Euler de França Belém
Euler de França Belém

Assassinato de jornalista deve gerar debate sobre imprudência e maldade e não sobre sua sexualidade

A sexualidade do jornalista Mateus Júnior não está em debate, mas sim a brutalidade de determinados seres humanos e a imprudência dos que, mesmo maduros, acreditam que nada vai lhes acontecer

Mateus Júnior tinha 47 anos, sofria de asma e morreu asfixiado por ter sido amordaçado por um grupo de jovens que, supostamente, havia convidado para uma festa

Mateus Júnior tinha 47 anos, sofria de asma e morreu asfixiado por ter sido amordaçado por um grupo de jovens que, supostamente, havia convidado para uma festa

Fala-se nos bastidores mas não se comenta que determinados crimes “têm” a ver com sexualidade, sobretudo quando têm, se têm, a ver com homossexualidade. Os jornais, digamos, “pisam em ovos” ou, quando não o fazem, descambam para o sensacionalismo moralista (para a espetacularização da sexualidade alheia como monstruosa ou deslize). Por vários motivos. Apontemos dois.

Primeiro, porque sexo, apesar dos avanços comportamentais, ainda é visto como tabu; portanto, tabu é (os risinhos e uma mão escondendo a boca quando se fala a respeito persistem). É aceito como uma coisa prazerosa e, ao mesmo tempo, “suja” — o que não é, se o sexo é consentido entre adultos conscientes.

Segundo, quando homossexuais são assassinados, em suas casas ou fora delas, tende-se a não exceder nas reportagens, especialmente para não reforçar preconceitos. Porque, de maneira direta ou indireta, há uma tentativa de quase criminalizar os homossexuais, acusando-os de “promíscuos” e, assim, de quase culpados pelos crimes. Cabe uma pergunta até grosseira mas pertinente: alguém, por ter vários parceiros sexuais, merece morrer? Na verdade, como se sabe (há quem finja que não sabe), há “promíscuos” entre heterossexuais e homossexuais. No fundo, não são muito diferentes, exceto nas escolhas sexuais.

Se o sexo é incontornável, e se a sexualidade está em mutação — com relações menos monogâmicas, mais poligâmicas e mais heterodoxas (o Tinder, o Grindr e outros aplicativos são mais usados do que comentados à larga) —, o que resta fazer? Médicos alertam que, no caso de parceiros desconhecidos ou com histórico de “promiscuidade” e falta de cuidados, não há como não usar camisinha. É um dos cuidados básicas com a vida, com sua preservação.

Há outro cuidado com a vida, que muitos não levam em conta, e delegados, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais poderiam contribuir para alertar, se não fosse, em se tratando de sexo, invasão de privacidade. Trata-se dos encontros sexuais com desconhecidos. Às vezes, e talvez até por certa inocência — é possível encontrar inocência e excesso de confiança em pessoas jovens e mais velhas —, as pessoas, heterossexuais e homossexuais, levam indivíduos desconhecidos para suas casas. Há os que têm o hábito de levá-los em locais neutros (motéis, por exemplo), mais protegidos, porém, depois de algum tempo, as defesas costumam ceder e as preferências recaem no conforto do lar, onde, em regra, os atos violentos são frequentes e, não raro, fatais. A busca do prazer acaba resultando, algumas vezes, em perda da vida ou em sequelas físicas. Sem contabilizar possíveis danos ao patrimônio.

Qual alerta que se pode fazer? O debate, se é preciso de um, deve ser sobre imprudência e prudência — e sobre a capacidade que o homem tem de fazer o mal —, mas não sobre comportamento sexual, sobre normatização sexual, sobre “sexo certo” (heterossexual) e “sexo errado” (homossexual). Heterossexuais ou homossexuais, os indivíduos devem se cercar de certos cuidados, como forma de se proteger de possíveis abusos. Quanto ao que fazem na cama — desde que não se envolvam com menores e o sexo seja consensual —, com ou sem fantasias sexuais, não é assunto público, e sim de foro privado.

Morte em Palmas

O debate acima parece sem propósito, dirá o leitor. Afinal, por que se está falando de sexo, e numa coluna chamada Imprensa? Parece absurdo, não é? Talvez não seja — afinal, sexo é vida, é belo e é prazeroso. Num de seus poemas, “Somos transmissores”, o bardo inglês D. H. Lawrence disse: “Somos, ao viver, transmissores de vida./Quando deixamos de transmitir vida, ela a vida também deixa/de fluir em nós.//Parte do mistério do sexo, isto é um fluxo à frente./Gente assexuada não transmite nada”.

O que se comenta acima tem a ver com o assassinato brutal do jornalista Mateus da Silva Júnior, de Palmas, capital do Tocantins. Não o conhecia, mas, vendo sua fotografia, percebe-se que, aos 47 anos, parecia um garoto (o rosto é expressão e porta de entrada do corpo ou, por assim dizer, da alma). Era uma pessoa simpática, que se dava bem com as pessoas, diz nosso correspondente no Estado, Juninho Bill, que ficou comovido com sua morte.

Por que morreu Mateus Júnior? Devido à sua sexualidade ou à sua imprudência e à maldade humana? O jornalista levou quatro pessoas para sua casa, que era bem cuidada, revelando, mais do que dinheiro — como sugeriram os quatro assassinos, ou um deles —, bom gosto. Conhecia um dos criminosos, Bráulio Breendon Gonçalves Alencar, de 24 anos. Ao lado de Bráulio, estavam Thiago Cruz Alencar, de 24 anos, Jackelyne Cléia Araújo Dutra, de 19 anos, e Diego Rodrigues dos Santos, de 20 anos. Publico a idade para que se perceba que todos são adultos. Ninguém seduziu, ninguém foi seduzido (só o repórter foi enganado). A versão que se conhece é a apresentada pelos quatro: eles iriam participar de uma festa na casa do repórter.

O que é uma festa entre jovens e não só entre jovens? Bebe-se. Dança-se. Conversa-se. E, às vezes, se faz sexo — hetero ou homo. Jovens são dionisíacos e, aspirar que sejam o contrário, é dar-se o direito de deixar de entendê-los. Jovens raramente são enfadonhos. Seguem as regras básicas da sociedade, mas amam criar suas próprias regras, como uma certa falta de limite, um prazer redobrado com excessos e aventuras. Jovens são criadores de vida, de novidades. O que Mateus Júnior queria era se divertir, ter uma noite de prazer. O que os demais queriam era roubá-lo. Talvez nem quisessem matá-lo.

A polícia constatou que Mateus Júnior sofria de asma e, como foi amordaçado, morreu asfixiado. Antes, ao perceberem que estava passando mal, deram-lhe um medicamento. Mesmo assim, o mantiveram amordaçado. Os criminosos levaram comida, roupas, televisão e o automóvel do jornalista. Mais do que os bens, que são menos importantes, “levaram” sua vida. Relato do delegado Vinícius Mendes de Oliveira, de Palmas, como se fosse um narrador de Fiódor Dostoiévski: “Ele [o jornalista] era asmático e foi asfixiado. Eles colocaram uma mordaça na boca da vítima. Ele teve uma crise, mas os suspeitos atenderam lhe dando um medicamento. Em um determinado momento, o jogaram amordaçado dentro do bagageiro de um carro, por meio do qual o levaram até o local onde o corpo foi desovado. A vítima já estava morta quando chegou ao lugar”.

Por certo, ao serem indiciados, denunciados e, em seguida, condenados — dificilmente serão absolvidos —, os quatro criminosos terão penas diferenciadas. Quase nunca são culpados na mesma proporção — há sempre alguém que comanda, alguém que obedece e alguém que aprova mas se omite (participando por omissão). Advogados hábeis em explorar as filigranas das leis vão tentar “desclassificar” o crime de “doloso” — quando há intenção de matar — para “culposo”, quando não há intenção. Ora, se Mateus Júnior estava passando mal, se chegaram a dar-lhe medicamento, por que os criminosos não retiraram a mordaça? Porque não estavam preocupados com sua vida. Estavam mais preocupados com a própria segurança — tinham receio de o jornalista “gritar” e chamar atenção pública — e em roubar seus bens. Trata-se de um caso evidente de latrocínio e, sobretudo, da velha e sempre atual maldade (crueldade) humana tão bem anotada pelo Dostoiévski de “Crime e Castigo” e os “Os Irmãos Karamázov”.

Retomando o debate inicial: não está em discussão a sexualidade de Mateus Júnior, que era um homem de bem, e sim a brutalidade de alguns indivíduos. Mas também, acrescente-se, a imprudência dos que não sabem avaliar com a devida clareza a maldade de que o ser humano é capaz. (Mateus Júnior morreu no sábado, 3, mas o corpo só foi encontrado na quarta-feira, 7.)

 

Somos transmissores

D. H. Lawrence

Somos, ao viver, transmissores de vida.
Quando deixamos de transmitir vida, ela a vida também deixa
de fluir em nós.

Parte do mistério do sexo, isto é um fluxo à frente.
Gente assexuada não transmite nada.

Mas se chegamos, trabalhando, a transmitir vida ao trabalho,
a vida, ainda mais vida, se lança em nós compensando, se mostrando
disposta a tudo
e pelos dias que vêm nos encrespamos de vida.

Mesmo que seja uma mulher fazendo um simples pudim, ou um homem
fazendo um tamborete,
se a vida entrar nesse pudim ele é bom
bom é o tamborete,
contente fica a mulher, com a vida nova que a encrespa,
contente fica esse homem.

Dê que também lhe será dado
é ainda a verdade da vida.
Mas não é assim tão fácil. Dar vida
não quer dizer passá-la adiante a algum bobo indigno, nem deixar que os
mortos-vivos te suguem.
Quer dizer acender a qualidade da vida onde ela não se encontrava,
mesmo que seja apenas na brancura de um lenço lavado.

[Extraído do livro “Poemas”, de D. H. Lawrence. Tradução de Leonardo Fróes.]

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