Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia diz que Mino Carta foi demitido e que Veja não contraiu empréstimo de 50 milhões de dólares

Livro sobre Roberto Civita, o criador das revistas “Quatro Rodas”, “Veja” e “Exame” e dono da Editora Abril, garante que o dono da revista “CartaCapital” não se demitiu e que a CEF não emprestou dinheiro ao grupo

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Biografia de Roberto Civita conta sua trajetória e de sua família, que criou algumas das mais importantes publicações brasileiras, como “Realidade”, “Quatro Rodas”, “Veja” e “Exame”; o empresário não teria entendido bem o fenômeno da internet

Roberto Civita, falecido em 2013, aos 76 anos, criou, ao lado do pai, Victor Civita, um império na área de revistas. “Quatro Rodas”, “Veja” e “Exame” — além da extinta “Realidade” — são publicações de alta qualidade. Um dos méritos da família italiana é que sempre soube contratar alguns dos melhores jornalistas do mercado, como Mino Carta, José Roberto Guzzo, Sérgio Pompeu, Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Augusto Nunes, Raimundo Pereira, Ricardo Setti, Mario Sergio Conti, André Petry, Eurípedes Alcântara, Mario Sabino. Quatro critérios para chefiar suas revistas: ter cultura sólida, escrever bem, saber chefiar e ter acesso a informações de primeira. O primeiro diretor de redação da “Veja”, Mino Carta, era respeitadíssimo pelos Civita. Antes, mesmo sem saber dirigir, o italiano de Gênova criou e editou a “Quatro Rodas”.

A saída de Mino Carta da “Veja”, em 1976, provocou uma crise que perdura quarenta anos depois. O jornalista, em artigos, entrevistas e livros, como “O Castelo de Âmbar” (Record, 400 páginas; uma resenha de minha autoria pode ser lida no link: http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/o-jesus-cristo-do-jornalismo), afirma que se demitiu da revista, denuncia que Roberto Civita planejara entregar sua cabeça ao ministro da Justiça Armando Falcão, do governo Geisel, e que, em troca, recebeu um empréstimo de 50 milhões de dólares da Caixa Econômica Federal. Até recentemente, prevalecia a tese do “perdedor”, pois os Civita, supostos “vencedores”, não se manifestavam a respeito.

A biografia “Roberto Civita: O Dono da Banca — A Vida e as Ideias do Editor da Veja e da Abril” (Companhia das Letras, 534 páginas), do jornalista Carlos Maranhão, muda tudo: os dois filhos de Victor Civita, Roberto e Richard Civita, apresentam finalmente a sua versão dos fatos — e não é a mesma de Mino Carta; é totalmente contrária.

No início de 1976, quando a “Veja” se aproximava dos oito anos, Roberto Civita sentia-se “incomodado com os rumos editoriais da revista. Conforme combinara com Mino desde o início, ele discutia as matérias a posteriori. Não participava de sua pauta e não pedia para ler nenhum texto antes da publicação. Para ele, acordo era acordo”, relata Carlos Maranhão.

A linha básica havia sido estabelecida pelos Civita: “A revista deveria defender a livre-iniciativa, apoiar o empreendedor, combater a burocracia e criticar a presença excessiva do Estado na economia”. Roberto Civita notava que, apesar da ditadura, a economia crescera, “o país progredira”. Mas, na sua opinião, a “Veja” não registrava a diversidade da realidade, só os problemas. “Roberto queria que a ‘Veja’ focasse sua pauta não apenas em problemas brasileiros, mas nas soluções — coisas que davam certo, personagens que faziam a diferença, histórias de superação, relatos de transformações positivas”, assinala o biógrafo. Mino Carta “pensava” o oposto disso. Richard Civita concordava com o irmão. Thomaz Souto Corrêa, executivo da Abril, acrescenta que Mino Carta estava abertamente insubordinado.

Apesar das pressões dos filhos e executivos, Victor Civita mantinha Mino Carta prestigiado e, além da chefia da “Veja”, colocou-o para supervisionar a “Realidade”.

Em maio de 1971, Mino Carta escreveu uma carta para os editores-chefes da “Realidade”, Luís Fernan­do Mercadante e José Hamilton Ribeiro, aparentando concordar com Roberto Civita: “Devemos deixar de fazer uma revista que dá a impressão de ter uma série de recalques e de complexos. Uma revista interessada em aspectos negativos, de miséria e revolta. (…) A revista de que estou falando deve ser feita por gente que tem algum otimismo, muita inteligência, muito bom gosto. (…) Mais do que tudo, gente que seja profissional e que saiba fazer a revista que a empresa que o [sic] emprega deseja que seja feita”. A “Realidade”, que começou muito bem (chegara a vender 369.700 cópias por edição), acabou fechada em 1976.

Carlos Maranhão diz que, no início da “Veja”, Mino Carta preferia discutir futebol (era torcedor do Pal­meiras) e artes plásticas. “Demons­trava pouco interesse pela política”, afirma o biógrafo. É provável que seja uma “meia” verdade, pois Mino Carta havia editado o “Jornal da Tarde” e a família Mesquita sempre deu amplo destaque à política. O que pode ter acontecido é que, a partir de determinado momento, o jornalista radicalizou seu interesse pela política.

Empréstimo da CEF
Mino Carta garante que, em 1975, a Editora Abril solicitou empréstimo de 50 milhões de dólares (223 milhões de dólares, em 2016) à Caixa Econômica Federal. “O empréstimo era uma operação legal e serviria parar quitar as dívidas em dólares que a editora contraíra com bancos americanos. Nos relatos de Mino, o pedido esbarrou no veto do ministro da Justiça, Armando Falcão, e do presidente [Ernesto] Geisel. Pelas suas afirmações a Abril teria negociado, em troca do empréstimo e do fim da censura a ‘Veja’, que Mino — a essa altura detestado pelo governo — seria afastado. Diante desse quadro, ele propôs um acordo: seu nome sairia do expediente, os redatores-chefes assumiriam como diretores, ele ficaria ‘por trás do pano, orientando a transição’ pelo tempo que fosse preciso, e em seguida trabalharia como ‘chefe dos correspondentes europeus, com sede em Roma”. Victor Civita não concordou com a proposta.

O teatrólogo Plínio Marcos é apontado como um dos pivôs da crise de Mino Carta com os Civita. No romance à clef “O Castelo de Âmbar”, o jornalista revela que recebeu uma ordem de Victor Civita: “Você precisa demitir Plínio Marcos, já!” A demissão retiraria de vez a censura da redação da “Veja”. Mino Carta reagiu: “Demita o senhor, até logo e passar bem”. O nome do jornalista foi retirado do expediente e a empresa proibiu seu acesso ao Edifício Abril.

Armando Falcão teria dito a Mino Carta: “Eu recebia aqui quatro diretores da Abril: Victor Civita, Robert Civita, Edgard de Sílvio Faria e Pompeu de Souza. Os quatro repetiram, dois anos a fio, que a ‘Veja’ estava contra a gente por sua causa. Então, pergunto: que teria de fazer? Meu caro, não tinha alternativa”.

Com a saída de Mino Carta, na sua versão, “dois meses depois, a censura acabou na “Veja” e a Abril recebeu o empréstimo”. Sobre seu “afastamento”: “Eu me demiti. Se a Abril me tivesse demitido, eu teria levado uma belíssima grana. Não levei — até porque não queria levar”.

Na época dirigindo as áreas financeira, comercial e industrial da Abril, Richard Civita contesta: “Mino foi sumariamente demitido pelo meu pai. Recebeu todos os seus direitos dentro da lei. E nunca contraímos o empréstimo da Caixa Econômica Federal, ao contrário do que ele diz”. Ante o possível desmentido, o ônus da prova cabe a Mino Carta, o acusador. Afinal, cadê os documentos do empréstimo? O jornalista certamente tem cópias dos documentos. Espera-se que os apresente.

Roberto Civita, segundo Carlos Maranhão, não gostava de falar sobre Mino Carta, mas “considerava todas as narrativas que ele fez fantasiosas e ressentidas”. Em fevereiro de 2013, decidiu falar ao biógrafo — que então colhia material para ajudar o empresário a escrever suas memórias. “Às tantas, o Mino começou a ficar mais radical politicamente. Passou a se identificar, como chamar elegantemente?, com militantes de organizações de esquerda, a turma do contra, que os militares chamavam de subversivos. (…) Eu não concordava”, disse Roberto Civita.

Mino Carta, segundo Roberto Civita, não o consultou para contratar o teatrólogo Plínio Marcos como colunista da “Veja”. “Um de nossos acordos era que a contratação de um colunista deveria ser discutida previamente comigo”, contou o empresário ao biógrafo. O dono da Abril achava Plínio Marcos “radical demais”.

Numa conversa, Mino Carta teria dito a Roberto Civita: “Vou pegar uma metralhadora e vou para a subversão”. É provável que tenha sido apenas uma provocação do tipo que todos nós fazemos, como defesa ou brincadeira.
Armando Falcão teria dito a Roberto Civita a respeito de Mino Carta: “Por que você não se livra desse filho da puta?” O empresário teria respondido: “Porque ele é o melhor jornalista do Brasil”. O publisher da Abril disse a Carlos Maranhão que “acreditava na inteligência e na capacidade” do jornalista. O ministro da Justiça insistiu: “Por que você não faz com o segundo melhor?”

Na versão de Roberto Civita, Mino Carta ficou sabendo que o chefão da Abril planejava demiti-lo. “Na verdade, eu havia afirmado exatamente o oposto. Mino ficou achando que eu havia vendido minha alma para os militares e entregue sua cabeça. Eu assino com meu sangue que fiz o contrário”, contrapõe o fundador da “Veja”. “Quem cortou a cabeça do Mino foi ele mesmo, Mino, com sua postura irracional, incapaz de aceitar qualquer tipo de moderação. Nós queríamos o caminho do bom senso. Esta questão do Mino é central na vida dele. Mas não é na mi­nha. Nem na história da ‘Veja’. Por que eu vou me irritar com um sujeito neurótico que insiste com algo que não aconteceu e propala uma versão mentirosa. Se me perguntam o que foi central na minha vida profissional, eu citaria a ‘Veja’, o lançamento de dezenas de revistas.”

Mino Carta, na opinião de Roberto Civita, deveria ter consultado um psicanalista (o empresário consultou). Depois da saída do jornalista, a “Veja” cresceu muito mais, afirma o desafeto, superando a casa de 1 milhão de exemplares. Richard Civita, menos diplomático, diz que Mino Carta era conhecido como o “Pequeno Napoleão”.

Roberto Civita e Mino Carta: o segundo diz que o primeiro entregou sua cabeça para o governo militar, mas é contestado e apontado como insubordinado e não cumpridor de acordos. Na foto, da esquerda para a direita, aparecem Roberto Civita, o banqueiro Olavo Setúbal, Victor Civita e Mino Carta

Roberto Civita e Mino Carta: o segundo diz que o primeiro entregou sua cabeça para o governo militar, mas é contestado e apontado como insubordinado e não cumpridor de acordos. Na foto, da esquerda para a direita, aparecem Roberto Civita, o banqueiro Olavo Setúbal, Victor Civita e Mino Carta

José Roberto Guzzo assumiu o lugar de Mino Carta e é apontado, ao lado de Elio Gaspari, como o diretor de redação que fez a “Veja” ter uma circulação de quase 1 milhão de exemplares. A “Veja” se tornou a “maior”, “mais importante, mais rentável e mais influente revista do Brasil”. “Discutiriam [Roberto Civita e Guzzo] e não esconderiam suas divergências no dia a dia, mas nunca — ao contrário do que acontecia com Mino — deixariam de se entender”, escreve Carlos Maranhão.

Mino Carta tem o hábito de tratar Roberto Civita como “medíocre”. Um homem que modernizou a Editora Abril, publicando revistas de qualidade, como a “Veja” e a “Exa­me”, não pode, em definitivo, ser cha­mado de medíocre. Os grandes empreendedores, como Roberto Civita, Roberto Marinho, Octavio Frias Oliveira e Mino Carta, merecem ao menos certo respeito. Não se precisa concordar com eles, mas é preciso admitir que deixaram um legado.

Demétrio Magnoli
Polemista, o professor da USP Demétrio Magnoli, apresentado apenas como colunista da “Folha de S. Paulo”, deixou Mino Carta irado ao publicar um texto de sua autoria, de abril de 1970, no qual dizia que os militares “surgiram como único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção. E, enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar o país, a pátria amada, para sair da sua humilhante condição de subdesenvolvido. Perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção — e pensaram no futuro”.

Indignado, Mino Carta escreveu, na “CartaCapital”, que o artigo era “uma manifestação de pura ironia”. Na réplica, Demétrio Magnoli publicou trecho de uma reportagem da “Veja”, editada pelo jornalista, na qual se diz:

“Na semana passada, a Organização [na verdade, Operação] Banderante, que coordena o combate ao terror em São Paulo, divulgou todo o trabalho feito para desarticular […] grupos terroristas. Foi uma notícia dada em momento oportuno, tranquilizando o povo e, ao mesmo tempo, evitando prestar serviço ao terrorismo”. O professor da USP sugere que, como tinha independência total para editar a revista, o “endosso” à ditadura não é coisa da família Civita, e sim de Mino Carta.

Exposta a pendenga, acrescentando, de minha parte, que Mino Carta não apoiava a ditadura — ao contrário, era um de seus combatentes —, Carlos Maranhão rastreia os motivos da radicalização do jornalista. “O primeiro foi a implantação da censura prévia na redação. O segundo foi o assassinato, em 25 de outubro de 1975, do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI, o Destacamento de Operação de Informações do II Exército, em São Paulo.” Censurada, a revista nada publicou a respeito.

O jornalista José Carlos Bardawil escreveu: “Em 1975 a ‘Veja’ estava na oposição. O Mino tinha assumido uma atitude política por causa da censura. Ele ficou puto porque sentiu pela primeira vez o que era ditadura. E ficou contra a ditadura pela primeira vez, porque o Mino, até 1974, era um cara blasé. Mas em 1974, com o censor dentro da redação, ele ficou muito agastado. E tomou como um caso pessoal. Política para ele era sempre um caso pessoal”.

2 respostas para “Biografia diz que Mino Carta foi demitido e que Veja não contraiu empréstimo de 50 milhões de dólares”

  1. Avatar Douglas Dalto Messora disse:

    Parabéns Euler, belíssimo trabalho. São poucos, infelizmente, que se atrevem, no atual lapso temporal, narrar, trazer a luz, a historia bo Brasil.

  2. Avatar Jairo Magalhães disse:

    Por que a Abril não apresenta a rescisão do Mino Carta. Saberíamos se demitiu-se ou foi demitido.

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