Aquele prato que se serve com fasces: a personalidade autoritária nossa de cada dia

A personalidade autoritária é a consequência de uma sociedade que se deixa levar por discursos marcadamente fascistas em sua força de atualização

Diego A. Moraes Carvalho

Especial para o Jornal Opção

“A cadela do fascismo está sempre no cio.” Com todo respeito aos caninos, essa citação, frequentemente atribuída ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), reclama urgência de percepção para o que adverte. Embora o conceito tenha se tornado — aos termos do antropólogo Lévi-Strauss — um “signo flutuante”, a embalar com força de adjetivação pejorativa todos aqueles que não vibram no diapasão progressista, é preciso estar atento a sua (re)atualização histórica.

Embora haja divergências em se situar a natureza temporal do fascismo, um traço consensual entre historiadores e (demais) cientistas sociais é quanto a sua matriz comportamental e sua encarnação no século 20 como uma experiência política localizada na direita italiana de Benito Mussolini (1893-1945). Há pelo menos duas fortes características que contribuíram para podermos localizar sua ontologia e manifestação para além de seu tempo e espectro: o nacionalismo militante e a acepção autoritária que marca suas formas de governo, seja em ditaduras, totalitarismos ou governos, em que pese, eleitos democraticamente.

Benito Mussolini e o fascismo na Itália | Foto: Reprodução

Sendo assim, o fascismo se tornou — enquanto marcador político — um significante capaz de abarcar as múltiplas modalidades contemporâneas de gestão social. Por essa razão, sua localização privilegiada na direita de outrora (pôde) migra(r) para outros espectros da volátil classificação. Em palavras diretas, a esquerda — seja ela de qual matriz ou destino — pôde, também, se encharcar do lodo do fascismo. O chamado “ódio do bem”, geralmente travestido na forma obscura de se distinguir “violência” de “resistência”, dá a tônica, em geral, dessa possibilidade. Sim, a esquerda não está a salvo de suas idiossincrasias, contradições e paradoxos. Nem sempre o escudo da “resistência” foi/é o suficiente para blindar os seus discursos de violência (revolucionária?) que emergem com a força da anulação de qualquer diferença.

Se relembrarmos o que descreve o historiador italiano Emilio Gentile, em sua obra “Fascismo: Storia e Interpretazione” (2002), um dos elementos constitutivos dessa modalidade é justamente a adesão de um movimento de massa multiclasse que baseia seu pertencimento num sentido identificatório a um líder ou projeto que investe sua ação a serviço de uma regeneração social. Qualquer diferença ou dissensão é posta no lado inimigo da guerra que forjam. O objetivo é conquistar um monopólio do poder político por meio da instrumentalização da política parlamentar e do acordo operado com grupos maiores (e sequestro dos menores) para criar um novo regime que solapa as instituições vigentes.

Marcha do Integralismo no Brasil | Foto: Reprodução

Bem, se com esse fragmento você identificou nosso cenário atual, sua lição de casa foi feita. Mas, se foi capaz de olhar rapidamente para os últimos 20 anos de parasitismo populista encampado na maior parte do tempo pela centro-esquerda no poder, verá que esse traço do fascismo não pertence apenas ao que emergiu recentemente junto aos asseclas do chamado “gabinete do ódio”. O dispositivo fascista é de uso comum à maioria dos projetos de poder contemporâneo. Não importando se as únicas letras do alfabeto sejam A e I e o número seja o 5. Ou então se você acredita que, no tribunal da militância, o inocente ou a exceção devam pagar por “crimes estruturais” dado a seus marcadores de gênero, classe e raça para servirem de exemplos indiretos.

Modalidade fascista no Brasil

Contudo, nos concentremos, nesse momento, na modalidade fascista que emergiu em nossa política atual. E já faço a advertência: qualquer tentativa de classificar as ações de diversos governos mundo afora para além do significante do fascismo é tentar encobrir uma característica canina que não se despista por um aparente miado. Aqui, me refiro a governos de recente ascensão marcados por uma identidade populista de direita, emulando seu primo distante [no tempo] da Europa mediterrânea. E isso só é plausível se iniciarmos falando justamente da sua acepção constitutiva de fácil identificação: o autoritarismo — o fio nada sutil que interliga na trama da ideologia os diversos governos em suas muitas fa(s)ces.

A palavra fascismo tem sua origem no latim fasces (feixe de varas amarradas em volta de um machado): um símbolo do poder dos magistrados da República romana que poderiam flagelar ou dispor da vida dos cidadãos desobedientes por meio da decapitação. A seu turno, a palavra autoritarismo também deriva o seu radical da mesma matriz linguística: auctoritas — conceito originário do direito romano, que trata da legitimação socialmente reconhecida que advém de um saber e que se outorga a um cidadão. Em sua encarnação política contemporânea, a sua dimensão agrega o significante do excesso, da arbitrariedade e do personalismo para, a partir do poder constituído, levar ao subjugo todos aqueles que não se submetem ao domínio. Daí que não é possível separar o fascismo do autoritarismo, seja ele de direita ou esquerda, seja ele instituído a partir do solapo das instituições por meio de um golpe de Estado ou por vias democráticas. A propósito, vale lembrar que o NSDAP (sigla alemã para o Partido Nazista) chega ao Parlamento alemão eleito democraticamente em 1933, alçado pela massa de trabalhadores.

Mas tentar associar nosso presente (e alguns de seus governantes) a uma caricatura fascista aos moldes de Mussolini, Hitler, Stálin, Mao Tsé-tung e congêneres seria leviano. Corremos o risco de cairmos no “Argumentum Ad Hitler”. Recurso retórico muito utilizado pela esquerda quando tenta reduzir e sintetizar experiências políticas distante no tempo para qualificar negativamente seus opositores. Afinal, ninguém gosta de ser comparado ao Führer alemão. E essa é razão da disputa de narrativa que faz até a própria direita negar sua versão extremada, jogando-a na conta do outro lado da ferradura.

Enfim, não temos um fascismo de outrora. Mas temos modalidades que se retroalimentaram, tornando-se algo metabolizado por força do tempo — e que só permite assim ser classificado por ainda guardar semelhanças operacionais com o passado. Enquadrar todas as experiências políticas do século 20 de caráter autoritário como homologias de um mesmo tipo de fascismo soaria como falta de rigor. Deixemos isso para militantes e massas (de Twitter, sobretudo).

Voltemos novamente, então, para a questão do autoritarismo — por ser esse o conceito que está presente nas variadas formas de fascismo contemporâneo. E, objetivamente, pensando como essa categoria importante ganha o seu colorido com os matizes verde-amarelo (as vezes, vermelha, também). O termo surge como caracterização de modelos de gestão política pós-império napoleônico, embora utilizado em profusão a partir do século 20 por cientistas políticos. Há, pelo menos quatro elementos que sintetizam o autoritarismo: 1) uma limitação à pluralidade política, limitado o político que restringe a participação de grupos, movimentos sociais, candidaturas ou instituições que não são de seu interesse. A concentração de poder não cede a mecanismo de consenso, por exemplo. Há um esvaziamento da autonomia política; 2) uma legitimidade forjada em afetos ressentidos que enxergam no regime um reserva moral necessária a fim de combater um inimigo construído; 3) mobilização política intensiva ou extensiva de massas por meio de táticas repressivas e ataques a iniciativas anti-regime; 4) um poder executivo “formalmente mal definido”, ausente e instável que legisla por meio de medidas provisórias ou reformulação constitucional que o confere plenos poderes quando erigido um golpe de Estado.

A personalidade autoritária 

Mas é seguramente por aquilo que chamamos de “personalidade autoritária” que a compreensão dessa entranha do fascismo se mostra mais claramente. E isso diz respeito não somente ao líder alçado, mas aos seus acólitos que o elegem e sustentam sua relação de domínio e manejo de afetos. A personalidade autoritária se caracteriza por um tipo de psiquismo que compreende as relações hierárquicas como absolutos marcadores sociais para exercício de poder (inclusive arbitrário) sobre todos aqueles postos “abaixo de si”. Há um não-reconhecimento da esfera isonômica entre os diferentes. A busca por uma homogeneidade torna-se um ativo político fundamental. Em outras palavras, aquele que foi alçado ao poder é identificado como o representante de uma ética civil que se funda na total dedicação à comunidade nacional, sendo exemplo pessoal de disciplina e virilidade (um “[a]braço hetero” para todos). Cabe obediência e espelhamento de seus partidários que projetam sobre ele um modelo capaz de recuperar o poder e grandeza nacional de outrora (“make midwest great again”). Qualquer um que esteja abaixo ou dissonante deve ser fasceado com o rigor da lei ou da força — daí o uso do aparato militar (ou miliciano, familiar e/ou digital) para reprimir toda e qualquer “insurreição” contra ele.

Embora a personalidade autoritária seja algo que pode se constituir sem que seja a resultante ou mobilizadora de um fenômeno de massas, é nelas que o indivíduo entregue a suas identificações encontra sua morada e acolhida. Sigmund Freud, em sua brilhante obra “A Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1921), chama a atenção para a forma como se dá o enlaçamento de um grupo a um líder, em geral, ele mesmo autoritário, capaz de guiá-las. Está impregnado no odor de uma massa os signos da intolerância, violência e demais atos extremados como instâncias e recursos que são manipulados por um líder ou sua burocracia eficiente. A violência sempre se mostra como resposta imediata a tudo que é contrário à maioria (“as minorias devem se curvar…” [sic.]). O extremismo aparece como um significante que elimina qualquer possibilidade de meio termo, sobretudo quando há uma exaltação comportamental. É fato que o sentimento das massas não são coisas simples, lineares, conquanto manejáveis. Por essa razão, tem-se a instrumentalização do registro da linguagem. Quando um líder é reconhecido e obedecido pela massa, ele não precisa construir logicamente seus argumentos. Sua pobreza de expressões é compensada pela criação e circulação de imagens fortes e chocantes marcadas pela repetição de falas e clichês que costumam encharcar (tal qual um goldenshower) seus devotos.

No decorrer da obra fica bastante evidente a forma como o fenômeno de massas atiça uma estupidez humana e uma banalidade da avaliação de suas ações, justamente por ela ser a catalizadora de impulsos irracionais. Nelas, o homem regride a um certo ponto em que se entrega a uma agressividade quase primitiva, se portando de maneira ilógica e violenta a tudo que o contraria. Uma espécie de anulação egóica, no qual o indivíduo vai “perdendo” a sua própria vontade, se deixando levar pela influência de terceiros. O centro de sua identidade é deslocado: resta a obediência cega.

A personalidade autoritária, portanto, é a consequência de uma sociedade que se deixa levar por discursos encarnadamente fascistas em sua força de atualização. E quando há muita falta, qualquer conteúdo é capaz de preencher uma lacuna profunda. Ele não precisa ser alguém forte, pujante ou intelectualmente preparado. Basta que mobilize afetos, sobretudo, ressentidos e se coloque numa condição de guia para aqueles que padecem de autonomia. Num país como o nosso, em que faltam personalidades que se identifiquem verdadeiramente como estadistas ou mesmo intelectuais robustos e preparados, qualquer um pode assumir o posto de presidente (ou de seu Rasputin direto, pronto a indicar o próximo ministro). E pensando melhor, ainda bem que não haja, pois quando temos pessoas inábeis, cada passo dado é um a possibilidade de tropeço nos seus próprios cadarços amarrados em suas mediocridades.

Diego A. Moraes Carvalho é doutor em História Social e mestre em Ética e Filosofia Política, professor efetivo do IFG e colaborador da Faculdade de História da UFG. É membro do Latesfip Cerrado (Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise do Centro Oeste — UNB) e coordenador do GEA-TCP (Grupo de Estudos Avançados em Teoria e Clínica Psicanalítica). É colaborador do Jornal Opção.

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