Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ao revelar que fez análise, o papa Francisco está dizendo que é gente como a gente

Líder máximo da Igreja Católica quer atualizá-la, tornando-a contemporânea de todos. Ao admitir que consultou uma psicanalista, revela que é frágil como tantos outros

Papa Francisco: a Igreja Católica, instituição milenar, não evolui aos saltos, mas seu líder máximo quer uma mudança menos lenta | Foto: Mazur/catholicnews.org.uk

Por que alguém faz análise? Por que o indivíduo procura um psicanalista para contar o que, por vezes, nunca contou a ninguém, exceto, quem sabe, de maneira elíptica? A pessoa certamente está em busca do conhecimento de si. Ao falar, de maneira enviesada ou não, cavoucando a memória, desde a complexa infância, é possível que a pessoa comece a organizar os fragmentos de sua vida. Não para se entender totalmente, ou dotar sua vida de uma ordem precisa e linear, porque isto talvez seja impossível. O objetivo é, por certo, compreender o mínimo de si, porque se é de um jeito e não de outro. A vida, compreendida, talvez fique mais leve. Talvez. Porque a auto-compreensão, especialmente de que somos responsáveis por nossos atos, apesar da pressão social, nem sempre é prazerosa. A descoberta do que somos nem sempre é agradável, daí que manter uma máscara, ou outra persona, eventualmente pode ser menos doloroso.

Há pessoas que temem fazer análise. Cada uma tem suas razões. O medo não é do psicanalista, e nem mesmo de que, mesmo com nomes mudados, o especialista escreva sua história mais tarde. O medo, o grande medo, é de si mesmo, do que a análise pode revelar ou desvelar. A análise pode “exibir” o monstro que habita o ser de um homem? Quem sabe. O mais provável é que o monstro, sabendo por que se tornou monstro e vendo-se em perspectiva, fique menos monstro. De novo, faz-se a opção pelo condicional — “provável”.

Papa Francisco beija um pé de detento, em Roma: sinal de humildade

Ao fazer análise, o indivíduo está à procura de si próprio — quiçá de uma unidade perdida, a ser recuperada com a palavra “ressuscitando” a memória —, mas, ao buscar a compreensão de seu ser, é possível que se abra (um pouco) mais para a compreensão do outro.

Bergoglio e o indivíduo

O papa Francisco, o líder da Igreja Católica mais surpreendente dos últimos anos, é um indivíduo de uma grandeza que aos poucos o mundo vai entendendo. Um papa é um ser quase santo, senão santo, sem o quase. É assim que é visto, inclusive para os que não creem, como eu. É um homem admirável. Tanto porque “atualiza” a Igreja Católica, tornando-a contemporânea de seus fiéis — e não só dos fiéis, dado o caráter cada vez mais ecumênico de sua pregação —, quanto pela revelação do que é como indivíduo. O papa não é uma rocha, é um homem com fragilidades, como quaisquer outros indivíduos, e não tem receio de admiti-las. É um religioso, um grande religioso, e é um homem marcante e um “político” (na verdade, um estadista dos mais relevantes) tão notável quanto João Paulo 2º (com sua palavra desarmada contribuiu para a derrubada dos muros do comunismo no Leste Europeu, para citar um exemplo de sua atuação para além da mera “educação” religiosa).

Há líderes que só percebem a floresta, desconsiderando que a compreensão do todo passa pela árvore, pelo indivíduo. O argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, um garoto de 80 anos — pela jovialidade de suas ideias e ações —, não é populista, mas “sente” as dores dos indivíduos, mais do que do povo. Ao entender o que pensa o indivíduo, as agruras que estão além do social (a mudança social por si não resolve problemas individuais), o papa revelou, recentemente, que fez análise.

Jorge Mario Bergoglio fez análise semanalmente, na década de 1970, durante seis meses. A informação consta de um livro de entrevistas do religioso ao sociólogo francês Dominique Wolton e mereceu comentário no “Le Figaro”, jornal da França. Sua analista era mulher e judia. “Por seis meses fui a ela uma vez por semana para jogar luz em algumas coisas. Ela era muito boa, muito profissional… mas sempre se manteve em seu lugar”, afirma o papa. Na análise, a estrela não é o psicanalista — apesar de que alguns analistas, como Contardo Calligaris, se tornaram midiáticos —, e sim o indivíduo, com suas palavras e associações livres (ma non tropo?).

A análise foi feita quando Jorge Mario Bergoglio tinha 42 anos — tida como a idade da razão. O religioso morava em Buenos Aires e a Argentina era controlada por uma ditadura militar cruenta.

Depois das sessões, Jorge Mario Bergoglio manteve contato com a analista. “Um dia, quando estava prestes a morrer, ela me ligou. Não para receber os sacramentos, já que era judia, mas para um diálogo espiritual.”

No livro, o papa Francisco afirma que algumas mulheres tiveram forte influência na sua vida. “Aquelas que conheci me ajudaram muito quando eu precisei me aconselhar com elas.” Há algo mais feminista e avançado que este reconhecimento?

A Igreja Católica, dadas suas raízes arraigadas por uma longa tradição, não muda aos saltos, sua evolução é lenta, mas pode ser um pouco menos lenta. O papa Francisco não quer mudá-la integralmente, porque não é possível nem necessário — há valores vitais na teologia e na filosofia da Igreja —, mas planeja atualizá-la. Nas entrevistas, o papa propõe uma Igreja mais aberta e crítica a linha-dura que quer, mais do que retardar, impedir as mudanças que está propondo. “Padres rígidos têm medo de se comunicar.”

O papa é contundente: “É um tipo de fundamentalismo. Quando encontro alguém rígido, em especial se ele é jovem, eu digo para mim mesmo que ele está doente. Na verdade, estão procurando por segurança”. Não dá para discordar da precisão, quiçá cirúrgica, do líder máximo da Igreja Católica.

O papa é liberal, num sentido amplo, inclusive político e filosófico? Talvez não. É provável que seja conservador, mas não um reacionário. Porém, como integrante de uma instituição que reage mal às mudanças, ainda que cosméticas, o papa Francisco passa a impressão de ser revolucionário, sim, de esquerda — o que não é. Trata-se de uma grande figura de “centro” na hierarquia da Igreja Católica.

A Igreja Católica vai mudar, sob pressão, mas com equilíbrio — é o recado do papa — e sem histeria. O papa Francisco é uma evolução — talvez até uma revolução, ou quase — que contesta mas respeita a ordem.

Ao informar que fez análise, o que certamente não agrada certos religiosos — que são mais “limitados” do que “conservadores” —, o papa Francisco está dizendo mais ou menos o seguinte: os homens são diferentes, mas têm similitudes. O papa é um homem — logo tão falível quanto os demais. O papa, mais do que pop, é gente. Como a gente.

Sua menção à psicanálise, que certamente é libertadora, não foi por acaso. Homens sofisticados e inteligentes, conhecendo o que escreveu o austríaco Sigmund Freud, sabem que nada ou quase nada é por acaso (nem os chistes). O papa Francisco é um intelectual — ainda que não tão profundo quanto o admirável Joseph Aloisius Ratzinger, o papa Bento 16 — da Igreja Católica. Mas é seu caráter mundano, no sentido existencial, que lhe permite ter uma compreensão menos imprecisa e moralista das fraquezas humanas. Uma visão muito próxima da de um psicanalista…

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Magda Lucia da Cruz

Texto capaz de traduzir uma realidade da psicanálise contemporânea aliada a necessidade de qualquer sujeito, independente do se papel social, econômico ou político na sociedade, sentir a falta de algo em si e buscar na análise o que não dá conta de encontrar na sua existência.