Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Batalha de informações: erros e acertos da comunicação no conflito da Ucrânia

Se a cobertura de conflitos já é naturalmente desafiadora para qualquer veículo, com a notícia em tempo real tudo fica muito mais complexo

Ao vivo, a Jovem Pan News mostra um jogo de videogame como se fosse um ataque russo à Ucrânia | Foto: Reprodução

A imagem é por demais chocante e viralizou nas redes na sexta-feira, 25: um blindado de guerra vai de encontro a um automóvel no distrito de Obolon, em Kiev. Literalmente, passa por cima do veículo e, depois, ainda dá ré e vai embora. Na filmagem seguinte, civis retiram dos destroços o condutor, que milagrosamente sobreviveu.

A primeira informação é de que seria um veículo russo que gratuitamente teria esmagado o carro. Mais tarde, descobriu-se que era um Strela-10, uma viatura utilizada pelo exército ucraniano.

Este é um dos problemas da comunicação em momentos críticos como o de uma guerra, ainda mais em tempos de jornalismo em tempo real: não produzir barrigas ou notícias pela metade, ainda que involuntariamente, já que uma das armas mais utilizadas é justamente a informação. Existe até um termo, “false flags” – “bandeiras falsas”, em inglês –, para a produção de eventos como se fossem ações do inimigo para iludir a opinião pública e justificar ou ampliar determinada ação ou ofensiva.

No Brasil, talvez o exemplo mais conhecido de false flag, ainda que não em uma guerra declarada, tenha sido o atentado ao Riocentro, em 1981, pela qual militares de extrema-direita atribuiriam à esquerda a explosão de uma bomba no local, onde ocorreria um show. A intenção usar o ato para jogar a pecha de terroristas nos adversários e barrar a abertura à democracia bancada pelo regime militar. Só que o explosivo detonou antes, dentro de um carro, no colo de um dos militares, o matando e ferindo seu comparsa.

Profissão extrema
Por isso, cobrir guerras é uma das atividades extremas do jornalismo. Quem expõe a própria vida para levar informação à população de seu país já mereceria só por isso qualquer premiação de honra ao mérito disponível. Entre os brasileiros, José Hamilton Ribeiro, que décadas depois ficaria conhecido por apresentar o Globo Rural, perdeu uma perna cobrindo a Guerra do Vietnã para a revista Realidade, hoje extinta, ao pisar em uma mina terrestre, em 1968. Mas talvez o mais célebre correspondente de guerra tenha sido Ernest Hemingway foi esteve como jornalista no front durante a Guerra Civil Espanhola e, com as tragédias que testemunhou, escreveu o clássico Por Quem os Sinos Dobram.

Enquanto uma guerra que deve durar pelo menos algumas semanas e ainda de consequências imprevisíveis dá seus primeiros, o jornalismo brasileiro tropeça para informar, com erros às vezes grotescos. Foi o caso das TVs Jovem Pan News e Record, que, logo no segundo dia do conflito, colocaram cenas do Arma 3, um jogo de videogame, como se fossem imagens de mísseis disparados na Ucrânia. A supergafe foi denunciada pelos próprios usuários do game.

Na Globonews, um inacreditável surto do quase sempre ótimo Jorge Pontual por uma opinião divergente. Ele se disse “indignado” com a versão do conflito exposta no ar pelo historiador Rodrigo Ianhez, que mora em Moscou. “Ele se diz historiador e não sabe história. O Putin reescreve a história e aparece gente aqui na televisão, na Globonews, para dizer que ele tem razão!”, atacou Pontual. Nas redes sociais, Ianhez devolveu a indelicadeza, chamando Pontual de “dinossauro” e explicando que expunha o ponto de vista não dele, mas da imprensa e da política russa:

Pontual, grandíssimo jornalista da velha guarda com nome consolidado em mais de 50 anos de profissão, não teve a humildade necessária à situação. Coisa que sobrou em Casimiro Miguel, o Casé, um youtuber que chega a atrair centenas de milhares de internautas para suas sessões ao vivo em seu canal.

Na madrugada de quinta-feira, 24, quando a guerra acabava de ser declarada e sentindo a alta ansiedade de sua audiência – basicamente de adolescentes e jovens – ele convidou o professor Tanguy Baghdadi, referência na área em Relações Internacionais, para falar com sua multidão de seguidores. E, em uma linguagem bem diferente da que tinha aplicado minutos antes para o público da GloboNews, Baghdadi falou claramente o que poderia acontecer, de acordo com as poucas informações que ainda todos dispunham. Uma aula de história e geopolítica durante a madrugada.

Especialista em Relações Internacionais "invade" live de Casimiro e dá aula  sobre Rússia e Ucrânia

Na madrugada do início da guerra, youtuber Casimiro Miguel entrevista o professor de Relações Internacionais Tanguy Baghdadi para explicar o conflito da Ucrânia a centenas de milhares de internautas | Foto: Reprodução

Observado o exemplo do youtuber, percebe-se que a imprensa tradicional vai ter realmente de se adaptar à velocidade das redes sociais para acompanhar o conflito. Mais complicado é o cenário para a mídia impressa. No já histórico 24 de fevereiro de 2022, os jornalões – que cobriram tantos conflitos e durante muito tempo foram a mais segura fonte de informação da população – amanheceram totalmente obsoletos.

Uma resposta para “Batalha de informações: erros e acertos da comunicação no conflito da Ucrânia”

  1. Avatar Luiz Antônio Borba disse:

    Putin é multibilionário que não poderá usufruir no ocidente o que roubou dos seus semelhantes. roubou meu dinheiro também! Ainda invadirei sua casa e te subterei aos meus desejos mais obscuros. Comunista de merda!

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