Euler de França Belém
Euler de França Belém

Belchior dialogou com o tropicalismo e não sucumbiu ao peso histórico-cultural de Caetano Veloso

A excelência da obra do cantor e compositor é atestada por sua permanência. “Como nossos pais”, “Mucuripe” e “Apenas um rapaz latino-americano” figuram em qualquer lista das principais músicas patropis

Belchior: o cantor de Sobral, cidade do Ceará, tornou-se o grande compositor que soube dialogar com a tradição musical brasileira, mas colocando sua mão inovadora para não repetir os mestres do “passado”, como Caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda

O cantor, compositor e músico Antônio Carlos Belchior viveu 70 anos. Praticamente o tempo médio de vida dos brasileiros. Sua obra musical, menos badalada do que nas décadas de setenta e oitenta, não está datada, nada sofreu com a corrosão do tempo. Permanece viva e, por certo, será eterna. Cada vez mais, com os estudos que serão feitos de maneira mais detida e atenta, será consagrado como poeta — um bardo, digamos, narrativo — da estirpe do norte-americano Bob Dylan. Sobre a vida, o futuro biógrafo terá de remover as camadas espessas da mitologia, para exibir o homem que deu à luz ao artista complexo e perspicaz. Sua música, o mais importante, é que nos dirá quem foi e quem é Belchior. Cada geração, ainda que influenciada pela anterior, vai “lê-la”, escutá-la e explicá-la por si mas também em confronto com as artes de compositores “antigos” e “novos”. A música sólida ganha com a passagem do tempo, não morre, torna-se imortal. Bach, Brahms, Mozart, Beethoven, Wagner, Schöenberg e Stravinsky nasceram, tornaram-se maduros e morreram. Mas sua música permanece viva e jovem, reverberando nas músicas tradicionais e nas inventivas.

Belchior está ou estava “esquecido” — a morte pode provocar um revival temporário —, mas a tendência é que seja mais escutado daqui pra frente. Ouvido por pessoas que não compartilharam fisicamente sua época e que, portanto, tendem a percebê-lo, digamos assim, com mais independência política, com mais distanciamento do período histórico. Poderão até avaliar sua música como uma resposta à sua época, conturbada por uma ditadura, mas é possível que saibam ouvi-la como uma réplica mais atemporal, como se falasse de indivíduos gerais, não datados. A distância poderá revelar um artista mais complexo — mais criador do que combatente (um dos problemas, se é um problema, de Geraldo Vandré é que algumas de suas músicas, ainda que bonitas, ficaram datadas pelo tempo histórico; tanto que a bela “Pra não dizer que não falei das flores”, ou “Caminhando”, costuma ser usada como hino de propósitos políticos retardatários, como a volta da ditadura). Belchior nada tinha de “alienado”, por isso falava claramente de seu tempo, cantava e, até, denunciava suas agruras, mas, artista inventivo, cercou sua criação de um refinamento estético e, até, filosófico — e de uma lírica que funde realismo com romantismo, escapando, por assim dizer, a gêneros fixos — semelhante ao do baiano Caetano Veloso e ao do carioca Chico Buarque. Pode-se sugerir que Belchior não era escravo de seu tempo, mas seu tempo, tomado como objeto criativo, “tornou-se” seu servo voluntário. De resto, a música de Belchior pertence ao tempo de quem a ouve (os artistas efetivamente criativos falam de seu tempo mas para todos os tempos). É moderna, eterna e — sem deixar de ser temporal — atemporal.

Esgotamento artístico

O grande artista pode se esgotar, mesmo no auge. As músicas “Mu­cu­ripe” (Fagner canta-a de maneira candente, lamentosa; na voz de Belchior, há mais lirismo e contenção), “Alucinação”, “Como nossos pais” (embora seja menos cantor do que Elis Regina, rivaliza-se, nesta canção, com a maior cantora brasileira), “Velha roupa colorida”, “Apenas um rapaz latino-americano”, “Paralelas”, “Coração selvagem”, “Pequeno perfil de um cidadão comum” (nem sempre é reverenciada, mas é lindíssima), “Sujeito de sorte”, “Divina comédia humana”, “Pequeno mapa do tempo” (Goiânia e Goiás são mencionados), “Conheço o meu lugar” (menos citada, mas belíssima), “Saia do meu caminho” e “A palo seco” (diálogo com uma poesia de João Cabral de Melo Neto; literalmene, a palo seco significa “a pau seco”. O ensaísta Alcides Villaça diz que “é uma expressão idiomática castelhana que significa ‘sem rodeios’” e refere-se também “a um cante sem acompanhamento da guitarra, a capela”) são excepcionais. Poucos artistas conseguiram consagrar dez músicas de qualidade indiscutível. Belchior, sem deixar cair o nível, tem pelo menos dez canções magníficas, de uma lírica rica. Mas, tendo começado com um nível elevadíssimo, aos poucos tornou-se concorrente de si mesmo. Como competir com “Alucinação”, “Apenas um rapaz latino-americano” e “Como nossos pais”? Ao fugir da sociedade, da máquina que integra até os apocalípticos, é possível que o cearense de Sobral estivesse fugindo de si mesmo, do Belchior que havia composto músicas que, de tão alto nível, se tornaram “drummonds” no meio de seu caminho. Ao artista, além de talento e disciplina, é crucial ter confiança de que pode “avançar” — se se pode usar a palavra “avanço” em termos de arte — e criar como havia criado no passado. O passado, se “excelente”, pode se tornar o “assassino” do presente, se este for apenas “bom” ou “mediano”.

O artista de alto nível, como Bel­chior, raramente aceita que a arte que criou é superior à arte que permanece criando. É provável que, ao esconder seu imenso talento, insulando-se fisicamente, o criador estivesse nos confidenciando, por meio de sussurros: “Não sou o mesmo de antes” ou “Não sou mais — sou menos”. Felizmente, para os que ouvem música, sua produção artística é vasta e reverbera, de maneira explícita ou não, na música de novos criadores. O artista esgota-se, por vezes, mas a obra, quando consistente, como a de Belchior, permanece marcante, ativa e inesgotável.

A felicidade, portanto, é que, se Bel­chior morreu — no domingo, 30, devido à ruptura da aorta (homem do calor, do Ceará, feneceu na região do frio, o Rio Grande do Sul), ouvindo compositores eruditos —, sua música permanece viva e tenho a impressão que, ainda que o contexto em que foi criada não possa ser descartado, até para maior fruição, será cada vez mais ouvida por si, pela beleza da melodia, pelo toque-alfinetada das letras (do tipo “mexa-se”, “cuidado para não virar seu pai, para não ficar parado no tempo”). É provável que, com o tempo — digamos cinquenta ou cem anos —, seu realismo funda-se à mensagem romântica (uma utopia com cores às vezes distópicas) das músicas, que o desencanto passe a conter certo encanto. Para além da lamentação, dada à morte, fica a música, insistamos, de qualidade incontornável. Podemos chamá-lo de o Chico Buarque ou de o Caetano Veloso de Sobral. O que lhe falta é a fortuna crítica já conferida aos dois “rivais”.

Sofrimento e desencanto

Elis Regina consagrou Belchior ao cantar, de maneira intensa e inventiva, a música “Como nossos pais”, uma criação artística que mostra como o passado tende a “controlar” o presente e como nós tendemos a nos comportar, a partir de determinado momento, como nossos pais

A seguir, recolho o que de mais interessante se disse sobre Belchior, depois de sua morte. Julio Maria, jornalista e autor de uma excelente biografia de Elis Regina, escreveu um dos textos mais sugestivos, em “O Estado de S. Paulo”, sob o título de “Belchior disse o tempo todo que algo não ia bem”.

“Belchior deixou sempre muito evidente que estava sofrendo. Uma angústia representada em suas letras e em seu comportamento, mesmo quando a carreira atingia o que poderia considerar picos de sucesso”, postula Julio Maria. Dado o que aconteceu depois, seu sumiço, o artista estaria falando apenas de si, sugere o crítico do “Estadão”. Talvez sim, talvez não. A arte impregna-se do que vive e pensa o indivíduo, mas também incorpora o discurso do tempo e os sofreres de outros indivíduos. Mas uma coisa é certa: falamos dos outros para falarmos — ou não falarmos — de nós mesmos.

Mencionando Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Fagner, Djavan, Tom Zé, Milton Nascimento, Dominguinhos (omitindo Alceu Va­lença e o “quase misantropo” Geral­do Aze­vedo), Julio Maria sublinha que “Belchior foi o único que sentiria um impacto emocional irreversível. A selvageria mercantilista, para ele, era um mal a ser combatido e ele, logo ele, acabaria também vendido a ela no momento em que assinasse com uma grande gravadora”. O crítico poderia ter arrolado também Geraldo Vandré, a nossa Greta Garbo.

Belchior “escafedeu-se” por ter dívidas? Julio Maria, depois de mencionar que era leitor de Sócrates e Platão — omite que era leitor de Dante Alighieri, e corre a informação de que estava traduzindo “A Divina Comédia” (o repórter Thales Menezes, da “Folha de S. Paulo”, escreveu que viu vários desenhos de Belchior inspirados na opus magna do escritor italiano) —, apresenta uma explicação convincente: “Belchior cansou, e seria redutor imaginar que desapareceu nos últimos dez anos para fugir de dívidas. Se assim fosse, teria aceitado oferta de empresários que quiseram pagar suas contas para que ele voltasse aos palcos. Ou aceitado a proposta vultosa de uma montadora de carros que o queria como garoto-propaganda dizendo, ao volante, algo como ‘com um carro desses, até eu volto’”. O cantor Roberto Carlos fingiu que comeu carne do frigorífico JBS-Friboi, ganhou seu dinheirinho tranquilamente e não perdeu a majestade. Belchior deu uma banana ao establishment comercial e cultural. Tornou-se, quem sabe, um renegado.

De que fugia Belchior? Acima, dei uma explicação — porém, só pesquisas mais amplas, quiçá para uma biografia alentada, poderão revelar o que de fato o artista pensava —, e agora apresento a de Julio Maria: “O único artista que pratica o autoexílio na história da música brasileira, fugindo de si mesmo, de um personagem que não aceita mais, era um angustiado” (não entendo por qual motivo o crítico do “Estadão” ignora Geraldo Vandré, vivo, com quase 82 anos). “A palavra ‘medo’ era recorrente em sua obra, principalmente desde o irretocável ‘Alucinação’, de 1976”, anota Julio Maria. Nesta belíssima música, Belchior diz: “Eu não estou interessado/Em nenhuma teoria [ele pronuncia “tioria”]/Nem nessas coisas do Oriente/Romances astrais/A minha alucinação/É suportar o dia-a-dia/E meu delírio/É a experiência/Com coisas reais//Me interessa mais/Amar e mudar as coisas”. A impressão que tenho, dando uma de Pangloss, é que ao compositor interessava mesmo era fazer belas canções, no caso de “Alucinação”, uma música questionadora, clama-se por mudança, alguma mudança. Mas nesta música há menos angústia do que um desejo de “transformar”, de um realismo desencantado com o seu tempo, meio místico. Àqueles que estudam música vale uma leitura comparada de “Alucinação” e “Pequeno perfil de um cidadão comum”, de Belchior, e “Construção”, de Chico Buarque.

Poucos entendem tanto de música no país quanto Julio Maria, que leio com satisfação, mas vale sugerir que às vezes a dor exposta na música não é exclusiva (ou necessariamente a) do artista que a compôs. É a dor de todos — num tempo “x” ou a dor atemporal dos indivíduos — percebida pela potente antena do artista.

O admirável crítico Zuza Homem de Mello disse a Julio Maria: “Ele [Belchior] foi um dos mais cultos artistas da MPB. Possuía uma importância extraordinária no pop sobretudo pela canção ‘Como nossos pais’. Aquilo foi uma revelação, e ele colocou o tema de maneira extraordinária. Elis Regina teve a percepção disso ao escolher a música para lançá-la no ‘Falso Brilhante’”. Impossível discordar do mestre Zuza Homem de Mello. “Como nossos pais”, uma das mais belas músicas do cancioneiro patropi e um retrato de todos nós, coloca Belchior no mesmo patamar de Noel Rosa, João Gilberto, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Quando ouço “Como nossos pais”, lembro-me de um poema do italiano Umberto Saba, que tentou libertar-se do pai, mas acabou se tornando seu simulacro: “Meu pai foi para mim ‘o assassino’,/até os vinte anos, quando o conheci,/e vi que não passava de um menino/e o dom que tenho dele recebi” (tradução de João Moura Jr.). “Não quero lhe falar/Meu grande amor/Das coisas que aprendi/Nos discos/Quero lhe contar como eu vivi/E tudo o que aconteceu comigo”, canta Belchior. Não deixa de ser curioso que sua música seja narrativa, portanto pode ser lida como poesia e prosa — as “estrofes” são, se diria hoje, haicais e/ou minicontos independentes ou interdependentes. Adiante, alerta: “Por isso cuidado, meu bem/Há perigo na esquina/Eles venceram e o sinal/Está fechado pra nós/Que somos jovens”. Eles venceram: os homens da ditadura? Mais do que isto, os homens do poder, que, ao contrário do que costumamos imaginar, não estão apenas no poder. Nós, todos nós, somos o/um poder, temos (e representamos) algum poder — talvez seja a microfísica do poder. Mas há esperança? Alguma, há. “Vou ficar nesta cidade/Não vou voltar pro sertão/Pois vejo vir vindo no vento/O cheiro da nova estação/E eu sinto tudo na ferida viva/Do meu coração.” Mas há o lamento de que mudamos menos do que queremos — as mudanças são mais de aparência e de discurso do que de essência, de fundo: “Minha dor é perceber/Que apesar de termos/Feito tudo, tudo, tudo/Tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos/Como os nossos pais” e “Mas é você/Que ama o passado/E que não vê/ Que o novo sempre vem”. A sociedade (e nós mesmos) nos adapta e, aos poucos, nos tornamos nossos pais. Somos eles, até nos defeitos, embora a identificação tornada pública é com as virtudes. Diferentemente de outros artistas engajados, Belchior duvidava, bela e dolorosamente, da nossa capacidade de mudar. O que diz, de maneira precisa, é que o “passado”, nossos pais, é um “senhor de escravos”, assim como nós, os filhos, o seremos adiante. Belchior, o leitor de filosofia, duvidava. Isto o distingue, por exemplo, de um Geraldo Vandré e, mesmo, de um Chico Buarque (criador que, dado o talento, escapa ao que busca: o engajamento revolucionário; sua música, como a literatura de Gra­ciliano Ramos, não tem a ver com o realismo socialista, ainda que sejam homens de perfis esquerdistas. O filho do historiador-pensador Sérgio Buarque de Holanda é a raposa, como artista, que, em termos políticos, comporta-se como porco espinho. É, certamente, o que diria o filósofo anglo-letão Isaiah Berlin).

A hora das gavetas

O jornal “O Povo”, de Fortaleza, ouviu, na reportagem “Belchior fica co­mo uma canção, um verso”, Fran­cis­co Gilberto Belchior, irmão de Belchior: “A vida do Belchior se traduziu em mudanças. Do bom aluno que representou a tur­ma como orador no ginásio até o adolescente que tomou a decisão de mudar para ser frade, viu que não era aquilo que ele queria e mudou de novo para ser estudante de Medicina. Depois ele viu que o caminho dele não era aquele e mais uma vez mudou para a música, onde ficou. Agora ele muda e se despede mais uma vez. Mas as músicas ficam”.

Um dos principais parceiros de Belchior, Rodger Rogério disse ao jornal “Diário do Nordeste”, de Fortaleza: “Era um letrista maravilhoso — sim, um melodista também, mas também como letrista era excepcional”. Fausto Nilo, também parceiro, corrobora: “Era um exímio letrista, é o que fica para nós, esse legado”.

Fausto Nilo conta que “Belchior sabia latim, Baudelaire e muito da Bí­blia”. Amelinha, a cantora que mesmerizou uma geração, informa que, além de desenhar, o artista pintava quadros.
Quando um artista morre, a tendência é que parceiros e familiares vasculhem as gavetas em busca de “preciosidades” que rendam dinheiro. Às vezes, do ponto de vista estético, há verdadeiros achados. No caso do escritor Vladimir Nabokov, seu filho publicou uma história que parece tudo, menos Nabokov. Aqui e ali, nota-se o talento do autor de “Ada” e “Fogo Pálido”, porém, esboços não são obras terminadas. No caso de um perfeccionista, como o criador de “Lolita”, resulta em decepção literária. No caso de Belchior, que havia “desistido” de gravar e, até, de divulgar suas novas produções — amigos dizem que o J. D. Salinger tropical não havia parado de compor —, as gavetas serão esvaziadas? Espera-se que sim. Melhor, espero que sim. Afinal, uma ou duas músicas de qualidade de Belchior — ainda que talvez não sejam músicas, e sim letras —, é melhor do que nada.

René Moreira, do “Estadão”, entrevistou o último parceiro de Belchior, o violonista Diego Figueiredo — “eles fizeram mais de 500 shows por todo o” Brasil “em vários países”.
Diego Figueiredo, premiado duas vezes no Festival de Jazz de Montreux, afirma que, entre 2001 e 2007, “compôs obras com Belchior e ficou conhecendo outros trabalhos ainda inéditos do artista”. “Belchior era muito bom nos mais diversos ritmos e fez sambas lindos, lembrando o Paulinho da Viola”, diz o violonista. “Quanto a esse material inédito que ele deixou, a gente trabalhou nele entre os anos de 2002 e 2003.”

Caetano Veloso

Caetano Veloso e Belchior: a partir de determinando momento, o segundo começou a criticar o primeiro, num diálogo rico para a diversidade da música brasileira

Caetano Veloso, o mais importante compositor vivo do país (e o artista mais aberto aos diferentes estilos musicais, dialogando com certa felicidade com artistas menores, que, sob sua batuta, ficam “menos menores”) — ao lado de Chico Buarque (recomenda-se avaliar de modo tolerante e estético o criador cultural e “não” confundi-lo com o militante que apoia Lula da Silva e Dilma Rousseff) —, deu um depoimento valioso ao “Estadão” a respeito de Belchior.
Ao se encontrarem em São Paulo, com Belchior já afastado do jet set cultural, Caetano Veloso ganhou de presente dois retratos do poeta Carlos Drummond de Andrade. “Muito sugestivos e profundamente sentidos”, afirma o artista baiano.

A música de Belchior mais dialoga, irônica e belamente, do que renega o tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Tinha uma beleza poética imensa, como muitos dos versos de suas canções. A chegada à cena do ‘pessoal do Ceará’ teve como uma de suas marcas a intenção de exibir confronto com os tropicalistas. Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto eles seriam o novo e a verdadeira rebeldia. Me parecia uma interessante reação ao habitual ‘tudo amiguinho, tudo certo’. No estilo de Belchior, soava justo.”

Caetano Veloso acrescenta: “O tropicalismo se opôs à bossa nova louvando João [Gilberto], [Tom] Jobim, [Carlos] Lyra. A bossa nova se opôs à bossa velha louvando [Dorival] Caymin, Ary [Barroso] e Bide&Marçal. O pessoal do Ceará queria opor-se mesmo [Caetano Veloso desconsidera que Belchior e turma, se se pode falar em turma, “modernizava”, entre outros, Luiz Gonzaga, Rosil Cavalcanti e Dominguinhos]. Não chegava a isso e a recusa à louvação teria ficado vazia não fosse o talento e a personalidade de Belchior. O belo ‘Pavão’ [“Pavão Misterioso”] de Ednardo era psicodélico e nordestinista. Ou seja: nada que o tropicalismo já não tivesse sido. Fagner era, quanto a todas essas questões, indefinido. Belchior esboçava um estilo antissixties, sugeria uma volta aos fifties como prefiguração os eighties. Eu amava (e amo) ‘Mucuripe’. A frase musical que sustenta o verso ‘Vida, vento, vela leva-me daqui’ é tão bela e adequada que dois dos maiores cantores do Brasil não conseguiram chegar à sua altura [Caetano Veloso não diz quais são os cantores, mas a música foi gravada por Elis Regina, Fagner, Zé Ramalho, Oswaldo Montenegro, Djavan e Roberto Carlos]. Mas ‘Mucuripe’ era uma canção ‘clássica’, atemporal. Ela trouxera os cearenses ao reconhecimento público, mas não representava ruptura. As músicas que Belchior assinou sozinho fizeram isso”.

Canções de Belchior fazem referência ao tropicalismo e, sobretudo, a Caetano Veloso. Em “Apenas um rapaz latino-americano”, o jab mais direto, expõe o artista baiano, por meio de um diálogo crítico ambíguo (talvez mais irônico): “Mas trago de cabeça/Uma canção do rádio/Em que um antigo/Compositor baiano/Me dizia/Tudo é divino/Tudo é maravilhoso”. Até a referência ao rádio, conexão com os cantores do rádio, realça a “antiguidade” de Caetano Veloso. A música “Divino maravilhoso” persiste tão bela quanto a arte de Caetano Veloso e de Belchior. Na voz de Gal Costa, maior cantora brasileira viva, é néctar dos deuses. Pode-se dizer que a resposta de Belchior equivale, em qualidade, à criação do compositor baiano. Mas não há como deixar de admitir que Caetano Veloso tem mais “peso”, na cultura brasileira (observe-se, inclusive, que se tornou uma espécie de historiador categorizado da tropicália com o livro “Verdade Tropical”), do que o artista cearense.

“Muitas entrevistas de Fagner desmereciam a força estética que era vidente em ‘Mucuripe’ e em Belchior. ‘Como nossos pais’ é uma das melhores interpretações de Elis Regina. Também ‘Velha roupa colorida’ é algo coeso e forte. Mas tudo isso ficava mais interessante ainda quando na voz do autor. É que a escrita em si, o material que ele apresentava, era de boa qualidade. E o som da sua voz, reiterado por sua figura, dizia o que ele queria dizer. Seria gozado ouvir, em ‘Apenas um rapaz latino-americano’, um ‘nada é divino, nada é maravilhoso’, como se a frase do ‘antigo compositor baiano’ lembrada por quem canta já não fosse amargamente autoirônica quando foi inserida no retrato cubista de uma passeata de protesto contra a ditadura militar — e não precedesse o refrão ‘É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte’ — mas as dubiedades de Belchior são deliberadamente desorientadoras e estão ali mais para marcar a passagem do tempo e anunciar novos ventos de estilo”.

A crítica “positiva” de Caetano Veloso visa “domesticar”, para incorporar, a rebeldia de Belchior? Não me parece. O que ocorre é outra coisa: o autor de “Vaca Profana” e “Alegria, Alegria” está admitindo, com todas as letras, que Belchior era um par, um companheiro, ainda que rebelado e incontrolável, de jornada. A música de Belchior é uma resposta estética à música de Caetano Veloso.

Ao ouvir “Paralelas”, Caetano Veloso diz que chorou, como havia chorado ao escutar Elis Regina cantando “Como nossos pais”, num teatro de São Paulo. “O confronto que lhe pareceu necessário vinha eivado de amor. E não apenas amor transmutado em ressentimento. Não é por acaso que Belchior é lembrado e louvado por gerações sucessivas. Suas canções não são das que morrem. Ele prefigurou os anos 80 em termos globais e se instalou na memória profunda da história da criação de música popular no Brasil”, sugere Caetano Veloso, indicando que, além de artista genial, é um crítico agudo.

Belchior morreu, como todos nós vamos morrer. Mas, diferente da maioria esquecível, será lembrado, pois a história da música o eternizará. Belchior vive, pois. É tão imortal quanto Machado de Assis, que permanece nos dando prazer e, até, nos assombrando. De um lado, Machado de Assis com aquele ar de nobre impoluto e, doutro, Belchior com aquela carona (quase uma carantonha, não fosse aquele ar mordaz) de Pancho Villa misturado com Emiliano Zapata.

Quem se habilita a escrever a primeira grande biografia, autorizada ou não, de Belchior? Talvez tenha chegado a hora. Mesmo que se descubra músicas novas, é provável que o mais importante de sua arte esteja devidamente registrado. Quando se ausentou da vida pública, tornando-se um ermitão, sua obra musical estava, aparentemente, concluída, fechada. Biógrafos, libertem-se de seus grilhões e mãos à obra… Aliás, o primeiro deles lança, em setembro, a biografia “Apenas um Rapaz Latino-Americano”. Trata-se de Jotabê Medeiros.

Coração Selvagem
Belchior

Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim
Sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja
No seu copo, no seu colo e nesse bar

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa
Eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde
Eu quero o corpo, tenho pressa de viver

Mas quando você me amar
Me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo
Tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro ver e saber que eu te amo

Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem
E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver

Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida
Vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela

Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo
Meu bem, meu bem, meu bem

Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho
Algum punhal de amor traído completará o meu destino

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo
Meu bem, meu bem, meu bem

Meu bem, meu bem, meu bem
Que outros cantores chamam baby
Que outros cantores chamam baby
Que outros cantores chamam baby

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antonio

roberto é outro artista de obra cultural de da inveja e quando se for vai deixar seu legado p/ sempre,quanto ão fato dele fazer a propaganda da friboi nada haver ele é artista no qual em geral qualquer artista bem sucedido é procurado por uma empresa a fazer um comercial e nada errado nisso,se ele fez de conta que comeu a carne como alguns dizem a empresa não colocaria no ar a propaganda e mais a propaganda era curta o tempo,como dizer que ele não comeu a carne,um bom cantor não pode ser só um bom cantor e compositor e… Leia mais