Euler de França Belém
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Anticomunismo francês influenciou golpismo militar brasileiro, diz a historiadora Maud Chirio

Historiadora francesa afirma que oficiais participaram do golpe de 1964 e, depois, foram enquadrados pelos generais. A teoria da guerra revolucionária não foi influência americana

Maud Chirio, doutora pela Universidade de Paris 1: oficiais, como coronéis, impulsionaram o golpe; enquadrados pelos generais, tentaram retardar a Abertura política

“A Política nos Quartéis — Revoltas e Protestos de Oficiais na Ditadura Militar Brasileira” (Zahar, 263 páginas, tradução de André Telles), tese de doutorado da historiadora francesa Maud Chirio, prova que o golpe de 1964 e a ditadura civil-militar permanecem uma obra aberta — à espera de pesquisadores dedicados e não obnubilados por ideologias cegas. Numa entrevista ao jornal “O Globo” (sábado, 31), Maud, de 31 anos, diz que “os oficiais de patentes mais baixas integraram conspirações e contribuíram fortemente para o golpe militar de 1964” (a frase entre as aspas é da repórter Suzana Velasco, mas sintetiza uma informação da doutora pela Universidade de Paris 1). Ainda assim, afirma, no livro, que “a ‘revolução’ de 1964 não é um novo tenentismo”. Na entrevista, diz que “o golpe e a ditadura não foram um tenentismo, mas um movimento de generais que tinham autoridade hierárquica sobre os mais novos”. Na obra amplia a informação: “Paradoxalmente, a conspiração e o golpe foram organizados segundo o princípio hierárquico e impulsionados por uma juventude militar ardorosa e impaciente. A grande maioria dos depoimentos e fontes confirma um assentimento generalizado dos oficiais subalternos ao golpe”. Isto significa que capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis participaram ativamente do processo que levou à mudança de regime.

Os “oficiais intermediários” avaliaram que o golpe era deles e “reivindicaram participação no poder. Eles são o que chamo de primeira linha dura, com o discurso de que a revolução era um processo radical e coletivo. Eles pressionaram muito o [presidente] Castello Branco, que adotou o AI-2 para reforçar o próprio poder, mas também porque era a medida desejada pelos coronéis de linha dura desde o golpe. Quando Costa e Silva chegou ao poder, em 1967, eles pensavam que essa era a vez deles. Mas Costa e Silva tinha um imaginário dos generais, não queria a participação dos coronéis, e eles foram reprimidos, mandados para os quartéis da Amazônia e no Sul, perderam tropas e peso político. Instaurou-se de maneira muito conflituosa um regime de generais que se radicalizou com o AI-5. Durante os anos de chumbo, outros oficiais intermediários foram integrados ao aparelho repressivo. Foi uma segunda linha dura, com outra lógica política.

Estes oficiais tentaram impedir a Abertura, colocando bombas e escrevendo panfletos. Só que também não obtiveram sucesso, disse Maud ao “Globo”. Na conclusão do livro, a historiadora “corrige” seus pares: “O segundo governo militar [o de Costa e Silva] não lhes oferece [aos coronéis da primeira linha dura] o papel central que a historiografia lhes atribui. O poder é cada vez mais monopolizado por generais que negam a eles a função de censores e de Ministério da Sombra que julgam merecer”.

O general Emilio Garrastazú Medici, o substituto de Costa e Silva, depois do interregno da Junta Militar, foi imposto pela alta hierarquia militar? Maud aponta que a alta hierarquia só conseguiu indicar Medici “mediante uma consulta aos oficiais das três forças orquestrada pelos mais graduados deles. (…) A rotina do regime é feita de negociações e de medida de força entre os oficiais que se encontram no coração e na periferia do poder. (…) No interior do generalato os equilíbrios entre a Presidência, os Altos-Comandos e os líderes militares que pretendem representar politicamente o corpo dos oficiais também são objeto de conflitos mais ou menos abafados”.

No governo do presidente Ernesto Geisel, surge “uma nova ou ‘segunda linha dura’, mais conhecida como direita radical”. Essa linha dura, que apoiava o ministro do Exército, Sylvio Frota, trabalha para impedir a distensão e a Abertura. Aos poucos, ressalta Maud, “os jovens oficiais contestadores viram-se relegados à periferia do poder. (…) Os principais círculos decisórios são rapidamente reduzidos a oficiais-generais. (…) O regime militar consegue impor a seus adeptos a regra hierárquica e disciplinar da abstenção de toda e qualquer participação política. (…) De forma paradoxal, a ditadura desmobilizou amplamente as Forças Armadas brasileiras”.

França e Estados Unidos

Tradicionalmente, a historiografia e o jornalismo citam a influência norte-americana nas Forças Armadas brasileiras em 1964 e posteriormente. Trata-se de um fato. Mas a teoria da guerra revolucionária, que contribuiu fortemente para a derrubada de João Goulart e para a instauração do regime civil-militar, foi importada da França, não dos Estados Unidos. “Nos anos 1950 e 1960 o pensamento dos militares latino-americanos, longe de ser exclusivamente norte-americano, é elaborado sob o efeito de influências diversas e com fortes especificidades nacionais.”

A teoria da “guerra revolucionária, “um pensamento sobre o inimigo comunista”, foi copiada dos franceses, admitem os militares. “Os militares brasileiros não importaram essa teoria dos Estados Unidos: ela surge no Brasil em 1957, sob a forma de artigos em revistas militares, ao passo que é apenas em 1962, muito mais tarde, que o Exército norte-americano reconhece a insurreição subversiva como forma principal de conflito político-militar e empreende a campanha de instrução para enfrentá-lo”, registra Maud. A “inovação doutrinária” fica por conta dos franceses. Se eram fortes “nos domínios da instrução, do financiamento e da venda de armas, os Estados Unidos não dispõem “de doutrina convincente a propor aos exércitos latino-americanos. Além disso, na época, vários generais do Exército brasileiro haviam sido discípulos da Missão Militar Francesa sediada no Brasil entre 1919 e 1939”. Adiante, no livro, Maud reafirma: “Os anos 1957-1961 são os da importação do conceito francês de guerra revolucionária. Militares brasileiros traduziam as informações sobre a teoria de publicações francesas”.

O doutrinamento das Forças Armadas, sobre a teoria da guerra revolucionária contra o comunismo, começa, segundo Maud, em 1961. “Em julho, o Estado-Maior das Forças Armadas, dirigido pelo general Osvaldo Cordeiro de Farias, pede que sejam oficialmente definidos os termos: guerra insurrecional, guerra revolucionária, subversão, ação psicológica, guerra psicológica, guerra fria. Mas a verdadeira reviravolta no Exército é promovida por seu Estado-Maior (sob a chefia do general Emílio Rodrigues Ribas), que, em junho de 1961, promulga uma diretriz regendo a instrução da GR nas escolas militares e nos corpos de tropa. É a partir desse ano que a GR começa sua penetração na oficialidade subalterna das escolas, em particular na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), onde se formam, essencialmente, capitães.”

O presidente Goulart, segundo o coronel Octávio Costa, “asilou” nas escolas militares os “oficiais que não gozavam de sua confiança”. Como nas escolas, mesmo fora do currículo oficial, ensinava-se a guerra revolucionária de modo sistemático, Jango contribuiu para fortalecer o golpismo, ao, indiretamente, mobilizar os conspiradores mais articulados. Depois da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, Lacerda se tornou a esperança do oficialato anticomunista. O governador da Guanabara era visto como “líder honesto, autoritário e dinâmico”. E seria capaz “de assegurar o desenvolvimento e a grandeza do Brasil”. Os generais, como Castello e Costa e Silva, pensavam diferente: não planejavam devolver o poder aos civis, pelo menos não tão cedo. Castello, mais “aberto” à volta dos civis ao poder, não conseguiu segurar a linha dura e, no fim, predominou sua formação castrense.

Há problemas de revisão no livro de Maud. Edmundo Campos Coelho, e não Eduardo, escreveu o livro “Em Busca de Identidade: O Exército e a Política na Sociedade Brasileira”. Ao contar que João Goulart assumiu a Presidência da República em 1961, a pesquisadora escreve: “A volta da esquerda ao poder”. O fato de militantes comunistas participarem da gestão federal não significa que Jango e o governo fossem de esquerda. O líder petebista era no máximo nacionalista, o que contraria, inclusive, o internacionalismo da esquerda. O presidente conciliava com vários setores da sociedade brasileira, num jogo no qual tentava repetir, sem o mesmo talento, seu mestre político — Getúlio Vargas. A tradução, de André Telles, é correta, sem os cacos tradicionais em livros de história que não passam por revisão técnica. O único problema, nada sério, é chamar os “revoltosos” do Forte de Copacabana de “revoltados”. Não é o termo correto.

(Texto publicado na edição 1918, de 8 a 14 de abril de 2012, do Jornal Opção)

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Uma resposta para “Anticomunismo francês influenciou golpismo militar brasileiro, diz a historiadora Maud Chirio”

  1. Avatar MARIZA disse:

    Infelizmente a verdade e outra a corrupção instalada no Brasil e muito maior que QQ nação possa ter passado
    A demagogia do pt foi pelo velho ditado em faça o que digo e não faça o que faço ou. aquele que parte ou reparte e não fica com a maior parte é bobo ou não tem arte,assim se comportou o pt de lula no poder.

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