Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia sugere que Stálin derrotou Trotski porque era pragmático e não porque fosse um monstro

Numa biografia excepcional, o professor de Oxford Robert Service redimensiona Trotski e o mostra tão violento quanto Stálin, porém com menos capacidade de articulação

Biografia escrita pelo historiador britânico Robert Service revê o papel
de Liev Trotski na Revolução Russa e explicita os motivos pelos quais
perdeu o poder para Stálin, um político intelectualmente menos dotado

O leitor que apreciou o excelente romance histórico “O Homem Que Amava os Cachorros” (Boitempo, 592 páginas, tradução de Helena Pitta), do escritor cubano Leonardo Padura, não deve perder sua, digamos, matriz — a biografia “Trotski” (Record, 768 páginas, tradução de Vera Ribeiro), do historiador britânico Robert Service. Basta dizer que é, sem tirar nem pôr, a melhor biografia do líder político que, ao lado de Vladimir Lênin, comandou a Revolução Russa de 1917. Resulta de uma pesquisa exaustiva e, apesar do caráter acadêmico — o autor é professor de Oxford —, é muito bem escrita, sem jargões. Liev Davidovich Bronstein, nascido na Ucrânia em 26 de outubro de 1879 e assassinado no México em 1940, mantém sua estatura, porém, nuançado, fica mais falível, portanto demasiado humano, menos uma espécie de Deus que não deu certo.

Robert Service beneficiou-se da abertura dos arquivos soviéticos e documentos existentes noutros países. Os Arquivos Hoover guardam “o rascunho inicial da autobiografia de Trotski, que contém muitas informações excluídas por ele da versão impressa”. “A maior parte” da documentação “é usada pela primeira vez” na biografia.

O livro, sustenta o pesquisador, “é a primeira biografia completa de Trotski a ser escrita, fora da Rússia, por um autor que não é trotskista. Trotski [na autobiografia] foi seletivo, evasivo e autoengrandecedor em seu relato, e [Isaac] Deutscher e [Pierre] Broué deixaram de fazer muitas das perguntas incômodas e necessárias a respeito dele. Broué era um idólatra; Deutscher, mesmo acreditando que o regime soviético depois de Stálin poderia corrigir-se e construir uma ordem comunista humana, rezava pela cartilha de Trotski. (…) A história da Revolução Russa merece uma abordagem mais investigativa, e esta biografia tenciona contribuir para tudo isso”.

Visto como deus por aqueles que detestam Stálin, Trotski — apontado por Robert Service como “o melhor orador da Revolução Russa” — “chefiou o Comitê Militar-Revolucionário que derrubou o governo provisório em outubro. Contribuiu mais que qualquer outra pessoa para fundar o Exército Vermelho”.

Homem de inteligência aguda, Trotski subestimava seus adversários, sobretudo o principal deles, Stálin. Ao contrário do que pensava, afirma Robert Service, “Stálin não era nenhum medíocre e tinha uma gama impressionante de habilidade, bem como talento para uma liderança decisiva”. A biografia sugere que as ideias e práticas tanto de Lênin quanto de Trotski foram úteis para fortalecer a posição de Stálin. “Este, Trotski e Lênin tinham mais coisas em comum do que discordâncias entre si. (…) Aproximava-se de Stálin nas intenções e na prática. Trotski não elaborou um modo de passar da ditadura partidária para a liberdade universal. Comprazia-se com o terror.”

Comumente, dada a monstruosidade das ações de Stálin, tende-se a demonizá-lo e, digamos, “perdoar” Trotski, com o esquecimento de suas ações quando partícipe do governo bolchevique. “Se algum dia Trotski tivesse sido o líder supremo, em vez de Stálin, os riscos de um banho de sangue na Europa teriam sofrido um aumento drástico”, frisa Robert Service. “Qualquer um que governasse a URSS de forma eficaz precisaria de métodos profundamente autoritários para conservar o poder comunista.” O sistema que os bolcheviques forjaram, nada democrático, “cobrava” violência para mantê-lo.

Segundo Robert Service, sempre escrevendo para obter um lugar adequado na história, Trotski “exagerou sua importância pessoal”. “Sua contribuição para o avanço bolchevique no poder foi importante, mas não no grau afirmado por ele. Embora tenha levado uma autoridade unificadora para o Exército Vermelho em 1918-1919, ele também provocou problemas desnecessários e cometeu erros evitáveis. Nos anos seguintes, continuou inconstante e indigno de confiança. Faltava-lhe refinamento tático. Ele era um indivíduo arrogante e, mesmo em tempos de adversidade pessoal, nas décadas de 1920 e 1930, deslumbrava seus seguidores com sua preeminência, mas não conseguia convencê-los nem encorajá-los plenamente.”

Na visão do biógrafo, Trotski “era melhor administrador que político. Stálin sabia fazer o jogo melhor que ele. Trotski não foi derrotado nas mãos da ‘burocracia’: perdeu para um homem e um grupo que tinham uma compreensão superior da vida pública soviética”.

Na questão da violência, como avaliar Trotski, que deixou a União Soviética antes de 1930? Não era santo. “Seu gosto pela ditadura e pelo terrorismo mal foi disfarçado na guerra civil. Ele ignorou os direitos civis de milhões de pessoas, inclusive os trabalhadores da indústria. Era de um egocentrismo extremo”, relata Robert Service. Entre 1917 e 1922, Trotski esmagou a oposição no partido e nos sindicatos de modo brutal. “Passava por cima da resistência institucional sempre que queria ação rápida e obediência. Tinha uma maior propensão para dar ordens do que para a discussão; era arrogante e imperioso. Os trotskistas inventaram um homem e um líder que tinha apenas um vago parentesco com Liev Davidovich Trotski.”

Ióssif Stálin e Liev Trotski: os dois travaram uma batalha sem quartel, mas o primeiro era mais dotado para a política e, por isso, venceu o oponente

Trotski poderia ter prevalecido? Sim, porque, na prática, não era muito diferente de Stálin. “As medidas políticas de Trotski enquadravam-se no arcabouço do autoritarismo comunista e tinham uma autêntica probabilidade de vitória. Até sua origem judaica era um obstáculo superável. Para sua infelicidade, seu instinto tático era mal desenvolvido. Ele era inábil para reunir adeptos. Alienou desnecessariamente um número exagerado de pessoas, em todos os níveis do partido. Ele mesmo foi, de longe, seu pior inimigo”, destaca Robert Service.

Stálin não desconhecia teoria, mas era mais pragmático do que Trotski e a maioria dos líderes bolcheviques. “O que faltava a Trotski era a disposição de concentrar seus esforços. Ele foi um perpétuo revolucionário, nunca um político em tempo integral. Sua preocupação com seus escritos prejudicou sua capacidade de enfrentar um homem como Stálin, que dedicava todas as suas horas de vigília à promoção de sua carreira e suas medidas políticas.”

Trotski, embora fosse duro e inflexível, “desprezava a necessidade do jogo sujo. Para ele, na corrida pela sucessão de Lênin, o obstáculo insuperável foi o fato de lhe faltar o desejo preponderante de se tornar” o líder de que a revolução comunista precisava. “Ele se sentia melhor como um contendor derrotado do que como um lutador consumido pela ambição de vencer. Não desejava com suficiente intensidade a autoridade suprema”, afiança Robert Service. “A morte lhe chegou prematuramente, por ele haver lutado por uma causa mais destrutiva do que jamais teria imaginado.”

A biografia redimensiona o heroico Trotski construído pelos trotskistas e o torna uma figura terrena. Robert Service conclui, ao final, que ele “foi um ser humano excepcional e complexo”. Intelectualmente era brilhante. Mas, em termos estritamente políticos, ficava aquém de Stálin, daí sua derrota. O adversário venceu Trotski não porque fosse um monstro, e sim porque era mais articulado e sabia fazer as alianças apropriadas. Pode-se sugerir que Trotski entendeu Maquiavel na teoria e Stálin, na prática.

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