Euler de França Belém
Euler de França Belém

Andrew Roberts constrói uma história do século 20 a partir da vida de Churchill

O pesquisador do King’s College e de Stanford mostra que o primeiro-ministro construiu sua grandeza pacientemente, fortalecendo-se com derrotas e sucessos

Edição Portuguesa | Foto: Jornal Opçao

Portugal é um país bem menor do que Goiás, mas com editoras de alta qualidade. O livro sai na Alemanha ou na Inglaterra, para mencionar dois países e dois idiomas diferentes, e logo depois é publicado na terra de Camões e Agustina Bessa-Luís. As traduções são sempre diretas, creio, do original. “O Arquipélago Gulag” (Sextante, 589 páginas), de Aleksandr Soljenítsin, saiu com tradução direta do russo por António Pescada. “Churchill — Caminhando com o Destino”, de Andrew Roberts, saiu na Inglaterra em 2018 e, já em 2019, os leitores portugueses puderam lê-la, em edição da Leya, com 1160 páginas e tradução caprichada de José Mendonça da Cruz.

O livro sai agora, em agosto, no Brasil, com o mesmo título, “Churchill — Caminhando com o Destino”, com 1200 páginas, pela Companhia das Letras, com tradução de Denise Bottmann e Pedro Maia Soares, especialistas gabaritados.

Maior personalidade política do século 20, Winston Churchill já ganhou várias biografias, como a de Martin Gilbert, a clássica, e a de Roy Jenkins. A deste, até a publicação do cartapácio de Andrew Roberts, era a melhor. Permanece com uma excelência rara, e sem transformar o britânico em santo. Herói, como quer Paul Johnson, era mesmo. É inegável. Mas, santo, o próprio nunca quis ser. O verdadeiro político precisa de ares mefistofélicos. Tanto que o inglês negociou, com habilidade, com o Diabo — quer dizer, Ióssif Stálin — e, frise-se, sem demonizá-lo.

Edição brasileira | Foto: Companhia das Letras

Churchill era um demônio da política. Fazia o que era preciso fazer, mas sempre respeitando o tempo da democracia. Claro, forçava o tempo, para levá-lo adiante mais rápido. Mesmo sendo anticomunista ferrenho, percebeu que a salvação de uma Europa democrática — e, portanto, de sua amada Albion — dependia de atrair tanto a União Soviética quanto os Estados Unidos para a guerra. A URSS era a “bucha de canhão” destinada a dividir as forças da Alemanha nazista. Os Estados Unidos, com seus imensos recursos e seus soldados, seriam o ponto de equilíbrio, pró-Aliados, numa guerra que Adolf Hitler estava vencendo. Em casa, com sua palavra-metralhadora, não deixou que os britânicos se deitassem e fossem vítimas do fatalismo conformista que acometeu certos membros da elite, que queriam um acordo com o nazismo, desde que a Inglaterra fosse “preservada”. Tais “apaziguadores” pareciam não perceber que, se Hitler vencesse a batalha, Shakespeare se tornaria um autor “alemão”. Isto, alto lá, para um inglês, não, jamais! — é o que parecia dizer Churchill, que, ao contrário de Neville Chamberlain, havia lido “Minha Luta”, de Hitler, com uma lupa. Os ingleses seriam servos — ainda que, admirados pelo ditador “germânico”, de “primeira categoria”. Os de “segunda categoria” seriam os eslavos.

A palavra de Churchill primeiro levantou o povo britânico, com suas elites a reboque de seu vocabulário tão requintado quanto divertido, agregador e bélico. Franklin D. Roosevelt, uma raposa das mais felpudas, era difícil de ser seduzido. Mas, de algum modo, mesmo antes de Pearl Harbor, o presidente americano, assim como o grande Harry Hopkins, estava mesmerizado pelo inglês que fumava charutos e bebia com frequência.

Andrew Roberts, historiador britânico: um dos maiores especialistas em Segunda Guerra Mundial e em Winston Churchill | Foto: Reprodução

No conjunto, os melhores livros sobre a Segunda Guerra Mundial são de ingleses, como Andrew Roberts (autor do excelente “A Tempestade da Guerra”), Richard Evans, Richard Overy, Antony Beevor, Michael Burleigh, Max Hastings, Laurence Rees, Paul Kennedy, Michael Jones, Keith Lowe e Ian Kershaw (autor da biografia mais gabaritada de Hitler, publicada no Brasil numa edição condensada). Quanto a Churchill, os britânicos são implacáveis. Não censuram quem queira se aproximar de seu maior político, mas dão um chega-pra-la e publicam, eles mesmos, os melhores livros a seu respeito. Martin Gilbert, Roy Jenkins, John Keegan, Max Hastings, Boris Johnson (sim, o primeiro-ministro é autor de uma ótima, ainda que exagerada, “hagiografia” de Churchill. Terminada a leitura, fica-se com a impressão de que Churchill está no céu como chefe de Deus) escreveram biografias de qualidade, com mais virtudes do que defeitos.

Nos agradecimentos, Andrew Roberts informa: “Gostaria de agradecer a gentil autorização de Sua Majestade a rainha Isabel II [nota do Jornal Opção: em Portugal não usam Elizabeth II] para utilizar material dos Arquivos Reais de Windsor, e, em particular, por ter permitido que me tornasse o primeiro biógrafo de Churchill a ter acesso ilimitado a todo o conteúdo do diários do tempo de guerra de seu pai, o rei Jorge VI. Recorri a muitos documentos que não estão no domínio público”.

Óssip Stálin, Franklin Roosevelt e Winston Churchill: um ditador e dois democratas — acima de tudo, um time de políticos realistas | Foto: Reprodução

Na introdução, Andrew Roberts escreve que, “quando [Charles] Eade [que estava editando os discursos do tempo da guerra do primeiro-ministro] expressou natural surpresa perante o enorme volume de trabalho de Churchill conseguira realizar enquanto primeiro-ministro, ‘ele explicou-me que conseguira coordenar todas aqueles questões porque toda a sua vida servira de treino para o alto cargo que ocupara durante a guerra’”. A conversa entre Eade e Curchill ocorreu em 20 de dezembro de 1945, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Em agosto de 1943, numa conversa com William Mackenzie King, durante a Conferência de Québec — o primeiro-ministro canadense (canadiano, em Portugal) havia dito que só Winston poderia “ter salvado o Império Britânico —, Churchill respondeu ‘que tinha tido um treino muito especial, tempos passados durante uma guerra anterior, e possuía larga experiência de governo’”. King disse: “Sim, era praticamente a confirmação da velha ideia presbiteriana de predestinação ou ordenação, de ser-se o homem eleito para a tarefa”. Lorde Hailsham corrobora: “O único ato em que julgo reconhecer o dedo de Deus na história contemporânea é o da chegada de Churchill ao cargo de primeiro-ministro nesse exato momento de 1940”.

No livro “À Beira da Tempestade, primeiro volume de suas memórias de guerra, Churchill anotou: “Sentia-me como se caminhasse com o destino, como se toda a minha vida passada não tivesse sido senão uma preparação para aquela hora e aquela provação (…). Não poderia censurar-me nem por ter desencadeado a guerra, nem por falta de preparação para ela. Pensava saber bastante sobre tudo isso, e estava seguro de que não havia de falhar”.

Andrew Roberts complementa: “Embora em maio de 1940 caminhasse, verdadeiramente, com o destino, esse destino passa ele toda a vida a dar-lhe forma”.

O livro do historiador é, para além da presença de Churchill — de uma grandeza ímpar —, é um grande retrato histórico do século 20. O século de Churchill, claro. Mas também de vários outros homens, goste-se deles ou não. Por exemplo, Stálin, De Gaulle e Roosevelt.

Àqueles leitores que querem ir além de Churchill, para obter um quadro amplo da Segunda Guerra Mundial, recomenda-se o excelente “A Tempestade da Guerra” (Record, 811 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), do mesmo Andrew Roberts. Se for dado a uma preguicinha, então leia apenas a conclusão do livro, “Por que o Eixo perdeu a Segunda Guerra Mundial?” São 33 páginas do balacobaco. Para ler de joelhos, protegidos por almofadas, sonhando com uma taça do vinho Romanée-Conti. Sonhar, afinal, não é pecado e também não se paga impostos, nem o do cheque.

Resenha de livro de Andrew Roberts sobre a Segunda Guerra Mundial

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