Um jornalista disse que ofereceram 250 mil dólares para a revista da Editora Abril publicar reportagem garantindo que o peemedebista era o “ministro das boas notícias”. Duas matérias de fato sugeriram que o goiano era um gestor de qualidade

Iris Rezende, Augusto Nunes, Mário Almeida, José Roberto Guzzo e Mario Sergio Conti: cinco pessoas citadas em discussão sobre suposto suborno à revista “Veja”, mas os “denunciantes” não apresentaram provas, só indícios
Iris Rezende, Augusto Nunes, Mário Almeida, José Roberto Guzzo e Mario Sergio Conti: cinco pessoas citadas em discussão sobre suposto suborno à revista “Veja”, mas os “denunciantes” não apresentaram provas, só indícios

Há uma história nebulosa envolvendo Iris Rezende, do PMDB, quando ministro da Agricultura, no governo de José Sarney. O primeiro registro saiu no livro “Notícias do Planalto” (Companhia das Letras, 720 páginas), do ex-diretor de redação da revista “Veja” Mario Sergio Conti. A informação provocou polêmica. O assunto volta à baila com a publicação recente da biografia “Roberto Civita: O Dono da Banca — A Vida e as Ideias do Editor da Veja e da Abril” (Companhia das Letras, 534 páginas), do jornalista Carlos Maranhão.

A história está relatada em duas páginas — 327 e 328. No livro de Conti, anota Carlos Maranhão, “uma das passagens de maior repercussão sustentava que o jornalista Mário Alberto de Almeida, ex-editor de assuntos políticos da ‘Veja’, ex-diretor de redação da ‘IstoÉ’ e naquele momento diretor de redação do jornal de economia ‘Gazeta Mercantil’, teria oferecido 250 mil dólares ao diretor de redação do ‘O Estado de S. Paulo’, Augusto Nunes, para publicar ‘matérias elogiosas a determinados políticos’. Mário negou que tivesse feito isso. Na narrativa de Mario Sergio, a primeira dessas matérias, com o ministro da Agricultura do governo Sarney, Iris Rezende, teria o título obrigatório de ‘O ministro das boas notícias’. O goiano Rezende se preparava para disputar a convenção do PMDB que indicaria o candidato do partido à Presidência da República. A escolha acabaria recaindo sobre o deputado federal Ulysses Guimarães. A proposta de Mário Alberto teria sido feita — e recusada — no dia 24 de março de 1989”.

Em “Notícias do Planalto”, Con­ti afirma que uma reportagem sobre Iris Rezende, mas sem o título de “O ministro das boas notícias”, ha­via sido “publicada na ‘Veja’ na edição de 22 de fevereiro” de 1989. “Um mês antes do suposto oferecimento de Mário Alberto a Augusto Nunes.” Trecho de uma matéria de duas páginas: “Iris Rezende é o único entre os atuais 22 ministros de Sarney que, todos os anos, só tem boas notícias a dar”. Carlos Ma­ra­nhão frisa que “a expressão ‘boas no­tícias’ aparece apenas à altura da me­tade do texto, no sexto parágrafo”.

O livro de Conti mostra que, em 1990, a “Veja” publicou outra reportagem sobre Iris Rezende, agora candidato a governador de Goiás (derrotou Paulo Roberto Cunha e foi eleito). O texto volta a citar a frase “boa notícia”: “Iris sempre teve alguma boa notícia para anunciar no seu pedaço do governo”. José Roberto Guzzo era o diretor de redação e Conti um dos redatores-chefes da “Veja”.

No afã de defender a revista, Carlos Maranhão escreve: “Entre o título obrigatório, na exigência da proposta que teria sido feita por Mário Alberto, e a expressão com pequenas variações aparecida um tanto perdida no corpo dos textos, no entanto, havia uma grande diferença”. Se há diferença, como anota o biógrafo, pode-se falar muito mais em estranheza, pois, se não saiu no título, a expressão “boas notícias” saiu nas reportagens. Não há provas de que houve a venda das reportagens, portanto não é possível apresentar um julgamento definitivo, mas é, insistamos, estranho que a expressão “boas notícias” tenha aparecido nos textos da revista. Houve mesmo suborno? Iris Rezende era o agente corruptor? Não se sabe. Não há nenhuma prova de que o ex-ministro tenha sido o autor da proposta de 250 mil dólares. Pode ter sido algum assessor tentando ficar bem com o chefe? Pode, mas, de novo, não há provas. O fato é que alguém ofereceu dinheiro e duas reportagens positivas foram publicadas.

Entrevistado pela “Folha de S. Paulo”, Conti disse: “Não há nenhuma insinuação. Eu não consegui apurar. Apenas registrei que a expressão que Mário de Almeida exigia está em ‘Veja’”. O repórter Fernando Barros de Silva perguntou: “O diretor de ‘Veja’ na época era José Roberto Guzzo. Você está sugerindo que houve corrupção na revista?”. Resposta de Conti: “Estou apenas registrando o fato. Não gostaria que o livro fosse lido em função desses casos, embora sejam significativos”.

José Roberto Guzzo havia indicado Conti para diretor de redação da “Veja”, mas se afastaram. Entrevistado por Carlos Maranhão, Guzzo disse: “Sobre esse personagem [Conti] e esse episódio, revelador do caráter dele, eu não falo nada”. Roberto Civita escreveu a respeito da denúncia de “Notícias do Planalto”: “Como qualquer pessoa de boa-fé sabe, ‘Veja’ nunca vendeu e nunca venderá uma única palavra de seu conteúdo editorial. A separação absoluta entre o jornalismo e os interesses comerciais de todas as nossas revistas é um dos ‘mandamentos’ da Abril, que vem sendo observado com rigor e orgulho por milhares de jornalistas e publicitários da Editora ao longo de meio século!”.

Roberto Civita, que faleceu em 2013, aos 76 anos, disse que nas revistas da Editora Abril impera a separação entre Igreja (o editorial) e Estado (o comercial). Um caso raríssimo, ao menos no Brasil. Carlos Maranhão, aliás, apresenta alguns casos em que tal separação falhou na “Veja” e na “Exame”.