Euler de França Belém
Euler de França Belém

Aparece o carcereiro da Casa da Morte de Petrópolis. Ele estuprou Inês Etienne Romeu

Pelo menos 20 presos da esquerda foram assassinados e esquartejados no pequeno campo de extermínio do Rio de Janeiro

[O soldado paraquedista Antônio Waneir Pinheiro Lima, o Camarão, em dois tempos: jovem e velho. Reproduções]

A Casa da Morte de Petrópolis é a micro Auschwitz da ditadura civil-militar do Brasil. Lá pelo menos vinte integrantes da esquerda foram assassinados e esquartejados por militares. Poucos do que atuavam na residência foram identificados. Sabe-se que os coronéis Paulo Malhães (codinome Pablo) — pouco antes de ser assassinado, admitiu ter sido o organizador-operador do centro de tortura e morte — e Freddie Perdigão (dr. Nagib) atuaram na Casa da Morte. Operadores “menores”, como “Pardal”, “Camarão”, “Raul”, Marcelo e “Alan”, não tiveram seus nomes divulgados. Porém um deles, Camarão, tem finalmente seu nome revelado em reportagens dos jornais “O Dia” (autor do furo de reportagem) e “O Globo”. Trata-se do soldado paraquedista Antonio Waneir Pinheiro Lima. Ele era o carcereiro-vigia do pequeno campo de extermínio, em 1971. Estuprou duas vezes a presa política Inês Etienne Romeu — dos que passaram pela casa, é a única que sobreviveu —, que, observando sua fotografia, o reconheceu. Camarão foi localizado pela Polícia Federal, escondido, na cidade de Tauá, no Ceará. Prestou depoimento e foi liberado. Ele tem 71 anos e mora em Araruama, na região dos Lagos.

[Carlos Alberto Soares de Freitas, o Breno ou Beto, foi assassinado na Casa da Morte, em 1971.Ele era comandante da VAR-Palmares e da VPR e amigo da guerrilheira Dilma Rousseff. Reprodução]

A Casa da Morte era reservada, conta Chico Otávio, de “O Globo”, para “presos políticos especiais (geralmente comandantes ou chefes de grupos de fogo de organizações da esquerda armada). Camarão contou a Inês Etienne que Carlos Alberto Soares de Freitas, o Breno — comandante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var-Palmares) e da VPR e aliado da presidente Dilma Rousseff —, foi assassinado em Petrópolis. Breno (ou Beto) foi o primeiro prisioneiro da casa de Petrópolis, segundo relato de Camarão a Inês Etienne.

Camarão pode ajudar a esclarecer várias mortes, acredita-se, porque, como vigia da casa, teve contatos com várias pessoas. Os agentes apareciam, faziam seu “serviço”, e desapareciam. O carcereiro permanecia no local. O paraquedista reformado pode inclusive fornecer, parcial ou integralmente, os nomes dos militares que torturavam e matavam na casa.

Antes de trabalhar com Paulo Malhães na Casa da Morte, Camarão foi segurança do presidente João Goulart. Juliana Dal Piva, de “O Dia”, revela que Paulo Malhães e Camarão participaram da Operação Juriti ou Medianeira, por meio da qual militares prenderam e mataram o ex-sargento Onofre Pinto, líder da VPR, em 1974, no Paraná. Mais cinco militantes da esquerda — Joel José de Carvalho, Daniel de Carvalho, José Lavéchia, Víctor Carlos Ramos e Ernesto Ruggia — foram assassinados. Eles foram denunciados pelo ex-sargento Alberi Vieira dos Santos. Otávio Camargo, militar do Centro de Informações do Exército, participou da operação. Relato de Aluízio Palmar, no livro “Onde Foi Que Vocês Enterraram Nossos Mortos” (Travessa dos Editores, 366 páginas, de 2005): “A Operação Juriti estava em marcha comandada pelo ‘doutor César’ (coronel José Brandt Teixeira) e pelo ‘doutor Pablo’ (coronel Paulo Malhães). Ela havia começado no Chile, teve sua continuidade na Argentina e agora chegava à sua fase final. Durante a viagem pela Argentina, desde que saíram de Buenos Aires, os exilados foram monitorados por agentes do CIE. Marival Chaves foi um deles. Toda a operação foi controlada a distância pelos coronéis Brandt e Malhães. (…) Para cumprir a ordem de extermínio, um grupo comandado pelo cão de guerra major Sebastião Rodrigues Curió, que usava o pseudônimo de doutor Marco Antonio Luchini, iria esperar no Caminho do Colono, seis quilômetros mato adentro do Parque Nacional do Iguaçu”.

O livro “Memórias de uma Guerra Suja” (Topbooks, 291 páginas, de 2012), depoimento do delegado de polícia Cláudio Guerra aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, apresenta informações sobre a história da Casa da Morte. O policial diz que levou vários corpos para incinerar na usina Cambahyba, em Campos dos Goyatacazes, de propriedade de Heli Ribeiro Gomes. “Eu me lembro bem de dois senhores que peguei na Casa da Morte e levei para incineração na usina. Disseram-me se tratar de líderes do Partidão. Um deles [João Massena Melo] me marcou muito, porque lhe haviam arrancado a mão direita. Ela estava dentro do saco, perto do corpo, resultado de tortura impiedosa. O outro homem parecia ter sido mais torturado. Era David Capistrano. A Casa da Morte era para onde iam as pessoas mais importantes. Eu não ia lá sem o consentimento do [Freddie] Perdigão, que sempre me avisava da missão”. Os corpos de Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, Eduardo Coleia Filho, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filhos foram incinerados na usina.

Na Casa da Morte, havia um personagem sinistro, o “doutor Magno”. “Ele não só matava e serrava os mortos como punha um ácido para acabar com os corpos”, diz Cláudio Vieira. Reportagem da revista “Época” diz que Magno é o cabo Félix Freire, do CIE. Mas o militar contesta as acusações.

Cláudio Vieira levou também para incinerar os corpos de Ana Rosa Kucinski Silva — irmã do jornalista e escritor Bernardo Kucinski — e seu marido, Wilson Silva, militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), mortos pela equipe do delegado Sérgio Fleury. “Eu e o sargento Levy, do DOI, fomos levar seus corpos [para incinerar numa usina]. Os dois estavam completamente nus. A mulher apresentava muitas marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente. O jovem não tinhas as unhas da mão direita. Tudo levava a crer que tinham sido torturados. Não havia perfuração de bala neles”, conta Cláudio Guerra (página 55).

 

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