Euler de França Belém
Euler de França Belém

Bolsonaro estava se “acertando” com o presidente da China. Weintraub põe pedra no caminho

Donald Trump não se preocupa com ideologia e melhora relações com a China. Ministro brasileiro piora as relações

A crise gerada pelo coronavírus levará os países a uma recessão poderosa — talvez até a uma depressão. Entretanto, ao contrário do que pensam os ideólogos do governo do presidente Jair Bolsonaro, nenhum país — nem a China — sairá dela sozinho. A saída terá de ser global. Alguns auxiliares e aliados de Bolsonaro não têm percebido — ou não querem perceber — a dimensão da crise. Neste momento, em que o realismo (o pragmatismo) tem de ficar acima das ideologias, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, presta mais um desserviço aos brasileiros ao atacar (não é crítica, é ataque), de maneira racista, a China.

Na segunda-feira, 6, no Twitter, que parece ser o seu gabinete de trabalho, Weintraub frisa que a China saiu “fortalecida” por causa do coronavírus. O fato de que o coronavírus surgiu primeiro na China não é o mesmo que admitir que tenha sido “produzido” pelos chineses. O auxiliar de Bolsonaro postula que os dirigentes do país asiático têm “aliados no Brasil” (uma referência indireta aos governadores — como os exemplares Ronaldo Caiado, de Goiás, e João Doria, de São Paulo — que propõem o isolamento horizontal para salvar vidas).

Abraham Weintraub: uma pedra ideológica no caminho do Brasil | Foto: Agência Brasil

Mais uma vez (depois da gafe do deputado federal Eduardo Bolsonaro), a Embaixada da China não deixou o governo de Bolsonaro — que tem vários porta-vozes, como Olavo de Carvalho, Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Weintraub e Ernesto Araújo — sem resposta. “Deliberadamente elaboradas, tais declarações são completamente absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”, afirma nota da Embaixada. O governo chinês, por meio de seu representante no Brasil, frisa que “o lado chinês manifesta forte indignação e repúdio a esse tipo de atitude”.

Turma de Bolsonaro copia Trump, sem entender que a “vibe”

do presidente dos EUA, dada a gravidade da crise, já é outra

O problema da “atitude” de Weintraub, que aparentemente fala por Bolsonaro — há uma profunda e rasteira identidade entre os auxiliares tidos como “ideológicos” (alguns talvez nem saibam o que é ideologia) —, é que não contribui em nada para o entendimento da crise e, sobretudo, para melhorar as relações comerciais do Brasil com outros países, notadamente com a China, maior parceiro comercial da nação tropical. As palavras do ministro são proferidas a esmo. A turma de Bolsonaro copia Donald Trump, sem entender que a “vibe” do presidente dos Estados Unidos, dada a gravidade da crise, já é outra.

No sábado, para ironizar os chineses, Weintraub usou o Cebolinha, da Turma da Mônica — criação do notável Maurício de Sousa (que deveria desautorizar o ministro) —, para “brincar” de trocar letra. Os chineses seriam, na sua visão, “Cebolinhas” (o ministro deve ter faltado às aulas de Antropologia). “Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”, escreveu o ministro.

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, e o embaixador Yang Wanming: o Brasil precisa da China e a China precisa do Brasil | Foto: Reprodução

Mostrando mais percepção do que o ministro patropi, a Embaixada chinesa pontuou que o desafio do coronavírus não pode ser enfrentado tão-somente por um ou dois países. Porque se trata de um desafio mundial. “A maior urgência neste momento é unir todos os países numa proativa cooperação para acabar com a pandemia com a maior brevidade possível”, afirmam os chineses. É como se estivessem dando a dica ao governo brasileiro, a partir de sua história (experiência) milenar, de que o caminho não envolve, no momento, o conflito, mas a união, a paz, a cooperação.

O fato de que o novo coronavírus surgiu no território da China

não significa obviamente que o país asiático o tenha produzido

Os chineses sublinham que a Organização Mundial de Saúde (OMS), assim como a comunidade internacional — inclusive a científica —, não aceita a associação do novo coronavírus a um país ou a uma região. Estigmatizar a China (como fizeram com a Gripe Espanhola — que, a rigor, nem surgiu na Espanha) não é propósito de quem leva a política global a sério. “Instamos que alguns indivíduos do Brasil corrijam imediatamente os seus erros cometidos e parem com acusações infundadas contra a China”, enfatiza a Embaixada.

O grupo ideológico de Bolsonaro precisa ler, urgentemente, este livro de Henry Kissinger, que, sim, é de direita (o indivíduo) — não é de esquerda | Foto: Jornal Opção

Eduardo Bolsonaro não erra ao dizer que a China é uma ditadura — ainda que com mercado livre, o controle do Partido Comunista Chinês é evidente —, e até ao afirmar que o país demorou a prestar informações precisas, mas equivoca ao insinuar que a China é responsável pelo vírus. Vale repetir: O fato de ter surgido na China não significa que o país o tenha produzido com o objetivo de prejudicar outros países. Na sua resposta, o embaixador chinês, Yang Wanming, disse que o filho do presidente Bolsonaro havia contraído um “vírus mental”. Tal vírus estariam “infectando a amizade” entre o povo chinês e o povo brasileiro. Em seguida, Eduardo Bolsonaro publicou uma nota garantindo não havia ofendido o povo chinês. Depois, Jair Bolsonaro conversou com o presidente da China, Xi Jinping.

Mas no meio do caminho há uma pedra, quer dizer, um Weintraub. Se Bolsonaro pensasse em qualidade, e não em reeleição, deveria implicar não com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e sim com o ministro da Educação — cada vez mais “Saentraub”.

Que sorte tem os Estados Unidos. O Abraham de lá é Lincoln. O nosso Abraham é Weintraub.

(A turma de Bolsonaro, dizem, não é dada a leituras: não sobra tempo, pois passa o dia todo no Twitter. O cérebro, pulmão da alma e centro da inteligência, precisa “respirar”, até de certo ócio criativo. Portanto, se sair Twitter ao menos uma hora por dia, os olavo-boys terão tempo para ler “Sobre a China”, de Henry Kissinger. Ah, vale lembrar ao ministro da Patrulha Digital, Carluxo Bolsonaro, que Kissinger não é comunista; antes, é de direita. Mas poucos entendem a China tão bem.)

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