Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ao criticar o ministro Joaquim Barbosa, o jornalista Ricardo Noblat demonstrou racismo? Talvez não

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Por que, quando se escreve sobre o presidente do Supremo Tribunal Federal, jornalistas avaliam como importante dizer que é negro? Nenhum escreve que o ministro Ricardo Lewandowski é branco. Mas a verdadeira discussão deve centrar-se na questão: o ministro julga de modo competente e com seriedade? Barbosa, além da eficiência, é um magistrado íntegro.

Barbosa decidiu processar o jornalista Ricardo Noblat, que teria cometido crimes de racismo, injúria e difamação num artigo publicado no jornal “O Globo” — “Quem o ministro Joaquim Barbosa pensa que é?”. O colunista do jornal carioca teria atacado a honra do magistrado.Noblat, além de fazer referência ao fato de Barbosa ter sido indicado pelo ex-presidente Lula da Silva, do PT, escreveu “que, para entendê-lo, é necessário acrescentar ‘a sua cor’”. “Joaquim foi descoberto por um caça-talentos de Lula, incumbido de caçar um jurista talentoso e… negro”, anota o colunista.

Há mesmo racismo no que escreveu Noblat? Só se muito sutil. Referir-se a uma pessoa como negra não é, por si, racismo. É óbvio que Barbosa não foi escolhido ministro apenas por ser negro, pois seu conhecimento jurídico é notório, mas a cor, a se julgar pelo que saiu em jornais e revistas, teve certo peso para Lula indicá-lo. Lula teria sido racista, um racismo às avessas? Por certo, não.

Dizer que, para entender Barbosa, é preciso levar em consideração “a sua cor” é forçar a barra, mas talvez não seja exatamente racista. A conduta do ministro no Supremo não tem nada a ver com sua cor, exceto se decência e competência forem atributos exclusivos dos negros.

O risco da judicialização da vida pública é que qualquer coisa pode se tornar crime. Uma palavra mal colocada, uma mão mais pesada, digamos, acaba sendo avaliada como racismo, quando às vezes não é. Uma opinião ligeira, típica das que se pode formular na democracia, às vezes como um charuto é apenas um charuto e não um símbolo fálico, não significa necessariamente que se é racista. Até onde se sabe, Noblat não tem conduta de racista. No lugar do processo puro e simples, uma medida punitiva por antecipação, cabia, muito mais, uma interpelação, com uma solicitação de esclarecimento. Falta fair play no país que está tentando copiar hábitos dos Estados Unidos? Quem sabe…

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