Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia resgata a história de Federico Jayme, um grande homem público

Ao lado de Henrique Santillo, o ex-deputado enfrentou a ditadura civil-militar e contribuiu para a ascensão política de Iris Rezende, em 1982

O livro mostra que, enquanto Iris Rezende permaneceu cassado — portanto, sem condições de enfrentar a ditadura —, políticos como Henrique Santillo, Frederico Jayme, Adhemar Santillo, Derval de Paiva, João Divino Dornelles criticaram o regime militar e poderiam, pelo menos dois deles, ter disputado o governo em 1982, mas optaram por reparar uma injustiça histórica e abriram espaço para o hoje prefeito de Goiânia disputar o governo

Frederico Jayme Filho, nascido em Pirenópolis em 1948, é, antes de tudo, um notável homem público. Como indivíduo, pela firmeza e pela retidão de caráter, talvez seja possível qualificá-lo de uma força da natureza. Em tempos idos, seria nominado de “varão de Plutarco”. Talhado para ser governador de Goiás, dados seu brilhantismo político e suas qualificações técnicas, não o foi. Por quê? — perguntará o leitor deste belo e caudaloso livro do pesquisador Nilson Jaime. Não é fácil responder, mas é possível arriscar uma hipótese.

Na ditadura, os governantes eram indicados pelos generais de Brasília conluiados com as elites locais da Arena. Portanto, entre 1964 e 1982, não havia chance alguma de Frederico Jayme, fundador do MDB, se tornar governador. Nos tempos democráticos, por ser filiado ao PMDB, encontrou outro muro de Berlim — Iris Rezende Machado. Como nunca se submeteu a ninguém — nem aos generais da ditadura; sob o regime militar, permaneceu sempre crítico, altivo e ativo —, esbarrou num aliado, Iris Rezende, que sempre se comportou como dique àqueles que tinham e têm grandeza moral e não faz concessões. O decano emedebista tem o hábito de cercar-se de áulicos, que o obedecem cegamente, sem questioná-lo. Como Frederico Jayme tem ideias próprias, não aceitando o comportamento de rebanho, chocou-se com o comando do líder obtuso (no sentido político).

Em 2006, deixou o Tribunal de Contas do Estado com o objetivo de ser vice do candidato do PMDB a governador, Maguito Vilela. Entretanto, o influente Iris Rezende vetou seu nome. Porque acreditava que, se Maguito Vilela fosse eleito, Frederico Jayme, devido suas imensas qualidades de político e gestor — não há a menor dúvida de que deve ser considerado o mais importante, no sentido global, presidente da história do TCE (tornou-o respeitado e uma barreira às ilegalidades e às pressões) —, exerceria uma sólida e benfazeja influência sobre o governo. Por isso, na calada da noite, Iris Rezende “rifou” Frederico Jayme do jogo político.

Pode-se sugerir que, se fizesse concessões — como romper a sólida amizade que manteve com a família Santillo, os Irmãos Coragem de Anápolis (Henrique, Adhemar e Romualdo) —, Frederico Jayme teria ido longe, muito longe. Porém, como não é homem de agachar-se e de fazer concessões, acabou preterido. Mesmo assim, sua história não é jamais a de um derrotado. Trata-se de um vitorioso. Foi eleito deputado estadual três vezes, sob tempos difíceis — em que alguns se escondiam por receio das mãos pesadas dos generais e das vivandeiras da Arena —, foi secretário de Segu­rança Pública (policiais e a sociedade apontam que figura entre os mais eficientes e respeitáveis) e presidente do TCE por quatro vezes. Além de, como presidente da Assembleia Legislativa, ter sido governador interino de Goiás.

Antes de expor um pouco mais sobre Frederico Jayme, vale acrescentar algumas palavras sobre o livro de Nilson Jaime. Claro, não é uma “contra-biografia” — no sentido de desconstrução do personagem histórico —, mas também não é uma hagiografia. Embora seu doutorado seja na área de Agronomia (escreveu uma bíblia sobre formigas), Nilson Jaime é um intelectual de perfil clássico, um polímata. Estuda história a fundo, conhece os planos gerais e os detalhes, e escreve muito bem, como estilista da Língua Portuguesa. Portanto, creia-me, o livro é uma autêntica história de Goiás escrita a partir da vida de Frederico Jayme (e há textos de colaboradores que ajudam a iluminar a história de Goiás). Ao vasculhar as atividades de seu objeto de estudo, por longos anos, o habilidoso pesquisador soube conectá-las à história do Estado e do país.

É possível que algum leitor avalie que o biógrafo “agigante” seu personagem. Trata-se de um equívoco. Nilson Jaime, e é um dos feitos do livro, não procura “aumentar” a participação de Frederico Jayme nos eventos históricos. Pelo contrário, situa o indivíduo, fornece o contexto histórico em que atua com rara perspicácia. O agente influencia a história e a história o influencia. O personagem poderia ter ido mais longe, mas as contingências não permitiram. Os “drummonds” no meio do caminho são registrados com precisão, até distanciamento, e sem lamúrias. Preciso, o estudioso fornece as informações, de maneiras matizadas, e deixa o julgamento, ou parte do julgamento, para os leitores. Pode-se falar que o próprio Frederico Jayme, nesta biografia autorizada, se descobrirá múltiplo, um ser humano mais rico, vasto e contraditório. Não um homem perfeito, mas um grande homem de seu tempo, imerso, até com fervor, nas coisas de seu Estado, de sua sociedade.

Na ditadura

Os militares, com o apoio de vários civis — até de gente de valor, como Bilac Pinto e Milton Campos —, alguns deles vivandeiras clássicas, como Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, chegaram ao poder entre 31 de março e 1º de abril de 1964. Frederico Jayme, integrante de uma família de democratas — tão radicais quanto corajosos —, era adolescente, com quase 16 anos de idade. Dois anos depois, aos 18 anos, alia-se aos irmãos Santillo e contribui para a organização do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Anápolis. Era o partido de oposição à ditadura e ao partido desta, a Arena. Os Santillo ficaram cristalizados como Irmãos Coragem, porque, num tempo em que todos tinham receio de cassação, eram posicionados e críticos do regime civil-militar. Eles eram três — Henrique, o mais intelectualizado, Adhemar Santillo e Romualdo. Todos figuras admiráveis. Talvez seja possível sugerir que Frederico Jayme era o quarto irmão coragem, o quarto mosqueteiro. Tão corajoso e posicionado quanto os Santillo.

Em 1967, quando a ditadura começava a ficar mais dura, com o general Costa e Silva, Frederico Jayme é eleito presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis (Uesa). No ano seguinte, dada a firmeza de sua liderança consequente, é reeleito. Em 1968, organiza protestos e galvaniza os jovens estudantes. A ditadura começa a mapeá-lo, percebendo, ali, o surgimento de um líder intimorato.

Com 23 anos, em 1971, Frederico é eleito presidente do Diretório Acadêmico XXIII de Maio da Faculdade de Direito de Anápolis. Na gestão de Henrique Santillo, como prefeito de Anápolis, o jovem é nomeado para a diretoria da Fundação Educacional e Cultural de Anápolis.

Em 1973, com a cassação do prefeito José Batista Júnior, deixa o cargo de secretário para Assuntos Políticos. Frederico Jayme é detido e levado para uma casa nos fundos do 10º BC, em Goiânia. O engenheiro Irapuan Costa Junior, nomeado prefeito de Anápolis, consegue a sua libertação. Os dois se tornaram amigos, irmãos camaradas. Mas, durante a ditadura, ficaram em campos opostos. Uma das características de Frederico Jayme é nunca recuar um milímetro, exceto por estratégia política — o que é raro. Outra de suas características é a lealdade. Não há um político — cujas convicções são verdadeiras rochas inquebrantáveis — que possa dizer que foi traído por Frederico Jayme. Aliás, se traísse, teria ido, provavelmente, muito mais longe na política.

Frederico Jayme e Nilson Jaime: o primeiro é o personagem histórico, político, do livro do segundo, escritor; trata-se do exame da história de Goiás pelo prisma de um indivíduo que milita na política há 50 anos

Aos 30 anos, em 1978, obtém seu primeiro mandato legislativo. É eleito deputado estadual, sendo o sexto mais votado, e assume a vice-liderança da bancada do MDB, além de se tornar membro da Comissão de Constituição e Justiça.

Quando Ary Valadão assumiu o governo, indicado pelos militares — o general Golbery do Couto e Silva na linha de frente (o que um homem de vasta cultura viu no político goiano não se sabe exatamente; na política alia-se com os homens possíveis, não necessariamente com o melhores) — e sacramentado pela Assembleia Legislativa, Frederico Jayme fez um discurso contundente. Ele defendeu, com ardor, eleições diretas para governador. Militares que haviam sido convidados pelo gestor arenista, incomodados com a crítica articulada do jovem parlamentar, deixaram a Assembleia — agastados. Noutros tempos, os dos presidentes Costa e Silva e Emílio Médici, certamente teriam pedido a cassação do rebelde emedebista. É um traço do caráter de Frederico não se calar ante as iniquidades, ainda que de poderosos.

Democracia

Na democracia, em 1982, Frederico Jayme é reeleito — sendo o quarto mais votado. Começou como líder do governo de Iris Rezende, que precisava de alguém firme na Assembleia, e depois se tornou secretário de Segurança Pública. Dadas sua firmeza em defesa da sociedade e seu apoio ostensivo aos policiais — frise-se que é legalista por formação —, contribuiu para um Estado menos violento. Moderno, criou a Polícia Militar Feminina de Goiás, instituiu concurso público e criou delegacias da Mulher em Goiânia e Anápolis. Hoje, parece corriqueiro; na época, era um avanço imenso.

Em 1986, colabora para a eleição do irmão-mosqueteiro Henrique Santillo para o governo e é eleito deputado pela terceira vez, tendo sido o mais bem votado. Nilson Jaime registra: “Teve mais votos que dois dos deputados federais eleitos. Seu mandato foi coroado com a presidência da Assembleia Legislativa”. Note-se a escalada: sexto mais votado, quarto mais votado e, na terceira disputa, o mais votado. Nos três mandatos, comportou-se de maneira altiva — era aliado mas não subordinado ao governante — e decente. Sobretudo, a sociedade, por meio do voto, o aprovou.

Em 1989, no auge de sua carreira política, assume cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado — onde logo se torna um líder incontestável, tanto pela competência quanto pela habilidade de agregar. Sobre o seu comando, por quatro vezes, o TCE se tornou autônomo na medida do possível — trata-se de um órgão auxiliar da Assembleia Legislativa — e de alta qualificação técnica. Com Frederico Jayme no comando, nenhum governante exerceu controle sobre o Tribunal. E quando a Assembleia, por razões não republicanas, tentou encabrestar o TCE, Frederico Jayme reagiu e impôs a legalidade.

Quando estava se preparando tão-somente para cuidar de seu escritório de advocacia, além de uma grande plantação de seringueiras — sim, trata-se de um empreendedor dos mais articulados e inovadores —, Frederico Jayme assume a chefia de gabinete do governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB. Sua vontade era ficar na iniciativa privada, cuidando de seus negócios, mas, como se considera um homem público — tecnicamente capaz e politicamente de rara habilidade para agregar forças díspares —, aceitou a incumbência.

Em 2016, depois de ser perseguido — mas nunca vencido ou dobrado — por Iris Rezende, Frederico Jayme deixa o PMDB. Na verdade, pode-se dizer que o PMDB, ao se tornar menos um partido e mais uma célula do irismo, o deixou. (Uma palavra final sobre Iris Rezende e Frederico Jayme. Devido à sua atuação firme na luta pela redemocratização do País, Frederico Jayme e Henrique Santillo poderiam ter apoiado um nome de seu grupo para a disputa do governo em 1982. Mas optaram por bancar Iris Rezende, para reparar uma injustiça história, pois, quando estava crescendo politicamente, o emedebista havia sido cassado pelos militares. Portanto, Iris Rezende é menos filho de sua própria história — poderia ter sido barrado em 1982 pelo PMDB — e mais filho da história das lutas de Henrique Santillo, João Divino Dorneles, Lincoln de Paiva, Genervino da Fonseca, Iram Saraiva, Derval de Paiva, Eurico Barbosa, Tobias Alves, Línio de Paiva, Frederico Jayme, Juarez Magalhães, Juarez Bernardes, Lázaro Barbosa. Iris Rezende foi uma vítima da ditadura, embora tenha tentado agradar os militares, mas não pôde lutar contra ela.)

Num país em que escasseiam verdadeiros homens públicos, a biografia escrita por Nilson Jaime prima por resgatar uma história que não merecia e não merece ficar esquecida. É o registro da história do homem público Frederico Jayme. Trata-se, como demonstra o biógrafo, de um raro homem de Estado. Conhecê-lo equivale a conhecer o que Goiás tem de melhor em termos políticos e humanos.l

Deixe um comentário