Euler de França Belém
Euler de França Belém

Augusto de Campos lança edição revista e ampliada de traduções da poesia de Emily Dickinson

O poeta concreto, além das traduções esmeradas, publica um ensaio de qualidade sobre a poeta americana

poemasOs poetas concretos, como Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari — que, a rigor, escreveram (o segundo ainda escreve) poesias diferençadas, embora tenham participado do mesmo movimento poético —, são questionados por meio mundo, e não só pelo poeta Ferreira Gullar, que, um dia, foi concretista, mas se libertou do que alguns avaliam como uma espécie de “camisa-de-força”. Mas, como tradutores, são menos discutidos, dada a excelência de suas versões de várias línguas. Claro, seus críticos podem debater suas escolhas, as chamadas transcriações, mas a qualidade é incontestável. Emily Dickinson ganha, na língua criada ou recriada por Augusto de Campos, um modernismo diverso de outros modernos, com uma especificidade ressaltada, ainda que se note, aqui e ali, ecos de Emerson. “Vislumbra-se em seus textos algo de Emerson (1803-1882) — o Emerson mais contido de poemas curtos, como ‘Brahma’, e do seu transcendentalismo filosófico. Mas ela é mais radical e dissonante”, ressalta Augusto de Campos.

Emily Dickinson era leitora de Shakespeare, Keats, Robert Browning (1812-1889) e Elizabeth Barreth Browning (1806-1861). Mas “sua poesia não se parece com a deles”, registra Augusto de Campos. “Emily criou um idioma poético próprio e antecipatório em termos de densidade léxica, economia de expressão e liberdade sintática. Parece mais próxima das ousadias metafóricas dos poetas ‘metafísicos’ ingleses, como Donne, que ela certamente não leu. Utiliza, muitas vezes em combinatórias novas, versos tradicionais, nos quais os seus estranhos tracejamentos gráficos introduzem recortes e pausas inusitados, dando-lhes feições singular”.

Conrad Aiken, num texto de 1924, escreve: “Seu desprezo por fórmulas aceitas ou por regularidades é incorrigível. Gramática, rima, metro — tudo o que se opunha a seu pensamento ou sua liberdade de expressão era dispensado por ela”. Augusto de Campos associa sua modernidade, sua radicalidade, à da poeta russa Marina Tzvietáieva (1892-1941) — “pela dicção elíptica e sincopada e até pelas idiossincrasias da sua pontuação”. O tradutor e crítico patropi frisa que sua “linguagem” é “densa e substantiva”, transitando “sem transições do real ao imaginário”. “Os substantivos” são “frequentemente maiusculizados para acentuar a sua dominância”.

De caráter dúplice, “puritana e livre-pensadora” (segundo Conrad Aiken), espécie de Voltaire menos radicalizada, “tudo em Emily é paradoxo”, sublinha Augusto de Campos. “Cruzam-se em sua poesia os traços de um panteísmo espiritualizado, de uma solidão-solitude, ora serena ora desesperada, e de uma visão abismal do universo e do ser humano.”

No ano passado, a Editora Unicamp lançou uma edição revista e ampliada do livro “Não Sou Ninguém — Poemas” (191 páginas), de Emily Dickinson, com tradução esmerada de Augusto de Campos. Esclareça-se aos não iniciados que Emily Dickinson publicou apenas dez poemas em vida e não lançou nenhum livro (publicar, dizia, era leiloar a consciência). Mas, como livro precisa ter título, o tradutor usou o verso de um poema para nominá-lo.

Que a poesia de Emily Dickinson é “diferente” da poesia de seu tempo, não ecoa por exemplo Walt Whitman, o poeta-símbolo dos Estados Unidos, não há a menor dúvida. Tanto que deixou estupefatos seus primeiros críticos. Um deles, Thomas Higginson, por certo avaliando que faltava maturidade, sugeriu que esperasse um pouco mais. Na prática, estava sugerindo que mudasse sua poesia, que a adaptasse ao cânone de seu tempo. Consciente de sua diferença, de que era uma voz nova (de rara “estranhitude”), optou por continuar escrevendo da mesma forma, aperfeiçoando sua própria poética, como se estivesse aguardando o julgamento do tempo (tem um poema sobre isto), mas deixou de publicá-la, para não se tornar incompreendida. “Sorrio quando sugere que eu protele a ‘publicação’. Se eu conhecesse a fama, eu não poderia fugir a ela, se não a conhecesse, ela me persegueria o dia inteiro e eu perderia a aprovação de meu cachorro” (que, por sinal, era chamado de Carlo), escreveu ao crítico. A própria época do gênio criador às vezes não é sua julgadora mais adequada. O futuro nem sempre julga melhor, com mais qualificação, mas pelo menos é uma porta mais autônoma e, quase sempre, menos passional para avaliar o passado.

Emily Dickinson viveu apenas 55 anos, entre 1830 e 1886, na cidade de Amherst, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Para além do folclore de que só se vestia de branco e quase não saía de casa, era uma poeta sofisticada, um leitora precisa e que sabia extrair néctar de onde muitos mineiram simplesmente barro. Augusto de Campos a apresenta como “uma autodidata em poesia”, o que, claro, não indica que seja meramente intuitiva e, até, simplória

Deixo apenas uma pergunta: por que Augusto de Campos não faz nenhuma referência ao trabalho de outros tradutores brasileiros ou portugueses? Suas traduções não dialogam, em nenhum momento, com este esforço, sempre coletivo, para pôr e repor a poesia de Emily Dickinson em português? Como ele nada diz a respeito, ao menos não neste livro, não se sabe o que pensa das outras traduções. Mas vale o registro de que a poesia de Emily Dickinson foi traduzida, com alta qualidade, por Manuel Bandeira, Aila de Oliveira Gomes, Idelma Ribeiro de Faria, José Lira e, mais recentemente, Adalberto Müller (que promete traduzir toda a sua poesia). Há outros tradutores gabaritados. Vale adicionar a excelência de Augusto de Campos à excelência de seus pares — que, aliás, fazem, alguns deles, referência ao seu trabalho tradutório.

Traduções de poemas de Emily Dickinson por Augusto de Campos

Paz — muita vez — fui encontrar

Quando essa Paz me era negada —

Náufrago — a Terra Vislumbrada —

Eu — no Centro do Mar.

Lutar ao léu — para provar

— Incrédulo de viagens —

Que as Praias são miragens —

E os Portos, Ar —

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A Morte é um Diálogo entre

A Alma e o Pó.

Diz a Morte “Some” — A Alma “Só

Me cabe ser Crente” —

A Morte — sob a Terra — clama —

Vai-se a Alma

Deixando o seu — prova cabal —

Manto de Lama.

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Morrer por ti era pouco.

Qualquer grego o fizera.

Viver é mais difícil —

É esta a minha oferta —

Morrer é nada, nem

Mais. Porém viver importa

Morte múltipla — sem

O Alívio de estar morta.

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Não sou ninguém! Quem é você?

Ninguém — Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!

Que pública — a Fama —

Dizer seu nome — como a Rã —

Para as palmas da Lama!

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Muita Loucura faz Sentido —

A um Olho esclarecido —

Muito Sentido — é só Loucura —

É a Maioria

Que decide, suprema —

Aceite — e você é são —

Objete — é perigoso —

E merece uma Algema —

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Beleza — não tem causa — É —

Cace-a e ela cessa —

Não a cace e ela cresce —

Tente alcançar na Messe

As Ondas — quando o Vento

Passa os dedos por ela —

Deus do alto vela

Para negar o Intento —

Uma resposta para “Augusto de Campos lança edição revista e ampliada de traduções da poesia de Emily Dickinson”

  1. Excelente, Euler. A pergunta final é também interessantíssima, e creio que um tradutor da altura e qualidade do P. Henriques Britto a endossaria. Sabe você e meus seis leitores que minha tradutora favorita é a dona Aila de Oliveira Gomes, mas aguardo o livro do xará Muller e tiro o chapéu para este Campos, que já desejo ler. Aqui do Báltico, efusivas saudações.
    Beto.

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