor e crítico

Boris Schnaiderman 2

Boris Schnaiderman era o homem que não podia morrer. Não vai morrer, pelo tanto que fez pela cultura. Fisicamente, morreu na quarta-feira, 19, aos 99 anos (de pneumonia), em São Paulo. Nasceu em 1917, na Ucrânia, no ano da Revolução Russa. Era formado em agronomia, mas dedicou toda a sua vida, ou a parte mais importante dela, à tradução, à crítica literária, à divulgação do que há de melhor na prosa e na poesia russas.

Como tradutor, Boris Schnaiderman era uma ponte entre culturas — a russa e a brasileira. O que há de melhor na literatura russa chegou às mãos dos leitores graça ao empenho e a perícia deste tradutor competente e generoso (sabem outros tradutores do russo). Ele parecia incansável. Aos 99 anos, permanecia escrevendo, publicando.

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Pense em Anton Tchékhov. Boris Schnaiderman nos deu uma excelente coletânea de seus contos. “Notas do Subterrâneo” (ou do “Subsolo”), a novela filosófica de Fiódor Dostoiévski, ganhou versão perfeita do mais brasileiro dos ucranianos (ao lado de Clarice Lispector). Os poetas foram traduzidos com perícia ímpar, com o apoio dos irmãos Campos, Haroldo e Augusto. O poeta Púchkin, pai da moderna literatura russa, chegou a nós numa tradução escorreita, numa parceria com o poeta Nelson Ascher. Guenádi Aigui, pouco conhecido entre nós, aportou no Brasil graças ao seu empenho. Assim como outros autores.

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Pode-se dizer que Boris Schnaiderman é o pai da tradução de qualidade da literatura russa no Brasil. Durante anos, traduzia-se os grandes da Rússia — Púchkin, Gógol, Tolstói, Turguêniev, Dostoiévski, Tchékhov, Isaac Bábel — a partir do francês (Rosário Fusco e Rachel de Queiroz eram alguns dos tradutores). A partir de Boris Schnaiderman, que chegou a publicar traduções de baixa qualidade (segundo o próprio), nos anos de aprendizagem, as traduções se tornaram de excelente qualidade. Aurora Fornoni Bernardini, Paulo Bezerra, Rubens Figueiredo, Irineu Perpétuo, Sônia Branco, entre vários outros, devem muito ao decano.

Ser múltiplo, Boris Schnaiderman era crítico literário, embora não se apresentasse como tal, de primeira linha. Escreveu sobre Dostoiévski, Maiakóvski, Bakhtin, Tchékhov, Tolstói, entre outros. Chegou a publicar uma pequena biografia de Tolstói. Era um crítico generoso, nada radical, sempre muito bem informado. Escreveu também sobre autores brasileiros.

No livro “Os Escombros e o Mito — A Cultura e o Fim da União Soviética”, que chamo de “Arquipélago Gulag da Cultura”, Boris Schnaiderman mostra como, além de matar milhões de pessoas, Stálin representou um verdadeiro massacre para a cultura. Autores não eram publicados, alguns escreviam uma obra e publicavam outra, outros tiveram romances, contos e poesias apreendidos pela NKVD e, depois, pela KGB.

Boris Schnaiderman lutou pelo Brasil e pelos Aliados na Itália, no fim da primeira metade da década de 1940, contra o nazi-fascismo. Sobre sua experiência na Segunda Guerra Mundial escreveu dois livros — um romance e memórias.

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