Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ao demitir Narloch, CNN sugere que quer criar o comentarista eunuco, o que fala mas não tem opinião

No afã de se mostrar politicamente correta, a rede excede ao rescindir contrato do jornalista. Poderia tê-lo advertido

Tornou-se pecado ter opiniões contrárias às dominantes ou supostamente dominantes. A patrulha ideológica, universalizada, vai acabar se tornando um tiro pela culatra: a partir de determinado momento, a opinião que não nos agrada poderá ser cancelada e seu autor ser demitido de maneira peremptória. As empresas, acossadas pelas redes sociais — que, como se está verificando, são “articuladas”, e não são necessariamente espontâneas —, sequer examinam nuances, optando por afastar funcionários que não rezam por uma cartilha que, em tese, é absolutamente correta.

Os homossexuais podem e devem doar sangue. Eu, que sou “trombofílico” e já tive hemorragias, se precisar de sangue, não relutarei um segundo em aceitar a doação de um homossexual. Também discordo da ideia de que os comportamentos das pessoas, heterossexuais ou homossexuais, são rígidos ou idênticos (no campo sexual, há mais diversidade do que se imagina). Há heterossexuais e homossexuais promíscuos e há heterossexuais e homossexuais não promíscuos. Portanto, sugerir que homossexuais são mais promíscuos do que heterossexuais é mesmo um preconceito e, até, falta de informação.

Leandro Narloch: mais uma vítima da cultura do cancelamento | Foto: Reprodução

Mas a CNN Brasil, ao rescindir o contrato do jornalista Leandro Narloch, excedeu-se. Poderia tê-lo advertido, sugerindo que a rede tem uma linha editorial e exige padronização. Paradoxalmente, no Grande Debate, o canal propõe que os debatedores exponham pensamentos diferentes sobre qualquer assunto. Ao demitir Narloch, a CNN sugere que quer criar o comentarista eunuco — o que fala mas não tem opinião. Daqui pra frente, qual o comentarista terá coragem, se quiser manter o emprego, de opinar, de maneira mais incisiva, sobre determinados temas?

Ao comentar a lei que permite que homossexuais doem sangue, Narloch manifestou uma opinião totalmente contrária? Não. “A cultura do cancelamento me pegou. A CNN informou que, depois da polêmica, decidiu rescindir o meu contrato. Lamento pelo motivo. Não sou nem fui homofóbico, tenho horror a homofobia e concordei explicitamente com a doação de sangue por homossexuais”, afirma o jornalista. Depois, acrescentou: “Me preocupa o clima da sociedade hoje, em que é impossível discordar até mesmo de termos ou terminologias sem causar histeria, sem que o outro lado seja considerado um monstro que precisa ser bandido”.

Fefito, colunista do UOL, disse que Narloch “gerou indignação por usar termos como ‘opção sexual, restringir a contaminação por HIV à população homossexual e associá-la a promiscuidade”. O jornalista, de fato, falou em “opção sexual” e chegou a associar homossexuais, gays homens, a promiscuidade. Mas não restringiu “a contaminação por HIV à população homossexual”. Até porque, se tivesse dito isto, mostraria tanto preconceito quanto ignorância.

O ideal é que as pessoas mantenham um debate mais aberto e menos policiado. Senão a sociedade caminhará para uma espécie de ditadura unidimensional.

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