Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia revela a história do grande amor lésbico da escritora francesa Françoise Sagan

A grande paixão da vida da autora de “Bom Dia, Tristeza” foi a estilista francesa Peggy Roche. A escritora vendia livros como Paulo Coelho, talvez até mais

Françoise Sagan e Peggy Roche: o fato é que mulheres revolucionárias, em termos de comportamento, estão sempre adiante de seu próprio tempo. É o caso da escritora e da estilista francesas, que viveram um grande amor

O escritor Paulo Coe­lho é um fenômeno internacional. Na Europa, além de best seller, é um mito. Antes dele, a França teve uma escritora, certamente mais relevante do que o brasileiro, destacada tanto no próprio país quanto no exterior. Trata-se de Françoise Sagan (1935-2004), autora do romance “Bom Dia, Tristeza” (filmado em 1958 pelo diretor Otto Preminger, com os atores Jean Seberg, David Niven e Deborah Kerr) e editadíssima no Brasil. É um mito em termos literários e de comportamento. A biografia (resenha francesa menciona “romance”) “Peggy Dans les Phares” (Flam­marion, 256 páginas), da canadense Marie-Ève Lacasse, põe lenha na fogueira ao contar a história do amor lésbico entre a autora de “A Mulher Pintada” e a estilista Peggy Roche. A resenha “Peggy Roche, el gran amor de Françoise Sagan” (base do meu texto), de Juan Pedro Quiñonero, saiu no jornal espanhol “Abc”.

Quiñonero frisa que Françoise Sagan, “o pequeno monstro”, era famosa e milionária e que se consagrou como autora de “histórias de amor ‘convencionais’, melancólicas e desencantadas. Mas seu grande amor foi outra mulher, Peggy Roche, sua protetora contra carros de corrida, o álcool, a cocaína e o ópio”. A história do caso entre as duas é finalmente revelada, de maneira abrangente, por Marie-Ève Lacasse.

Aos 18 anos, em 1954, com a publicação de “Bom Dia, Tristeza”, Françoise Sagan se tornou famosa repentinamente. Françoise Quoirez, seu nome verdadeiro, era oriunda de uma família burguesa. A escritora passou a usar Sagan — “homenagem a um personagem principesco de Marcel Proust” — para não envergonhar o pai. Escritores não tinham boa reputação, pois eram vistos como “dissolutos”.

Com a fama, Françoise Sagan começou a viajar para outros países. Nos Estados Unidos, em Nova York, conheceu o editor Guy Schoeller, com quem se casou e viveu dois anos. Celebrada e cortejada internacionalmente — vista como uma rebelde, quase uma Sartre às vezes de saia —, era uma estrela. Casou-se com o modelo americano Robert Westhoff, bissexual, que se tornou pai do único filho da escritora.

Quando se conheceram, Françoise Sagan e Peggy Roche estavam casadas, com homens, e eram mães. A escritora e a estilista deixaram tudo para viver um grande amor. A escritora ainda estava casada com Schoeller e a estilista, com o ator Claude Brasseur. “Marie-Ève Lacasse conta que Sagan e Roche se amaram desde o primeiro dia no qual se conheceram, mas sua união não chegou a ‘formalizar-se’ até que ambas se divorciaram e puderam instalar-se em um legendário apartamento do distrito XIV de Paris, por onde desfilaram um número impreciso de amantes, homens e mulheres, de diferentes idades”, relata Quiñonero.

Como muitas pessoas, e não só famosas, Françoise Sagan tinha uma vida pessoal complexa. “Depois de um acidente, ao volante de seu Aston Martin, Sagan foi tratada com doses intensivas de Palfium, um opioide três vezes mais potente do que a morfina. Começou então sua lenta, inexorável e fatal queda no inferno das drogas (da cocaína ao ópio) e do álcool. Bem jovem, Sagan era uma motorista perigosa, ao volante de automóveis esportivos de grande luxo (Maseratti e Aston Martin, de preferência) e havia ganhado grande fama como jogadora de grandes lances, depois de faturar mais de 8 milhões de francos jogando na roleta. As drogas acentuaram essas tentações”, assinala o “Abc”. “O ópio é a maneira eficaz que conheço de levar com elegância as trivialidades da vida”, dizia a escritora.

O livro da pesquisadora Marie-Ève Lacasse resgata a história da paixão entre Françoise Sagan, best seller internacional e um mito da França, e Peggy Roche, estilista celebrada

Bettina Braziani, Charlotte Aillaud e Annick Geille mantiveram relacionamentos amorosos com Françoise Sagan. Mas nenhum igualou-se à relação da escritora com Peggy Roche. Eram, além de amantes, amigas. A estilista agia também para proteger a paixão célebre. Nos momentos em que a escritora se tornou agente de escândalos, como fraude fiscal e sonegação de impostos, estava sempre ao seu lado para protegê-la. Nas batalhas contra o Estado, que sempre quer arrancar mais dinheiro dos indivíduos para financiar a máquina pantagruélica, recebeu o apoio do líder socialista François Mitterrand. Mas o amparo emocional era dado pela estilista.

O filho de Françoise Sagan, Denis Westhoff, revelou que a mãe dilapidou sua fortuna. Primeiro, porque era extremamente generosa e emprestava e, até, dava dinheiro para pessoas não confiáveis. Segundo, porque gastava de maneira “irresponsável”. Quando morreu, Sagan deixou, como herança, dívidas milionárias. O filho teve de assumi-las. A resenha não diz, mas, com os direitos autorais — os livros da autora provavelmente continuam vendendo bem e ninguém deve ficar surpreso com um revival de sua obra —, Westhoff deve ter ganhado muito dinheiro.

A biógrafa afirma que, mais organizada, Peggy Roche tentou frear os escândalos de Françoise Sagan. Porém, como morreu em 1991, não teve mais como ajudá-la. Sem o apoio racional da estilista, a vida da escritora piorou.

Para além da vida, dos escândalos, o que fica para avaliar é a obra multifacetada de Françoise Sagan. Per­manecerá como a literatura de Stendhal, Flaubert, Proust e Gide? É cedo para avaliar. Sua obra não é ruim, no geral, mas não tem a força da literatura dos quatros citados e de Alain Robbe-Grillet, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, Claude Simon e, para mencionar um mais recente, Michel Houellebecq. Françoise Sagan escreveu romances, peças de teatro, ensaios, artigos para jornais. Ela vivia de literatura e sempre ganhou muito dinheiro. A vida de luxo, de gastos extravagantes, era financiada por sua produção cultural. Quer dizer, o público a adorava, como ama hoje Paulo Coelho. Ela era uma pop star, sempre esfuziante, rebelde.

As pessoas, desde que não prejudiquem a vida das outras, podem e devem viver como querem. Assim viveu Françoise Sagan. É provável, até, que sua vida complicada tenha contribuído para que deixasse uma obra ampla, ainda que de qualidade desigual. Não há nada que garanta que, se tivesse levado uma vida regrada, teria deixado uma obra de mais qualidade. Creio que é preciso avaliar com menos rigor aqueles criadores culturais que têm ou tiveram vida desregrada. Não se deve tentar “normatizá-los” ou “normalizá-los” pelo julgamento moral. Digo isto dado o final da resenha do “Abc”: “O talento literário de uma adolescente e jovem do grande mundo se gastou em vão, com uma elegância suprema, para ganhar muito dinheiro”. Seu objetivo era mesmo só ganhar dinheiro? Talvez sim, talvez não, ou talvez ganhar dinheiro, fama e um lugarzinho na história da literatura francesa. Será mesmo que gastou o talento em vão? O mais provável é que, apesar do modo como vivia, tenha produzido uma obra de acordo com o que planejava. “Bom Dia, Tristeza”, embora não possa ser comparado ao romanção “Em Busca do Tempo Perdido”, é um belo romance. Entretenimento de primeira linha, diria Graham Greene. Quiñonero acrescenta: “Era necessário pagar uma residência na Normandia, os negócios falidos de seu grande amor, os carros esportivos (que eram rapidamente destruídos), as noites nem sempre afortunadas de jogo e droga. Peggy Roche fez o que pôde para tentar controlá-la”. O que se deve entender (ou aceitar) é que a vida é assim mesmo — acidental, como sugerem o filósofo anglo-letão Isaiah Berlin e a escritora australiana Shirley Hazzard. Não é previsível e não dá para orientá-la inteiramente para um rumo. Há pessoas certinhas que passam pela vida e não deixam marcas às vezes nem mesmo na história da própria família. Françoise Sagan era avessa às “normas” de “boa conduta” (que, por vezes mas não sempre, são quase um tipo de higienização), mas deixou uma marca na cultura francesa e, quem sabe, até mesmo no comportamento dos franceses. O fato é que as mulheres que são revolucionárias, em termos de comportamento, estão sempre adiante de seu próprio tempo.

“Françoise Sagan — Bio­grafia” (Paz e Terra), de Jean-Claude Lamy, é o único estudo da vida da escritora em português, ao menos no Brasil. A maioria dos livros da escritora pode ser encontrada nos sites (por preços convidativos, sinal de que a fama da escritora decaiu) que vendem livros usados, como www.estantevirtual.com.br, www.portaldoslivreiros.com.br e www.livronauta.com.br. Além dos citados, podem ser adquiridos: “A Cama desfeita”, “Fundo Musical”, “Olhos de Seda”, “Dentro de um Mês, Dentro de um Ano”, “Sangue de Aquarela”, “Um Perfil Perdido”, “Tempestade sem Bonança”, “A Coleira”, “Cansado de Guerra”, “O Guardador de Meus Amores”, “A Chamada”, “Um Certo Sorriso”, “O Cão Vadio”, “O Demônio da Guarda”, “Cicatrizes na Alma”, “Minhas Melhores Lembranças”. “Bom Dia, Tris­teza” pode ser adquirido por 5 e 6 reais. (O texto do “Abc” pode ser conferido aqui.

Uma resposta para “Biografia revela a história do grande amor lésbico da escritora francesa Françoise Sagan”

  1. Avatar JOAO DANIEL MIGLIORINI disse:

    Por favor, eu li uma afirmação, como não sei onde eu teria lido, pergunto. A expressão “quem come é a mulher, não o homem” teria sido de Françoise Sagan? Em que livro, Bom Dia Tristeza?

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