Euler de França Belém
Euler de França Belém

Baga (Nigéria)? Hum, bem longe de Paris? Então, esqueçam

Um menino solitário caminha em Baga, Nigéria, sem um mínimo olhar da mídia mundial...

Ler a realidade atual impõe ao leitor do presente uma alta capacidade de interpretação, tal como de um leitor de romance de ficção se exige tanta imaginação…

Adalberto Queiroz

Quem quer que folheie os jornais do mundo, do dia 10 de janeiro de 2015 até hoje, verá quão sensacional foi a cobertura à passeata em Paris como reação à morte de dez jornalistas-cartunistas de um semanário de humor, o “Charlie Hebdo”, e de dois policiais.

A marcha em Paris, que foi ilustração das capas de diversos jornais ao redor do mundo, escondeu, apagou, “deletou” outro massacre — em Baga (Nigéria), realizado por grupo do mesmo viés e orientação que aquele que atuara em Paris, onde morreram mais de 2000 mil pessoas (na soma do estrago dos sanguinários de um bando intitulado Boko-Haram).

O silêncio sobre aquele episódio mais sangrento do que o massacre de Paris (e sobre a mortandade de cristãos que exercem seu direito de ir à missa em países islamitas ao redor do globo) faz o leitor conduzir-se e consigo levar sua “imaginação” para um planeta que se move em torno de interesses e do Leviatã — um novo monstro que é o governo mundial.

A ciência do marketing — que tomou o lugar da propaganda — tornou-se o novo “ópio das massas”, e estas, “entorpecidas” pela dose diária que lhes é servida pela mídia internacional (web inclusa), parece conduzir-se mais pelas ilustrações de capas digitais ou impressas do que pela sensata orientação à realidade.

As redações, por sua vez, são alimentadas pelo desejo das massas nas chamadas mídias sociais — muito mais ainda do que, em tempo algum, as redações se viram forçadas a não querer calar por teses que são geradas por uma central mundial de amortecimento da dor. Veja o exemplo desta manchete do website G1 do globo.com: “Massacre do Boko Haram teve pouca repercussão internacional”.

Isso tudo me faz lembrar de A. François-Poncet, citado por J.-J. Chevallier: “Achava-se unido a seu povo como que por antenas que o informavam do que a multidão desejava ou temia, aprovava ou censurava, acreditava ou não acreditava. Podia assim dirigir a sua propaganda com tanta segurança quanto cinismo e com descoberto desprezo pelas massas. À violência e à brutalidade, acrescentava uma aptidão para a astúcia, para a hipocrisia, para a mentira, aguçada pelas rivalidades e discórdias que incessantemente grassavam no seu partido. Sabia adormecer o adversário até o momento de poder desembaraçar-se dele e, assinando tratados, refletir na maneira pela qual se lhes furtaria.”

O contexto é outro quando François-Poncet falava (e registrava outro tipo de desvario) em suas “Recordações de uma Embaixada em Berlim” — à época do surgimento de Hitler, o “novo príncipe [de Maquiavel] adaptado ao século XX; ao século das massas e dos mitos sociais ou nacionais desencadeados; ao século também da insensível ferocidade científica” (Chevallier).

Entretanto, nada deixa a desejar o momento presente em termos de manipulação das massas — só os agentes mudam, estando travestidos do bom-mocismo típico dos politicamente corretos.

Os próprios jornais e “geradores de conteúdo” (os neo-jornalistas de hoje) estão estarrecidos pelo silêncio que eles próprios geraram em torno da matança de Baga (Nigéria): “Veículos de imprensa e analistas internacionais agora questionam como um caso desse porte teve uma repercussão tão pequena, especialmente em comparação ao ataque terrorista na França, ocorrido menos de uma semana depois”, diz o site G1.

Um menino sobre os cadáveres

Quem primeiro me alertou para as atrocidades que foram praticadas em Baga (Nigéria), sob o silêncio complacente da imprensa mundial, foi o “Observador”, de Portugal — depois de nada ver no jornal que assino, o “Estadão” online. Ao contrário, o “Estadão” se deu ao “luxo” de dizer que duas meninas (vítimas do sangrento e assassino grupo islamita radical Boko-Haram) eram “suspeitas” de se fazerem de mulheres-bombas… Detalhe: quando reclamei como assinante, tive o silêncio como resposta e nem sequer minha observação foi aprovada no site.

O espírito humano deve se levantar contra as atrocidades.

Sim, é isso que nos dá a pista primeira de que estamos no caminho da Civilização.

Que as pessoas se deem os braços (como na passeata dos milhares em Paris) ou as mãos, em nome da defesa da liberdade de expressão, é algo que não se deve olvidar.

Entretanto, o que dizer quando isso abafa a piedade faz silenciar a capacidade de se revoltar contra atrocidades que estão muito além, distante do intramuros de Paris?

Por que a cena do menino solitário (na foto de o “Observador) é para mim mais tocante do que a dos líderes das democracias mundiais ao lado do leniente François Hollande, marchando pelas ruas de Paris, com sua face de típico socialista europeu defensor do bom e justo governo? Eu vos digo: porque este menino que vemos caminhando pelas ruas de Baga (Nigéria) é, sim, o abandonado pelas democracias, é o esquecido pelo governo mundial que quer se instalar entre nós. Este menino é a voz do homem solitário e incapaz contra o Leviatã.

Este menino negro e descalço — sem nenhum cartaz em mãos — que caminha em meio aos cadáveres dos mortos de Baga me diz centenas de vezes mais fortemente a meu espírito e a minha alma:

Socorrei-me, Senhora Piedade, pois que é difícil ter esperança de um século menos cruel e menos atavicamente obtuso do que foi o século XX, do qual o poeta-prosador-profeta Hermann Broch dissera: “Século da mais turbulenta anarquia, do mais obscuro atavismo, da mais negra crueldade”.  O fantasma de André Malraux renasce para os espíritos livres e solitários marcharem junto com este menino de Baga sussurrando sua profecia aos nossos ouvidos guiados pela mídia: “O nosso século, em face do passado, parece um renascimento da fatalidade”.

Aos vivos, à suivre…Se esperança houver, em meio a tanta insensatez.

Adalberto Queiroz é poeta e jornalista.

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