Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ativismo político do Supremo pode ser tentativa de arranjar candidato pra derrotar Bolsonaro

Parece que há uma crença, em parte da intelligentsia do Supremo, de que só Lula da Silva pode vencer o presidente

Gilmar Mendes e Sergio Moro: a ira do ministro parece ser maior com quem condenou corruptos do que com os corruptos | Foto: Reprodução

Não há santos em nenhum lugar do mundo — talvez só no Céu. O Supremo Tribunal Federal não é o Céu, mas também não é o Inferno nem o Purgatório. É o lugar de homens e mulheres que, mesmo respeitando as leis, às vezes interpretando-as em toda a sua elasticidade possível, são realistas e cidadãos de um país chamado Brasil — os tristes trópicos de que fala o antropólogo e etnógrafo belga Claude Lévi-Strauss.

O que se dirá a seguir é mais uma hipótese — “de trabalho”, diria um scholar — do que uma tese assentada. É provável que, ao “censurar” o ex-magistrado Sergio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol, artífices da Operação Lava Jato — que investigou, denunciou e condenou os responsáveis por um dos maiores esquemas de corrupção da história do país, que envolveu amplos setores das elites políticas e econômicas —, ministros do Supremo, como Gilmar Mendes (um dos mais qualificados e um hábil manipulador das palavras e das leis, e não se diz isto no mau sentido), estejam “também” fazendo ativismo político.

Lula da Silva e Gilmar Mendes: a busca de uma alternativa ao horror que o presidente Jair Messias Bolsonaro representa | Foto: Reprodução

Nenhuma operação de caça aos corruptos — gente muito poderosa e com advogados e operadores financeiros que são ases — apresentará resultados positivos se procuradores e magistrados atuarem como “santos das leis”. Mafiosos de alto coturno só podem ser flagrados, de maneira integral, se houver uma relativa ou uma profunda integração entre Ministério Público e Judiciário. Gilmar Mendes, que não é um puro da aldeia, e sim um realista absoluto, sabe que as coisas funcionam assim.

Entretanto, mesmo sabendo que não se deve condenar os que investigaram a corrupção, baseando-se em supostas ilegalidades — que, de tão ínfimas, não podem ser comparadas à operação mafiosa de grandes empresas associadas a políticos profissionais —, há, neste momento, uma hábil tentativa de produzir culpados que, a rigor, não são culpados de nada, exceto de trabalhar para pôr corruptos na cadeira e devolver o dinheiro roubado ao Erário.

Deltan Dallagnol e Sergio Moro: parece que parte dos ministros do Supremo Tribunal Federal escolheu a dupla como a “Geni” do momento | Foto: Reprodução

Mas “condenar” Sergio Moro e Deltan Dallagnol, conectando-os a crimes que, a rigor, não existem, talvez deva ser considerado como uma nova espécie de ativismo político do Supremo Tribunal Federal. Há ministros, como Gilmar Mendes — o mais representativo, mas há outros, como o discreto Ricardo Lewandowski —, que, embora devam ser mencionados como ativistas políticos, transferem o “problema” para outros, como o ex-juiz e o procurador federal.

Há indícios — frise-se: indícios — de que, numa jogada de ativismo políticos, determinados magistrados querem produzir um adversário que tenha possibilidade de vencer o presidente Jair Bolsonaro. Na opinião de alguns, o candidato adequado é Lula da Silva, do PT. Para “salvá-lo”, parece ser a crença, querem jogar seus supostos “algozes”, Sergio Moro e Deltan Dallagnol, na cova dos leões. A revista “Veja” sugere que Gilmar Mendes é, ao lado de Kássio Nunes Marques, um dos ministros mais próximos de Bolsonaro. Pode até ser.

O fato é que está se tornando consenso de que é preciso retirar Bolsonaro do poder — pelo voto — em 2022. O presidente, além de inoperante no combate à pandemia do novo coronavírus — já morreram mais de 275 mil pessoas e vão morrer muito mais —, não está contribuindo para a recuperação econômica do país. Portanto, ante um presidente abúlico, magistrados supremos, ativistas políticos, estão contribuindo para produzir uma alternativa — Lula da Silva. Para tanto, querem levar à fogueira aqueles que denunciaram a corrupção, os procuradores, como Deltan Dallagnol, e aquele que condenou os corruptos, Sergio Moro. A rigor, portanto, o ativismo político não é do procurador e do ex-juiz federal, e sim de seus acusadores “supremos”…

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