Anápolis provou amar o cantor e músico Ricardo Telles. Ele morreu, mas fica seu legado

O artista deixa os palcos da vida, mas gravou seu nome na memória de todos que foram alcançados de alguma forma por seu talento e solidariedade

Marcos Carvalho

Ricardo Telles: cantor e músico inventivo

A última quarta-feira amanheceu cinzenta e triste em Anápolis. A notícia que rapidamente varreu as redes sociais era o lamento pelo passamento de Ricardo Telles. O músico tinha outras atuações que perfaziam e completavam sua vida.  Ricardo pertence a galeria dos grandes nomes da música anapolina, se apresentando em diversas casas de shows, restaurantes, eventos particulares e religiosos, nestes costumava colaborar sem cobrar cachê, emprestava a beleza de sua voz e poesia.

O cantor marcou uma geração de anapolinos que cresceu ouvindo seus shows, namorou embalada por suas interpretações em bons restaurantes ou em algum evento da cidade. Em paralelo arriscou a carreira de cantor sertanejo em dupla, num CD produzido por Ana Queiroz. Encontrá-lo numa festa era sempre a garantia de que logo um violão seria buscado no carro de algum amigo e que uma roda musical seria iniciada, os mais boêmios em seguida já pediam suas canções e arriscavam acompanhar.

Ricardo Telles e músicos

O projeto mais recente era uma releitura da amizade construída com Ismar Ferraz e Cesinha, que agora preparavam um novo ciclo de apresentações para encantar os palcos por onde passassem. O palco experimental foi o Underground, bar que está se tornando referência em qualidade musical, atendimento e marcando época. Amigos de longa data, junto com Alberto Faleiros, formavam um grupo de amigos muito celebrativo e que a cada encontro sempre fazia renascer clássicos que referenciam os cancioneiros, o cerrado e a boa música, quase bordada à mão.

Ricardo era atuante no movimento de Cursilhos da Igreja Católica e também nas questões de política cultural, foi presidente do Conselho Municipal de Cultura de Anápolis, onde dividimos cadeira e projetos por três anos seguidos. Sua partida tão repentina deixou órfãos seus fãs, amigos e família.

A quarta–feira tão cinzenta, expressão usada pelo professor Augusto Almeida para descrever seu sentimento de tristeza, foi também seu último palco, momento de amigos de todos os matizes políticos, ideológicos, religiosos mostrarem sua dor e lamento pela perda do amigo tão querido. O momento nos mostrou que, acima das diferenças, está o afeto, a amizade e a vontade de construir, de realizar, de somar.

Ricardo Telles deixa os palcos da vida, mas gravou seu nome na memória de todos que foram alcançados de alguma forma por seu talento, dedicação, entrega e solidariedade. Anápolis parou, a comoção nas redes sociais, nos cafés, os abraços entre amigos atônitos com o momento mostrou seu tamanho, sua grandeza e seu valor.

Marcos Carvalho é psicólogo do Instituto Federal de Goiás e doutorando pela Universidade de Brasília (UnB).

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