Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ataque bolsonarista à sede da revista “IstoÉ” lembra ação de “milicianos” de Hitler

Se respeita a democracia, o presidente Jair Bolsonaro deveria recorrer à Justiça, que poderá avaliar, com isenção, se a revista excedeu ou não

Na democracia, ponto nevrálgico da civilização, as pendências entre as partes devem ser dirimidas pela Justiça. Se se sente “agredido”, por exemplo por uma reportagem ou artigo de jornal, o indivíduo deve recorrer ao Poder Judiciário. Um magistrado, examinando a contenda, ponderando as razões de cada um, dirá quem está “certo” e quem “excedeu”. Hoje, há pessoas, sobretudo políticos, que processam jornalistas não exatamente para esclarecer os fatos denunciados, e sim, muitas vezes, para tentar intimidá-los. Mesmo assim, é um direito delas. Em tempos idos, e nem tão idos, poderosos surravam e, até, matavam jornalistas. Hoje, alguns dos que se julgam donos do poder — portanto, da vida alheia — ainda espancam e matam. Porém, ao menos no Brasil, a violência extremada diminuiu.

“IstoÉ” pôs o presidente Jair Bolsonaro na capa, com o bigodinho formado pela palavra “genocida”, sugerindo que o político brasileiro é uma espécie de Adolf Hitler dos trópicos. A comparação histórica sugere que a revista excedeu. Bolsonaro, ainda que seja um político autoritário e que sonha se tornar ditador — no estilo de Costa e Silva e Emilio Garrastazu Médici —, não é, nem de longe, o equivalente do ditador da Alemanha nos tristes trópicos. O austríaco, que, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi cabo do exército alemão, é um personagem histórico muito “maior” (e pior) do que o líder brasileiro. O nazista operou uma batalha, a Segunda Guerra Mundial (1938-1945), que matou de 60 milhões a 80 milhões de pessoas, entre civis e militares. Matou 6 milhões de judeus nos campos de extermínio, como Auschwitz-Birkenau e Treblinka, na Polônia.

Bolsonaro, tão de direita quanto Hitler, é um político autoritário, mas não chega a ser totalitário. Com sua inépcia, decorrente de ideologia e, sobretudo, de ignorância, o presidente colaborou para que muitas pessoas morressem — e ainda estão morrendo — de Covid-19. De fato, precisa ser responsabilizado pelo que aconteceu e está acorrendo. Porém, ainda assim, não é genocida no sentido do que foi o nazista da Alemanha.

O vereador Carlos Bolsonaro, filho de Bolsonaro e, dizem, seu ideólogo — o que demonstra o primarismo do presidente —, postou a famosa capa da revista nas redes sociais e disse que iria processar a “IstoÉ” e seus dirigentes. É a via legal — democrática e civilizatória.

Mas os ataques cerrados à revista, no mundo virtual, são também incitações à violência física. Supostos milicianos — e não há como não lembrar os “milicianos” de Hitler — picharam a sede da revista, na quarta-feira, 20, e colaram cartazes com a fotografia de um dos proprietários. Nos cartazes — simulando a capa da revista — está escrita a frase “sou vacilão”. O “título” é “mercador de merda”. Se a “IstoÉ” excedeu — talvez por tentar transmitir a indignação nacional com o governo de Bolsonaro —, os bolsonaristas excederam ainda mais. E, afinal, quem pagou pelos cartazes?

A Advocacia-Geral da União estaria se excedendo ao defender mais o “indivíduo” Bolsonaro do que o “governante” Bolsonaro? Pelo menos, a AGU, ao cobrar direito de resposta, que deveria ser publicado com uma capa alternativa, não apelou, ao contrário do bolsonarismo militante, à violência.

Se a AGU age respeitando o espírito das leis, dada a legalidade do direito de resposta, excede, porém, ao querer “editar” a revista, impondo, inclusive, uma capa. Bolsonaro seria apresentando, nesta capa, como Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt ou Juscelino Kubitschek? Certo, Bolsonaro, embora autoritário, não é ditador. Mas também não merece um lugar na galeria dos grandes democratas.

AGU poderia ter sugerido uma resposta, quiçá uma longa entrevista com Bolsonaro, deixando a decisão sobre a capa aos editores da “IstoÉ”. Se discordar da ideia, deveria recorrer à Justiça, que avaliaria, com isenção — por não ser parte envolvida no quiproquó —, com quem está a razão.

Numa nota, a “IstoÉ” disse que o ato do bolsonarismo representa “uma tentativa de ameaça à democracia, à liberdade de expressão e à imprensa livre, democrática e independente”. A direção da Editora Três pediu a polícia que identifique os responsáveis pelo ataque à sua sede, pois pretende acioná-los judicialmente.

Nota da Associação Nacional dos Jornais, da Abert e da Aner

“A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) repudiam o atentado sofrido pela Editora Três, responsável pela publicação das revistas ‘IstoÉ’ e ‘IstoÉ Dinheiro’, na noite desta quarta-feira (20).

“Os atos criminosos com pichações e colagem de cartazes no prédio da Lapa, em São Paulo (SP), que não foram assumidos publicamente por nenhum autor, representam ações antidemocráticas, que não podem ser toleradas em um país em que a Constituição preza pelos direitos à liberdade de imprensa e de expressão.

“As entidades condenam os atos de desonra aos editores e diretores da publicação, que vieram a partir de manifestações extremistas. É essencial que as autoridades tomem as medidas necessárias para identificar e denunciar os autores dos ataques, de forma que a integridade dos jornalistas da Editora Três possa ser mantida.

“Acreditamos que um país livre e civilizado se faz por meio do pensamento crítico, de uma imprensa respeitada, de instituições firmes e do respeito às leis.”

Brasília, 21 de outubro de 2021.

Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e Associação Nacional de Jornais (ANJ)

Uma resposta para “Ataque bolsonarista à sede da revista “IstoÉ” lembra ação de “milicianos” de Hitler”

  1. Avatar Yuri Vieira disse:

    Li “ataque bolsonarista à IstoÉ” e logo imaginei que a redação da revista havia sido empastelada. Não, houve pichação e cartazes… (Algum jornal brasileiro noticiou o empastelamento, em Hong Kong, da redação do Epoch Times? Claro que não.) A imprensa inteira perdeu o senso das proporções. Claro, depois que chamaram os protestos no Capitólio de “insurreição” – alguém, dotado de um juízo sadio, realmente acredita que a parcela mais armada do povo americano realmente praticaria uma insurreição sem o uso conspícuo de armas? – enfim, depois da famigerada “insurreição”, qualquer besteira, qualquer veleidade a apoiar um político de direita é elevada ao cubo pela imprensa. Ridículo. Só lê jornais diariamente quem sente falta de adrenalina.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.