Euler de França Belém
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Bob Woodward revela que Donald Trump aprecia ditadores, como Kim Jong-un, da Coreia do Norte

O livro “Rage”, que será lançado em outubro no Brasil, conta que, apesar de minimizar a Covid-19, o presidente sabia de sua gravidade desde fevereiro

No Brasil há quem pense que, se o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é de direita, logo o ex-presidente Barack Obama é de esquerda, uma espécie de Lula da Silva ianque. Trata-se de uma ilusão, quiçá santa e benigna. Na terra de Herman Melville, Henry James e William Faulkner não há — e certamente não haverá enquanto o país continuar como um Império, ainda que republicano — espaço para um presidente de esquerda. Todos os políticos com chances reais de se tornarem presidente dos Steites são, necessariamente, integrantes do establishment liberal.

Portanto, Barack Obama é liberal e não chega a ser socialdemocrata. Não é um político sueco ou norueguês disposto na nação de Scott Fitzgerald, que certamente adoraria escrever sobre a elite americana dos tempos atuais (nem mesmo Barack Obama, o grande Barack Obama, que admiro, chega aos pés, em termos de mudança na sociedade americana, de Franklin D. Roosevelt). Presidentes democratas foram positivos para a política de direitos humanos no Brasil. Na ditadura civil-militar, os EUA, presididos por Jimmy Carter, um democrata, pressionou por medidas liberalizantes e criticou a violência contra esquerdistas e democratas. Em termos de economia, os democratas sempre foram mais protecionistas do que os republicanos. Assim como, por vezes, foram mais intervencionistas. Donald Trump, apesar das bravatas, é mais isolacionista do que intervencionista.

Bob Woodward e Donald Trump: o repórter e o presidente | Foto: Reoprodução

Donald Trump foi “inventado” por parte da elite americana para “isolar” os Estados Unidos, atraindo parte de suas empresas — que estão em outros países por causa de mão de obra e matérias-primas baratas —, mas o projeto parece “não” ter dado certo. As classes médias apreciam o presidente porque representa teoricamente a força dos Estados Unidos — como o “mandão” no mundo (e o político, repita-se, é isolacionista) —, o país de Emily Dickinson e Marianne Moore “para os americanos”.

Visto de fora, dado seu palavreado excessivo e virulento, Donald Trump é meio monstruoso — um Jair Bolsonaro “acenourado”. Os americanos em geral, fora do establishment democrata e da esquerda universitária, o percebem como um defensor intransigente dos Estados Unidos. Por isso, tem chance de derrotar Joe Biden, o candidato do Partido Democrata — que lidera as pesquisas de intenção de voto. É possível que, na batalha contra a China, as elites queiram mudar o discurso, retirando de cena a beligerância de Donald Trump e substituindo-a pelo soft power dos democratas? Se querem, vão deixar o republicano por conta própria, assistindo-o ser atropelado pela máquina democrata, que, embora também pertença ao establishment americano, soa quase de esquerda. Algumas de suas ideias, nas questões sociais e raciais, ainda que, insistamos, sejam diferentes do que faz a socialdemocracia europeia, são de fato mais avançadas do que as republicanas. São, digamos, mais atualizadas.

Kim Jong-un e Donald Trump: o americano tem apreço por ditadores | Foto: Reprodução

O jornalista Bob Woodward, cujas reportagens — em parceria com Carl Bernstein — contribuíram para levar o presidente Richard Nixon à renúncia, há 46 anos, em 1974, é um mestre do jornalismo que busca entender os representantes do país de Walt Whitman de maneira mais ampla, sem preconceitos ou motivação ideológica. Seus livros julgam a partir da compreensão precisa do que mostra. No momento, está buscando entender Donald Trump. Parece ser fácil, porque o presidente é visto como unidimensional. O que o jornalista do “Washington Post” tem mostrado, por exemplo em “Medo — Trump na Casa Branca” (Todavia, 432 páginas, tradução de André Czarnobal, Paulo Geiger, Pedro Maia e Rogério Galindo), é como funciona, de fato, a mente do presidente e como governa.

Agora, Bob Woodward lança “Rage” (“Raiva”), que estará disponível em outubro, em versão digital, pela Editora Todavia. O livro resulta de entrevistas concedidas por Donald Trump ao jornalista do “Post” (trabalha há 49 anos no jornal e é sempre consultado pela direção do jornal, inclusive pelo dono, Jeff Bezos).

Entre as revelações de Bob Woodward está a de que Donald Trump sabia que a Covid-19 era muito grave desde fevereiro deste ano. Mesmo assim, o republicano minimizou os efeitos, em alguns casos letais, da doença.

Bob Woodward, que já chegou a ser criticado por Donald Trump, publica no livro as cartas trocadas entre o americano e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un. O jornalista relata que o presidente americano, se critica o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, elogia ditadores. Ele se considera “amigo” do bárbaro coreano.

As 17 entrevistas concedidas por Donald Trump são o ponto de partida do livro. Mas Bob Woodward ouviu outras pessoas e pesquisou documentos para escrever a obra.

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