Autobiografia exibe Jô Soares como o Forrest Gump dos trópicos

O livro é a melhor de suas obras, leitura recomendável para começar 2018 com painel da cultura na visão de quem estava no palco dos acontecimentos ou nos bastidores

Nilson Gomes

Especial para o Jornal Opção

Nas entradas de livrarias do Oiapoque ao Chuí, se houver delas nos extremos deste País extremado, a árvore de Natal de 2016 foi menor que a pilha de exemplares de “O Livro de Jô”, primeiro volume de “uma autobiografia desautorizada” de Jô Soares escrita em conjunto com o jornalista Matinas Suzuki Jr. e editada pela Companhia das Letras. Não se sabe o que há de Matinas Suzuki na obra, mas deve ter sido pouquíssimo, pois Jô Soares reina em cada das 484 páginas. É um império da observação, pois o biografado prefere narrar fatos estrelados por personagens da cena internacional, com a coincidência de Jô estar nos momentos decisivos da história da cultura, sobretudo o teatro e a televisão. E da política: presenciou, por exemplo, uma etapa decisiva do golpe que tirou o então presidente da República, João Goulart, e implantou a sanguinária e crudelíssima ditadura militar a partir de 1º de abril de 1964. E foi confidente de um caso do mesmo Jango (que, dizem, disputava mulher até com o jogador Garrincha).

As árvores de Natal serão desmontadas apenas no próximo dia 6 de janeiro, conforme a tradição, enquanto o Everest de volumes da autobiografia de Jô se desfaz rapidamente nas livrarias (lidera ou está em segundo lugar em todas as listas de mais vendidos) desde o seu lançamento, no fim de novembro, quando foi mostrada também a capa (Jô tocando bongô) do volume 2. O preço é convidativo: R$ 64 nas livrarias e R$ 41,90 em sites como o da Amazon, quase o mesmo que se paga em Goiás por obras com 1/5 das páginas e 1/100 da graça. Jô não narra apenas a própria história: são dezenas de bem escritas e inéditas minibiografias de personagens, sobretudo, de TV, teatro e cinema. Autor de romances como “O Homem Que Matou Getúlio Vargas” (que transformei em literatura de cordel, rimando parágrafo por parágrafo), deles vendeu “mais de 1,3 milhão de livros” (como informa a contracapa da biografia), nenhum tem história tão fascinante quanto a sua. Uma das razões foram os acontecimentos ao seu redor, com pessoas ao seu redor, ao redor de palcos pelo mundo fazendo do mundo um palco ou, melhor ainda, nos arredores dos bastidores. Com seu talento de observador arguto, Jô dirige os holofotes aos fatos e suas estrelas, não necessariamente ele ou com ele, mas ali ao alcance dos olhos vivos e do faro fino.

Ao contrário da fama de pobre atribuída a Jó, cuja parte da Bíblia tem o título parodiado pelo quase xará, Jô teve uma infância rica, inclusive, de dinheiro. Seu quintal era o mais célebre hotel brasileiro, o Copacabana Palace, na praia mundialmente conhecida. Jô deu as primeiras braçadas na piscina do Copa. Estudou na Suíça, frequentava o lado chique de Paris como quem vai à padaria comprar sonhos. Aliás, sonhos nunca faltaram em sua trajetória — inclusive, aqueles nada doces. As férias tupiniquins eram curtidas em cassino na zona serrana do Rio de Janeiro. Esquiava. Fazia cruzeiro intercontinental em navios luxuosos. Frequentava a noite em Nova York. Havia acabado de passar em testes para estudar em Oxford e Cambridge, na Inglaterra, quando… Depois de o avô materno, Carlos Leal, ser atrapalhado pelo nacionalismo de Getúlio Vargas e o pai, Orlando Heitor Soares, o Garoupa, quebrar no comércio, Jô voltou ao Brasil e conheceu a pobreza. A própria. E sofreu com ela. Muito. Quando a mãe, Mercedes Leal Soares, a Mêcha, morreu num acidente de carro, os pais de Jô moravam de favor numa pequena “quitinete emprestada por uma tia”.

Ao sair de um anexo no Copa, o adolescente Jô alugou um quartinho de fundo de quintal e, mesmo poliglota e cidadão do mundo, pensou em ser motorista de táxi — a profissão de quem atropelou a sua mãe, a razão de se convencer a escrever a biografia. Num dos muitos episódios interessantes, Jô desembarcou no Rio quase dez anos após a morte de Mêcha. Entrou no táxi da vez no Aeroporto Santos Dumont. Ao pagar a corrida, o motorista dispensou o dinheiro e o fulminou: “Fui eu que matei a sua mãe”. As coincidências são uma tônica do livro e fazem de Jô uma versão tropical de Forrest Gump, o contador de histórias vivido nas telas por Tom Hanks: está sempre na hora certa, no lugar certo, ainda que com as pessoas erradas (leia neste texto o trecho “13 coincidências na vida de Jô”).

Jô Soares entrevista o ator Grande Otelo

Quase usei como título desta resenha a frase “a incurável vida de um interessante menino íntimo do âmago”, que está espalhada em texto de Millôr Fernandes usado como prefácio. Jô traz magníficas definições na autobiografia, mas quem o define melhor é Millôr no retrato 3×4 do amigo 6×9 José Eugênio Soares: “Só estará realizado no dia em que interpretar um personagem totalmente sem graça e o público não rir”.

Os personagens do personagem

Uma crítica à atuação de Jô Soares como apresentador de talk show era por seu protagonismo: aparecia mais que os entrevistados. Melhor para os telespectadores. Jô era (é) mais interessante que 97% de seus convidados. Tem mais cultura que 98% deles. Sua vida é mais rica que a de 99%. Por isso o produto ficava 100%. Ele se assume “exibido”, “todo metido”, como na foto que ilustra a capa do volume 1 da biografia, que tem personagens marcantes — talvez tenham marcado mais o livro que a vida. Duas mulheres marcam ambos, o livro e a vida, ambas desde antes de ele ser Jô Soares: Mêcha, a mãe (desde que era Zezinho); Theresinha, a primeira mulher (desde que era Joe, um artista amador).

Jô foi casado com verdadeiras musas nacionais, como a atriz Sylvia Bandeira. Mas quem surge com força no livro é a primeira mulher, a também atriz (no caso, muito mais talentosa que Sylvia) Theresa Austregésilo, a Theresinha. Estrela de teatro quando conheceu o ainda Joe, Theresinha sustentou o amado nos primeiros anos de relacionamento. Tiveram um filho, Rafael. O livro é dedicado aos pais de Jô, Mercedes e Orlando, e a Rafa, o filho que levava ao Hipódromo da Gávea, no Rio, “um dos locais que sentia mais prazer em visitar”.

Jô desenha, representa, escreve esquetes e romances, apresenta, toca, dirige peças de teatro, enfim, é multitudo. Todavia, seu papel mais emocionante, na biografia, é o de pai. Quando se refere a Rafa, se contém para não revelar pieguice, mede as frases para evitar forçar choro. Em vão: Jô, o pai, se destaca em meio a tantas faces. E inunda todas. Rafa era autista. No país da fofoca e da maldade, “muitas pessoas falaram que” Jô renegou e escondeu o filho. O crime contra a honra de Jô é ainda mais grave quando se ouve quem conheceu de perto o tratamento dado a Rafa pelo pai.

Pelé foi um de seus principais entrevistados

No entanto, conforme o próprio Jô ressalta, o heroísmo nos cuidados a Rafa, responsável por ele ter chegado aos 51 anos com vida de qualidade, foi Theresinha. Jô agradece à ex-mulher que “abandonou sua carreira de atriz de sucesso para se dedicar” exclusivamente a Rafael por mais de meio século. Theresinha era de origem rica em Pernambuco, filha de deputado federal membro da Academia Brasileira de Letras, presidida durante décadas por um tio. Abandonou tudo para não abandonar sua cria. Um acidente matou Mercedes, a mãe de Jô. Um ano depois, o cigarro matou Orlando, o Garoupa, pai de Jô. Um câncer matou o filho. E a autobiografia desautorizada matou um fantasma: o de que Jô abandonou o filho.

Rafa e sua mãe, Theresa

Monteiro Lobato e o presidente da Saneago

Jô Soares é atento a detalhes. Decifra siglas, como as de nomes de artistas. Conta o verdadeiro nome de alguns conhecidos por apelidos (o cantor Dick Farney “se chamava Farnésio”). E, no meio de seres e histórias maravilhosos está Monteiro Lobato, o caseiro do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Lobato, o pai da Emília, criou também o nome de uma bebida tão famosa quanto a boneca de pano: o biotônico Fontoura. A fábrica era da família que depois se uniria aos goianos Lage de Siqueira, que elegeria com votos populares o último governador de Goiás antes das indicações feitas pela ditadura civil-militar.

Os mais recentes herdeiros são dois ex-prefeitos de Goianésia, o hoje presidente da Saneago, Jalles Fontoura, e seus irmãos, como Otávio Lage de Siqueira Filho. As tradições permanecem vivas: Jalles acaba de conseguir, ao lado do senador Wilder Morais e do governador Marconi Perillo, quase meio bilhão de reais para saneamento não apenas dos municípios como das contas da companhia. E o biotônico continua nas lojas, agora como energético, em vários sabores. Outro produto da empresa, o Engov, persiste no mercado. E mercado é o que nunca lhe faltou: num réveillon em Nova York, Jô viu o Engov ser distribuído aos participantes.

Jô Soares com Rafa: dedicação ao filho autista

Onde ele está, a história acontece: 18 coincidências na vida de Jô

◘ Na Suíça, Jô cortou “o cabelo ao estilo punk, antes mesmo de existir o punk”.

◘ Jô passava perto de um restaurante em Milão, na Itália, quando viu a diva hollywoodiana Rita Hayworth. Ele bateu no vidro do carro e ela esticou em seu rumo a língua que, na análise de Jô, protagonizou “os sete segundos mais sedutores da história do cinema”.

◘ Jô viu ao vivo, do prédio de uma TV no Rio, os militares executando o golpe de 1º de abril de 1964, quando tomaram o Forte de Copacabana. O artista estava a uma janela da emissora e assistiu “a boa parte da movimentação militar”. No caso, a péssima parte.

◘ Frank Sinatra, a Voz, havia sido crooner no hotel nova-iorquino em que Jô se hospedou.

◘ Mikhail Gorbachev cobrou 5 mil dólares de Jô por uma entrevista. “Tudo por baixo do pano”: o dinheiro não poderia ser declarado.

◘ Jô comprava Imosec, remédio que “trava qualquer diarreia aguda”, na farmácia Piauí, onde Tom Jobim “trabalhava” como balconista, um de seus “passatempos preferidos”, e até “aconselhava remédios e trocava indicações dadas pelos médicos”.

◘ Encontrou por acaso diversas personalidades, inclusive (num aeroporto brasileiro) o escritor francês Jean Genet.

◘ Livrou da cadeia, durante a ditadura militar, os cantores Gilberto Gil e Caetano Veloso, pois os avisou depois de, por acaso, ver seus nomes no rol de artistas que seriam encarcerados pelos generais. (Os dois acabaram presos e foram exilados na Inglaterra.)

◘ Quando vice-presidente, João Goulart assediou uma bela jornalista que o entrevistava. Colocou a mão em sua coxa. Ela pegou “um cinzeiro de cristal, daqueles grandes, pesados, que tinha na mesa em frente” e o marretou “nos colhões dele”. Ela era amiga da família de Jô e, “dia sim, outro também”, pegava carona com o pai dele.

◘ O ator Paulo Guarnieri, filho do premiadíssimo Gianfrancesco Guarnieri, foi entregador de leite na casa de Jô.

◘ Numa madrugada, durante o arbítrio dos generais, um dos próceres do regime, Sérgio Fleury, delegado que “pertencia à escória da polícia corrupta”, tentou acudir Jô numa rua de São Paulo após um pequeno incidente: um pássaro havia batido e estilhaçado o para-brisa do carro do artista. Típico de quem exerce o papel de médico e monstro, Fleury “se dispôs a acompanhá-lo” até sua casa. Jô dispensou a carona com a ave de mau agouro.

◘ Com 16 milhões de habitantes na Grande Nova York, Jô desceu no Village e “a primeira pessoa que” viu na calçada foi o cantor Jorge Mautner. Lá, encontrou o cineasta Neville d’Almeida “trabalhando como garçom numa lanchonete”.

◘ João Gilberto, capa da “Veja” no fim de 2017 pelas brigas em família, repete há décadas esses problemas. Décadas atrás, numa conversa com Jô, reclamava “que o filho não falava com ele”. Jô perguntou: “Quantos anos tem a criança?”. João Gilberto respondeu: “Três meses”.

◘ Jô fez, “em vários ginásios”, shows ao lado da melhor cantora do Brasil em todos os tempos, Elis Regina.

◘ Jô dançava em cima da mesa do jornal “em volta da qual se reuniram os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir”.

◘ Jô foi sócio do polonês Zbigniew Ziembinski, o mais celebrado nome do teatro no Brasil em todos os tempos.

◘ O pai de Jô era amigo do poeta Manuel Bandeira e do historiador Sérgio Buarque de Holanda.

◘ A mãe de Jô era amiga de “uma das mulheres mais deslumbrantes do Rio”, a escritora Adalgisa Nery, viúva do pintor Ismael Nery e depois casada com Lourival Fontes, o Goebbels do Estado Novo. Ao pesquisar “para escrever o livro ‘O Homem Que Matou Getúlio Vargas’”, Jô descobriu outra história interessante. “Emmanuel Nery, filho caçula de Adalgisa com Ismael”, conta de Lourival Fontes “um veneno que seria capaz de manchar a biografia de qualquer homem público”: “Desleixado na aparência, sempre com a camisa borrada de cinza do cigarro e as cuecas infectas, pois se limpava mal e contra a vontade ao levantar-se das latrinas, fossem elas domésticas ou em castelos de lordes britânicos. Por sinal, raramente puxava as válvulas. Era inclusive comum minha mãe entregar ao motorista dele um embrulho com uma ou duas cuecas, caso o próprio notasse que o ar ao seu redor ficara um tanto poluído”. Ao ampliar a lembrança de Emmanuel Nery, Jô também ejeta veneno — e ajuda a vingar as milhares de vítimas de Lourival Fontes, algumas delas amigas de Jô.

O dia em que Gorbachev fez comercial para a Brahma

Mikhail Gorbachev e Margaret Tchatcher: unidos, contribuíram para demolir o comunismo

É maligna a vingança de Jô Soares contra os bandidos da opinião alheia, pois ela aparece em forma de historietas. Como esta: “Uma jovem fora detida para depor no Dops. O delegado que a interrogava perguntou por que ela era comunista.

“Meu pai era comunista, minha mãe era comunista, então eu também sou comunista”.

“Ah, é? Quer dizer que, se seu pai fosse cafetão e sua mãe fosse puta, você também seria puta?”

“Não, aí eu seria agente do Dops”.

Ainda nos tempos do regime militar, “momento barra-pesada, de muita violência”, com monstros a serviço da ditadura invadindo teatro e espancando artistas, era preciso proteger atores e público durante os espetáculos. Quem foi escalado?

“Designaram a mim [Jô Soares] e ao [dramaturgo] Plínio Marcos para ficar na porta fazendo a segurança do Teatro Oficina”.

Ainda na seara da política, agora a internacional, Jô demole Gorbachev com mais duas conclusões, além da denúncia de caixa 2 e sonegação de tributos.

Primeira conclusão: Gorbachev, o líder mundial que proporcionou a destruição do prestígio do comunismo no mundo ao deixar que quebrassem o muro de Berlim, “é um político brasileiro”. Foi o que viu em seu “olhar divagante, distante, dissimulado”, do tipo que “olha em você sem vê-lo”.

Segunda: Gorbachev é um vendido. Jô duvidou que o estadista da glasnost fizesse o que em seu entender era um absurdo, levantar o indicador durante a entrevista em troca de cachê da Brahma. Pois o pai da perestroika e da glasnost não apenas ergueu o dedo como disse o “número 1”, slogan da cervejaria no ano da entrevista, 1994.

O comunismo ruiu graças a políticos do naipe de Gorbachev, mas alguns dos sonhos fomentados permanecem — o próprio Jô se diz fã de Liev Trótski, o ucraniano organizador do Exército Vermelho soviético. Jô resume em um parágrafo o que viu em Moscou: o comunismo, “que iludiu tanto” os seus “grandes amigos do PC na década de 1960, não deixava nem sequer saudades”: “Quando penso na sinceridade e na lealdade com que meus amigos do Partido Comunista acreditaram nos ideais do socialismo e na União Soviética, não deixo de ter uma certa tristeza por eles e pela minha geração que acreditou tanto na revolução. Para mim, a vida deles foi uma lição de coragem e de retidão, mas o resultado final do comunismo é melancólico. As verdades históricas também doem”. O comunismo deixou um rastro de 100 milhões de mortos apenas na União Soviética de Óssip Stálin e na China de Mao Tsé-tung. Portanto, mais do que melancólico…

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