Euler de França Belém
Euler de França Belém

Bernardina Pinheiro foi uma tradutora notável de James Joyce

Ousada, ela deu aos leitores brasileiros um “Ulisses” complexo, nada pedestre, porém menos difícil de se ler

Bernardina da Silveira Pinheiro, tradutora | Foto: Reprodução

Antônio Houaiss (1915-1999) construiu a rodovia, deixando-a aberta, mas não pavimentada. Em seguida, Bernardina da Silveira Pinheiro pavimentou-a, facilitando o tráfego. Depois, Caetano Galindo, com a estrada pronta e asfaltada, pôde duplicá-la — melhorando ainda mais o acesso.

Houaiss traduziu “Ulisses”, de James Joyce, e há quem acredite que a leitura em português é quase tão difícil quando a leitura em inglês. Na verdade, não procede. Houaiss deu um Joyce inteligível, sem torná-lo pedestre. Como tradutor experimentado, pôs o romance do irlandês de pé em português, para que se tornasse um rival à altura do original.

Porém, enquanto não havia outra tradução para comparar, não se podia avaliar, com proveito, o trabalho de Héracles de Houaiss. Frise-se que o grande Haroldo de Campos — em outra “encarnação” teria sido bibliotecário da Biblioteca de Alexandria — percebeu as virtudes da tradução.

Em 2005, Bernardina da Silveira Pinheiro deu-nos o resultado de seu enfrentamento com o “monstro” de Joyce. Durante oito anos, comeu e bebeu a escritura do irlandês meio cego. Leu, releu. Chegou-se a comentar que seria uma tradução pedestre. A rigor, não é. É uma grande tradução, de quem conhece as entranhas da prosa de Joyce e dos que vieram antes dele e aparecem, visíveis ou como fantasmas, na sua literatura.

Talvez seja possível sugerir que a tradução de Bernardina Pinheiro não é tão “inventiva” quanto a de Houaiss, que, de certa maneira, teve que reinventar parte da Língua Portuguesa para a transposição de “Ulisses”. Postular que não é tão inventiva não equivale a sugerir que não é inventiva e ousada.

É possível que Bernardina Pinheiro tenha tornado Joyce mais compreensível, porém sem descaracterizá-lo. Ela merece figurar na lista dos melhores tradutores patropis.

James Joyce: autor de “Ulisses” e “Finnegans Wake” | Foto: Reprodução

Bernardina Pinheiro morreu, aos 99 anos, quase um século de luz, na quinta-feira, 7, no Rio de Janeiro, de pneumonia. Ela foi professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde ensinou gerações a ler a literatura de Joyce — “Dublinenses”, “Um Retrato do Artista Quando Jovem” e “Ulisses”. “O fascínio de Bernardina por James Joyce foi tamanho que ela afirmou, em uma entrevista de 2019, jamais ter lido o romance experimental ‘Finnegans Wake’ (1939) por temer ver o escritor irlandês descontruir a linguagem que lhe era tão cara”, diz reportagem do “Estadão”.

Trecho de “Ulisses” (tradução de Bernardina Pinheiro) | Foto: Jornal Opção

Entre as traduções de Bernardina Pinheiro figuram “Uma Viagem Sentimental Através da França e da Itália”, de Laurence Sterne (um dos pais de Machado de Assis), e “Um Retrato do Artista Quando Jovem”, de Joyce.

Caetano Galindo

Depois de Houaiss e de Bernardina Pinheiro, Caetano Galindo, munido de coragem e talento, traduziu “Ulysses”, agora com “y”, para o português. Pode-se apontar que há uma “atualização” das traduções anteriores, um prosseguimento qualitativo, mas que não invalida em nada as versões precedentes. O leitor brasileiro tem o privilégio de contar com três traduções de qualidade, que, a rigor, são complementares.

Trecho de tradução de “Ulisses” por Bernardina Pinheiro

5 respostas para “Bernardina Pinheiro foi uma tradutora notável de James Joyce”

  1. Avatar Deus Carmo disse:

    É pena, embora pareça tenha vivido muito. Pessoas deste quilate deveriam viver pelo menos 200 anos, oxalá nos dê a ciência esta vantagem. Eu que tenho o Ulisses no original, em francês, em espanhol e italiano e no português de Houaiss e conheça a tradução Bernardina, confesso que ainda não entendi completamente o Ulysses pelo chego à conclusão que uma verdadeira obra de arte não é para ser entendida, mas para ser gozada em suas múltiplas facetas. No meu romance Noite em Paris que publico no blogue de mesmo nome procuro fazer quantos os mestres da literatura, mas é preciso que se diga: é muito difícil ser original, porque já foi dito antes por alguém, restando a mera repetição.

  2. Avatar Sérgio da Matta disse:

    Dá até vontade de se arvorar a perder o medo e ler Joice.

  3. Euler de França Belém Euler de França Belém disse:

    Sérgio da Matta, recomendo um livro muito bom: “Uma Visita Guiada ao Ulysses de James Joyce”, de Caetano Galindo. Editora Companhia das Letras. Se ainda não leu a prosa do escritor irlandês, comece por “Um Retrato do Artista Quando Jovem” e “Dublinenses”.

  4. Avatar Paulo Babboni disse:

    Euler, bom dia
    Gostei muito do texto, e lendo seu último comentário me deu vontade de deixar uma provocação: não sei se devemos começar sempre pelo “mais fácil”; talvez os abismos e atoleiros impossíveis de uma primeira vez aos poucos se tornem mais amigáveis… tento ler Proust e Joyce desde a adolescência, aos pedacinhos, tateando; e só agora, aos sessenta, resolvi enfrentar os originais com meus pequenos conhecimentos de inglês e francês… Guerra e Paz no original, infelizmente, vai ficar para uma outra vida. Acho que se batermos com muita força na porta, alguém nos abra uma fresta em algum momento. O que conheço da tradução do Houaiss é o esforço gigantesco, a inteligência, o repertório, a coragem. Dizem que Houaiss consegue deixar Joyce pior ainda… algo me diz que James rola de prazer a cada vez que escuta isso: a ideia era essa.

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