Elder Dias
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Após Marília e Iris, Goiás perdeu a “professora” de política Cristiana Lôbo

Exemplo de dedicação ao trabalho, a goianiense teve sua morte sentida como poucas vezes se viu ao vivo por parte de colegas de ofício

Cristiana Lôbo: uma jornalista competente que era também uma repórter nata | Foto: Reprodução

Não foi fácil para os goianos viver os últimos dias. Depois de perder uma de suas maiores referências na música e certamente uma das mais promissoras, a jovem Marília Mendonça, aos 26 anos, veio outro baque, embora este infelizmente já esperado: a morte de Iris Rezende, certamente o político mais carismático da história do Estado. Ele sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico em agosto e esteve internado por mais de três meses, até expirar na terça-feira, 9. Ambos eram nascidos em Cristianópolis, a 90 quilômetros de Goiânia.

Dois dias depois da partida do ícone político, foi a vez de perder uma referência local da imprensa nacional. Cristiana Lôbo, de 64 anos, era acima de tudo verdadeiramente querida por seus colegas e isso, em um meio tão cheio de vaidades como a intersecção entre política e jornalismo, é realmente algo de se admirar.

Várias personalidades choraram ao vivo ao falar da goiana que sabia tudo de Brasília: foi o caso da veterana jornalista Leilane Neubarth, contemporânea de Cris Lôbo; a comentarista política Natuza Nery, da geração seguinte, aprendiz direta da turma de Leilane, Cris, Tereza Cruvinel e outras; o repórter e apresentador Marcelo Cosme, que a tratava como uma mãe na profissão; e Jô Soares, que no início da década passada criou o quadro Meninas do Jô, para falar de política nacional semanalmente em seu Programa do Jô, na TV Globo.

Formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), depois de trabalhar na extinta Folha de Goyaz, Cristiana foi para Brasília, onde, em meados da década de 80, já tinha o Congresso mapeado e as melhores notas dos bastidores – filigranas curiosas que ela levaria como marca até o fim da carreira. Depois de assinar a coluna Panorama Político, no jornal O Globo, ganhou a telinha da Globonews a partir de 1997.

O exemplo de dedicação da goiana ao trabalho está em uma das passagens do Memorial O Globo. “No dia em que foi editado o Plano Cruzado [em 1987, no governo do presidente José Sarney] de reforma da economia, eu tinha voltado da minha licença-maternidade. Saí de casa às 7h, voltei às 23h. Cheguei a ter febre. E nesse dia o bebê não mamou.”

Cristiana Lôbo sofria de mieloma, um raro câncer sanguíneo, que geralmente afeta pessoas acima de 50 anos. Estava afastada há algum tempo da televisão e do trabalho em geral, para tratamento. No fim de semana passado, foi internada com uma pneumonia e não resistiu.

Não é questão de comparar o “peso” das mortes: o luto por Marília Mendonça foi nacional, o de Iris foi regional, concentrado por conta do que ele construiu de forma singular como político do Estado; já por Cris Lôbo choraram os que realmente a conheceram, como colegas ou fontes, sempre tratados de forma gentil e cuidadosa. Discreta com sua vida particular, sempre protegeu a família da exposição. No trabalho, foi uma professora das melhores para os “alunos” que souberam aproveitar seu convívio.

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