A âncora conseguiu dinamizar o programa, tornando-o mais ágil, crítico e atento aos acontecimentos políticos nacionais

A jornalista Maria Beltrão é, como se dizia em tempos idos, uma força da natureza. Ambientes com sua presença transbordam de vibração, porque é uma pessoa esfuziante. É quase uma show-woman. O “Estúdio I”, da GloboNews, tinha a sua cara, pois a âncora soube moldá-lo aos seus modos e carisma. Como líder nata, agregava e empolgava os companheiros de jornada — Octavio Guedes (o Guedinho, que, de tão ranheta, acaba por ser simpático), Arthur Dapieve e Daniel Sousa.

Andréia Sadi e Maria Beltrão: dois estilos diferentes e funcionais | Foto: Reprodução

Substituir Maria Beltrão não é impossível, mas não é fácil. Andréia Sadi, repórter de primeira linha e comentarista em formação, deu nova, por assim dizer, personalidade ao “Estúdio I”. A rigor, é uma estrela, dados o carisma, a beleza e a competência. Há uma elegância natural em Andréia Sadi, que lembra, aqui e ali, Danuza Leão. Por isso chama tanto a atenção do público.

Sob a batuta de Andréia Sadi, se perdeu em intimismo e em espírito de confraria, o programa ficou mais “quente”, mais politizado. Em tempo de eleições, com a polarização extremada entre o presidente Jair Bolsonaro, do PL, e o ex-presidente Lula da Silva, do PT, a cúpula do “Estúdio I” acertou a mão ao readaptá-lo às circunstâncias.

Ao contrário de Maria Beltrão, que é mais âncora, Andréia Sadi é mais repórter e atenta aos fatos políticos do país. Por isso está conseguindo imprimir sua marca, e certamente a marca da Globo — que está reforçando a politização do noticiário (não há como a empresa da família não tratar Bolsonaro como “inimigo”, e não como adversário ou apenas objeto de reportagens. O presidente quer retirar a concessão da Globo) —, no programa que dirige.

Andréia Sadi: a jornalista está renovando o “Estúdio I”, tornando-o mais politizado | Foto: Reprodução

Assim como Maria Beltrão, Andréia Sadi é elétrica. Mas, ao contrário da ex-âncora do “Estúdio I”, que é “bossa nova”, a atual “apresentadora” é do rock. Quer dizer, é mais rápida ao expor fatos e análises, sobretudo é mais ligada à política e é menos emocional e mais racional.

Manter a equipe anterior, com ligeiros acréscimos — a presença de Marcelo Lins confere leveza ao programa (é um dos poucos, assim como Valdo Cruz, que escapam, por vezes, da “pilha” anti-bolsonarista) —, é um dos acertos. Mexer em time que está ganhando — não se estava perdendo com Maria Beltrão — é vital? É… para ganhar um pouco mais. Mas, quando se mexe em excesso, o time fica bagunçado e perde-se o entrosamento. Portanto, Andréia Sadi e os editores acertaram ao manter Dapieve (ponderado e culto), Daniel Sousa (excelente jornalista, com uma voz nem tanto) e Guedinho (o charme do programa e um dos repórteres, ao lado de Valdo Cruz, com bagagem histórica). Miriam Leitão, quando aparece, reforça a qualidade do programa.

Corajosa e focada, Andréia Sadi mostrou que é chefe, que dirige mesmo o programa, quando chamou a atenção de Guga Chacra, que, olhando no celular — em busca de informação em tempo real, por certo —, parecia desatento. A rigor, não estava. Porém, como o “Estúdio I”, assim como o “Em Pauta”, discute mais o Brasil que o mundo, Guga Chacra (sabe tudo sobre o Oriente Médio) precisa ficar mais atento aos acontecimentos do país pátrio.

Se ancora bem, postando-se como protagonista, emitindo opiniões sensatas — nem sempre com a perspicácia de Natuza Nery (repórter e analista de primeira linha — e sabe dizer as coisas mais duras com suavidade e civilidade) e Valdo Cruz (que, excelente, não está mais tímido no ar) —, Andreia Sadi precisa melhorar quando for apresentar notícias. Parece hesitante, até ansiosa (o que pode ser impressão minha). A leitura parece “picotada”, como se a apresentadora fosse uma cantora de rap. Com uma pausa maior do que o necessário, a “pontuação” parece “cortar” o texto. Ela parece falar aos “saltos”.

Andreia Sadi com André Trigueiro, Octavio Guedes e Natuza Nery | Foto: Reprodução

Ao contrário do que alguns pensam, apresentar notícias parece fácil, mas não é. Não se trata tão-somente de ler o que passa no teleprompter. O apresentador precisa estar atento ao tempo (sempre curto), ao ritmo da fala, à entonação e o gestual precisa ser adequado. Não é algo mecânico, sem vida. O apresentador, como Renata Vasconcellos e William Bonner, fala com a boca e com o corpo. Antes, Andréia Sadi era repórter e comentarista, ou seja, não precisava apresentar notícias. Agora, além de ancorar os debates do “Estúdio I”, e de participar deles, com voz ativa, também é apresentadora. Com orientação e experiência, a jornalista vai se tornar craque.

Sob Andréia Sadi talvez seja possível sugerir que o “Estúdio I” se tornou mais jornalístico — mais político — e menos espetáculo. O que não quer dizer que, com Maria Beltrão (aprecio sua energia pra frente e alegre), era ruim. Não era. São apenas perspectivas diferentes.

O “Estúdio I” e o “Em Pauta” são os melhores programas jornalísticos da GloboNews. Já os telejornais cometem o pecado de serem repetitivos.