Euler de França Belém
Euler de França Belém

Bolsonaro está derretendo porque briga com tudo mundo e não só pela crise econômica e sanitária

Aliados do presidente que acham que tudo o que ele e seus filhos dizem está certo podem levá-lo à ruína na disputa de 2022

Percebe-se que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro estão perplexos com o “derretimento” de sua popularidade. Dados de institutos de pesquisa de reconhecida seriedade —Datafolha e XP/Ipespe — sugerem que, se o quadro não mudar, o candidato do PT a presidente, Lula da Silva, tem chance de ser eleito no primeiro turno. Levantamentos também sugerem que há espaço para um postulante da terceira via — o problema é que, a um ano das eleições, não há um político de centro que se aproxime de Bolsonaro quanto mais do petista. Mas é possível que, com um discurso afiado e propostas consistentes, um nome de centro possa superar o presidente e se tornar um risco para o concorrente da esquerda.

Flávio, Jair Messias, Eduardo e Carlos Bolsonaro | Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE

Mas por que, exatamente, Bolsonaro está “derretendo?” Por causa de crise econômica? Sim. Mas não só. Devido aos equívocos ocorridos no combate à Covid-19? Também. Mas não só. O fato de brigar com quase todo mundo, inclusive com aqueles que não se postavam como seus adversários — o que inclui amplos setores da mídia (que bolsonaristas chamam de “grande mídia”) —, parece ter criado arestas intransponíveis. Um dia briga com ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. No outro ataca deputados e senadores. Em seguida, briga com jornalistas e empresas de comunicação. Não satisfeito, permite que aliados ataquem a China — o principal parceiro comercial do Brasil. Industriais e empresários do agronegócio obviamente não ficam satisfeitos, temendo perdas comerciais. Banqueiros, percebendo a queda dos investimentos no país — o discurso do presidente choca o mundo, que o transforma, cada vez mais, em pária —, também caminham para a “oposição”.

No momento, dada sua capacidade de desagregar, Bolsonaro prega para os “convertidos”, mas eles, se ajudam a mantê-lo com pouco mais de 20% das intenções de voto, não o ajudarão na reeleição. Os aliados, de matiz fundamentalista, avaliam que tudo que o presidente diz está certo. Sendo assim, longe de ajudá-lo, contribuem para seu “derretimento”. Os aliados, se quiserem contribuir com a “estabilização” de sua imagem, terão de apontar os erros que vem cometendo. Parte do Centrão já articula com Lula da Silva, numa transição antecipada. Porque avaliam que Bolsonaro se tornou um “caso perdido”.

Se Bolsonaro está “certo”, de acordo a maioria dos bolsonaristas, e está “derretendo”, perdendo apoio inclusive de parte daqueles que votaram nele em 2018, o que é está errado? Talvez quase tudo

Entre os problemas de Bolsonaro estão seus filhos — espécie de Família Encrenca. O vereador Carlos Bolsonaro é suspeito de chefiar uma rede que cria e espalha fake news nas redes sociais. Renan Bolsonaro anda com lobista. O senador Flávio Bolsonaro, além do esquema da rachadinha, se tornou uma espécie de empreendedor imobiliário — comprando mansão de 6 milhões de reais em Brasília. Eduardo Bolsonaro prega que, para fechar o STF, basta um cabo e um soldado.

Patrícia Campos Mello: repórter da “Folha de S. Paulo” | Foto: Reprodução

Na semana passada, desconsiderado um recurso, a Justiça de São Paulo manteve a condenação de Eduardo Bolsonaro e elevou a indenização que terá de pagar à jornalista Patrícia Campos Mello, da “Folha de S. Paulo”, de 30 mil para 35 mil reais. O deputado também terá de pagar as custas processuais e os advogados que atuam na ação.

Eduardo Bolsonaro disse que a jornalista Patrícia Campos Mello — mulher decente e repórter brilhante e premiada — tentou seduzir Hans River do Nascimento para obter informações contrárias ao presidente Bolsonaro. Não é verdade. O que disse é a velha tática para tentar “desclassificar” mulheres. A advogada da “Folha de S. Paulo” e de Patrícia Campos Mello é responsável por uma síntese precisa: “O que ficou claro, no julgamento, foi que o Tribunal de Justiça de São Paulo entende ser intoleráveis as manifestações de conteúdo misógino dirigidas às mulheres. As declarações que Eduardo Bolsonaro fez contra Patrícia Campos Mello são inaceitáveis. Ao atribuir uma atitude dessa à jornalista, o deputado atinge não apenas a jornalista Patrícia, mas a todas as mulheres, como se só pudessem ter sucesso com esse tipo de expediente”.

Ante o excesso de Eduardo Bolsonaro, cadê os bolsonaristas — porque muitos deles são decentes e não comungam com o que disse o parlamentar — para apontar o equívoco? Concordar com tudo o que diz um político pode levá-lo à ruína. Se Bolsonaro está “certo”, de acordo a maioria dos bolsonaristas, e está “derretendo”, perdendo apoio inclusive de parte daqueles que votaram nele em 2018, o que é está errado? Talvez tudo, ou quase tudo. Se continuar desagregando, permitindo que os filhos e aliados ofendam as pessoas, é possível, até, que o presidente fique fora do segundo turno.

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