Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia reforça homossexualidade de Virginia Woolf e sugere que “omissão” do marido levou-a ao suicídio

Autora das obras-primas “As Ondas, “Mrs. Dalloway” e “Orlando”, Virginia Woolf era depressiva e se matou, em 1941, jogando-se no Rio Ouse. Livro resgata a sua trajetória

Biografia de quase mil páginas reforça a tese de que, embora casada com o editor Leonard Woolf, a escritora britânica Virginia Woolf era homossexual. Ela não tinha paixão pelo marido / Divulgação

Biografia de quase mil páginas reforça a tese de que, embora casada com o editor Leonard Woolf, a escritora britânica Virginia Woolf era homossexual. Ela não tinha paixão pelo marido / Divulgação

Jane Austen, Emily Brontë, George Eliot, Virginia Woolf, Iris Murdoch e Doris Lessing podem figurar em qualquer lista dos principais escritores ingleses e irlandeses — como Shakespeare, Charles Dickens, Thomas Hardy, Oscar Wilde, Bernard Shaw, D. H. Lawrence, James Joyce, Samuel Beckett, Anthony Burgess, Anthony Powell (o Proust inglês), Lawrence Durrell, Ian McEwan, John Banville, Martin Amis e Julian Barnes. No século 20, além de Beckett, Virginia Woolf é a que mais se aproxima de Joyce (curiosamente, nasceram no mesmo ano, 1882, e morreram no mesmo ano, 1941). Talvez por isso tenha ficado tão estupefata com a prosa inventiva e sem papas na língua do escritor de Dublin. Tratou “Ulysses”, o romance não-romance, de maneira esnobe, como se fosse “trabalho” de um operário semiletrado ou autodidata.

Como sabia o que era fluxo de consciência, e sua prosa era mais inventiva do que algumas de suas opiniões sobre a escritura alheia, a autora dos seminais “As Ondas”, “Orlando” (romance que permanece moderníssimo — a história da mulher que é homem ou do homem que é mulher) e “Mrs. Dalloway” (bem traduzido por Denise Bottmann, pela editora L&PM), percebeu, de imediato, que o criador de “Finnegans Wake” era um rival “perigoso”. O “operário” que havia escrito “Retrato do Artista Quando Jovem” fazia a língua inglesa avançar ao misturar a linguagem coloquial a uma elaboração linguística única — o que surpreendia a escritora — e lidava com a sexualidade de forma desabrida, o que escandalizou a, de certa maneira, “puritana”. A prosa encantadora de Virginia Woolf tem uma “assepsia”, por assim dizer, que a de Joyce não tem.

Virginia Woolf era uma escritora notável e um ser humano complexo. Em março de 1941, deprimida, matou-se — jogando-se no Rio Ouse, com os bolsos do casaco cheios de pedra. Várias biografias — como a pioneira escrita pelo sobrinho Quentin Bell — explicam sua vida e sua obra. Explicam ou tentam explicar. A mais recente biografia é “Virginia Woolf — La Vida Por Escrito” (Taurus), da jornalista e professora universitária argentina Irene Chikiar Bauer. O catatau de 912 páginas foi resenhado por Anna Caballé, no jornal “ABC”, de Madri, na terça-feira, 10.

Anna Caballé diz que Irene Chikiar não pretende discutir os fatos comuns da vida de Virginia Woolf, já devidamente estabelecidos por outros biógrafos. O que a pesquisadora argentina procura examinar são “as circunstâncias que os rodearam — a família, os amigos, o meio em que vivia — e, sobretudo, capturar sua peculiar personalidade polimorfa e escorregadia.

Escorregadia também para si mesma”. Nos diários e cartas, quando “imaginava” menos e abria-se, revelava-se um pouco mais a mulher, ainda assim introspectiva. “Em todo caso, com sua aguda percepção das coisas e das pessoas, Virginia Woolf converteu sua obra — ficção e não ficção — em um poço de grande profundidade ou num céu imenso e aberto.” Lytton Strachey, do círculo de Bloomsbury, disse da autora do ensaio “Um Teto Todo Seu”: “É a única mulher no mundo com uma vasta inteligência”. Exagero de amigo, mas era, de fato, uma mulher de brilhantismo raro e de imaginação poderosa.

A biografia escrita por Quentin Bell, sugerida por Leonard Woolf, o marido de Virginia Woolf, saiu em 1972. Quarenta e três anos depois, com novas pesquisas sobre a vida e análises sobre a obra, sabe-se muito mais sobre a escritora. Leonard Woolf teve algum papel no suicídio de sua mulher? Qual o papel da enfermidade maníaco-depressiva na vida e na obra da prosadora e crítica? Qual o “papel jogado por sua homossexualidade”? O abuso sexual que sofreu na adolescência abalou-a por toda a vida e decidiu sua sexualidade?

Contrariando outras versões — que avaliaram que Virginia Woolf havia dramatizado em demasia a história —, Louise DeSalvo destacou, em 1989, que a escritora era uma “sobrevivente” de um incesto cometido por um meio irmão, George, quando ela tinha 18 anos. Porém, tímida e reservada, evitou o conflito, o que gerou um “sentimento de culpa e rejeição”.

Irene Chikiar admite que a depressão afetou profundamente Virginia Woolf, mas, ao mesmo tempo, nota que sua prosa literária, tremendamente lúcida, não foi contaminada por suas crises. A biografia ressalta “sua excepcional sensualidade e sua” aguda “ironia” — isto para ressaltar que a depressão não afetou a obra. A resenhista discorda da interpretação: a sensualidade e a ironia não excluem “o lado escuro e melancólico da escritora”. Pelo contrário, são “parte de sua singularidade”.

A biógrafa nota a acentuada influência de Leslie Stephen na formação de sua filha. Virginia Woolf é apresentada como “uma mulher de transição entre dois mundos: os velhos valores vitorianos, pelos quais foi ‘moldada’ (pela família, sobretudo pelo pai), e o desejo de liberdade moral e abertura intelectual que defenderia firmemente em sua obra”.

O livro conclui que George, embora não tenha estuprado Virginia Woolf — beijou-a e acariciou-a —, contribuiu para “refrear” seu desejo sexual por homens. “A relação sexual com o marido foi um fracasso desde o primeiro minuto.” Leonard Woolf decidiu “não forçá-la” — não tinham relações sexuais — e passou a procurar outras mulheres.

As crises nervosas de Virginia Woolf afetaram sua vida e a daqueles que a cercavam — “especialmente” Leonard Woolf e Vanessa Bell, sua irmã, “seus dois eixos”.

Virginia Woolf admirava Vanessa Bell — por julgá-la superior como mulher e mãe (a escritora não teve filhos) — e usou seu talento literário para tentar “superá-la”. Não só. Seduziu seu marido, Clive Bell, o que deixou Vanessa Bell muito abalada. Virginia Woolf e Clive Bell não tinham relações sexuais, mas eram cúmplices.

Suicídio e homossexualidade

Para Irene Chikiar, o biógrafo Quentin Bell, ainda que seja no geral favorável a Virginia Woolf, potencializou sua “loucura” por dois motivos. Primeiro, nas cartas, a escritora fez comentários ácidos sobre Vanessa Bell e seus filhos. Segundo, ao apontar a “insanidade” — ao menos certa insanidade —, Quentin Bell livrara Leonard Woolf de qualquer “responsabilidade” pelo suicídio de sua mulher.

Leonard Woolf, segundo Irene Chikiar, havia se distanciado de Virginia Woolf — estava envolvido na luta da Inglaterra contra os nazistas e talvez estivesse cansado dos problemas familiares — e ela não tinha condições de enfrentar uma profunda crise depressiva sozinha. Sem amparo, optou pelo suicídio. Talvez seja descabido culpá-lo pela morte de sua mulher. Virginia Woolf é, possivelmente, a única responsável pelo suicídio. Por certo, cansara-se de “lutar”, de “enfrentar” seus problemas recorrentes de saúde.

Virginia Woolf permaneceu casada com Leonard Woolf durante 29 anos, mas era, frisa Irene Chikiar, “homossexual”. “Ela não suportava ter relação erótica com um homem e disse isto a Leonard quando rechaçou [num primeiro momento] sua proposta matrimonial: ‘Não sinto nenhuma atração física por você. Há momentos — um foi quando me beijou — em que não sinto nada, como se fosse uma pedra’”. A repulsa ao sexo seria resultado de histeria? Porém há indícios de que manteve relações sexuais com mulheres.

Anna Caballé assinala que, apesar de não terem um “casamento com sexo”, no sentido estrito, Virginia e Leonard Woolf “fizeram um esforço e desafiaram as evidências para forjar uma relação verdadeiramente humana”. Mas sem nenhuma paixão. Se havia uma paixão, entre os dois, era o culto à boa literatura e à boa conversa com os amigos, como o economista (bissexual) John Maynard Keynes. Virginia Woolf, embora admirasse homens talentosos, tinha mais intimidade com mulheres, como Vita Sackville-West e Ethel Smyth.

“Eu utilizo meus amigos como lâmpadas [ou faróis]: vejo com sua luz. Alargam meu horizonte”, disse a luminosa escritora britânica. “Prodigiosa Virginia Woolf, impedida de seguir os caminhos convencionais de uma vida ‘normal’. Essa foi sua cara e sua cruz”, assinala Anna Caballé.

Corre-se o risco de se incluir Virginia Woolf, dada sua homossexualidade — e sobretudo ao belo “Orlando” —, única e exclusivamente nos estudos de gênero. Quem fizer isto vai contribuir não para ampliar o entendimento de sua literatura, e sim para empobrecê-la. A autora de “As Ondas”, um de seus romances decisivos, deve ser estudada lado a lado com escritores como George Eliot e James Joyce. É uma grande entre os grandes. A homossexualidade faz parte de sua vida, enriquece-a e torna-a mais complexa e humana, mas não é o todo.

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Marcelus

ficou meio vaga essa comparação com Joyce, poderia me explicar melhor? curiosamente para Gilles Deleuze, Joyce era um autor genial mas ainda limitado enquanto que Virgínia foi uma escritora absolutamente genial