Euler de França Belém
Euler de França Belém

Alemães mataram mais brasileiros fora da guerra na Europa

Historiadores provam que alemães foram responsáveis pelo afundamento de navios brasileiros

Ao contrário do que escreveu o jornalista William Waack, no livro “As Duas Faces da Glória — A FEB Vista Por Seus Aliados e Inimigos” (Nova Fronteira, 250 páginas, 1985), a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), se não foi decisiva, foi importante, reconhecem militares e pesquisadores americanos e britânicos. O historiador Francisco César Ferraz, no pequeno mas valioso “Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial” (Jorge Zahar Editor, 78 páginas, 2005), diz que, “ao recusar o uso de suas tropas como forças de ocupação na Europa destruída pelo conflito, [o Brasil] perdeu a oportunidade de ganhar importância” na “reordenação mundial”. Se tivesse participado da reconstrução, o país possivelmente teria saído como uma imagem mais robusta.

Os brasileiros participaram de combates cruentos no Monte Castelo e em Montese — jamais fugindo do combate, atestam pesquisadores rigorosos, como Ricardo Bonalume Neto, Cesar Campiani Maximiano (“Onde Estão os Nossos Heróis? Uma Breve História dos Brasileiros na Segunda Guerra”, Edição do Autor, 1995), Francisco César Ferraz, Manoel Thomaz de Castelo Branco (“O Brasil na Segunda Grande Guerra”, Biblioteca do Exército, 1960), Fernando Lourenço Fernandes (“A Estrada Para Fornovo”, Nova Fronteira, 373 páginas, 2009), Roberto Sander (“O Brasil na Mira de Hitler — A História do Afundamento de Navios Brasileiros Pelos Nazistas”, Objetiva, 260 páginas, 2007) e o brasilianista Frank McCann (“Aliança Brasil-Estados Unidos, 1937-1945”, Biblioteca do Exército Editora, 394 páginas, 1995, tradução de Jayme Taddei e José Lívio Dantas).

O Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, ao nazifascismo, em 31 de agosto de 1942, e o 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) chegou a Nápoles em 16 de julho de 1944, quando a guerra ainda não estava decidida. Como o governo do presidente Getúlio Vargas havia rompido com o Eixo em janeiro de 1942, sob pressão dos Estados Unidos e depois de faturar 20 milhões de dólares para a construção da Companhia Siderúrgica de Volta Redonda, o governo nazista de Adolf Hitler autorizou que submarinos alemães atacassem navios brasileiros.

Entre fevereiro e agosto de 1942, os nazistas torpedearam e afundaram 12 navios mercantes brasileiros, entre eles o Baependi, o Araraquara, o Aníbal Benévolo, o Itagiba, o Arará, o Jacira e o Comandante Lyra (não foi afundado). Em 1944, o navio-transporte Vital de Oliveira foi torpedeado pelo submarino alemão U-861. Dos 275 militares morreram 99. “No total”, registra Roberto Sander, no ótimo “O Brasil na Mira de Hitler”, “34 embarcações brasileiras foram torpedeadas durante a Segunda Guerra Mundial, o que causou a morte de 1.081 pessoas, a maioria civis inocentes. Nem nos campos de batalha tantos brasileiros pereceram. Dos mais de 25 mil soldados da FEB que foram lutar nas trincheiras italianas, 454 morreram e cerca de 3 mil ficaram feridos”. Por isso, Francisco César Ferraz afirma, com acerto, que “é mais correto dizer que não foram os brasileiros que foram à guerra, mas sim a guerra que chegou aos brasileiros”. Durante algum tempo, sobretudo na época dos ataques, jornais chegaram a insinuar que americanos haviam afundado os navios brasileiros para jogar a culpa nos alemães. “Toda a documentação comprova a autoria alemã dos torpedeamentos”, revela Francisco César Ferraz. Sander faz a mesma constatação. Nenhum pesquisador sério diz o contrário.

No excelente “A Nossa Segunda Guerra — Os Brasileiros em Combate, 1942-1945” (Expressão e Cultura, 224 páginas, 1995), o jornalista Ricardo Bonalume Neto conta que, em 4 de julho de 1945, dois meses depois do fim da guerra, o cruzador Bahia foi afundado, em decorrência de um “acidente”. “Ainda há quem tenha dúvida sobre o que aconteceu, embora a conclusão oficial seja plausível. O Bahia estava em uma missão de apoio aos aviões que retornavam às Américas a partir da África. O cruzador fazia um exercício com canhões antiaéreos e um artilheiro acertou por engano nas bombas de profundidade na popa, que explodiram. A proteção do canhão que impediria que ele disparasse tão baixo tinha sido retirada. Quando se descobriu que o submarino alemão U-977 tinha chegado pouco depois à Argentina, especulou-se que ele teria afundado o cruzador, num último ato de desafio de um alemão inconformado com a derrota. (…) A investigação inocentou o submarino. O cruzador teve 336 mortos, 332 da Marinha e quatro marinheiros americanos que estavam a bordo para fazer as comunicações com os aviões. Só se salvaram 36 tripulantes, porque houve falhas de comunicação e os náufragos ficaram vagando no mar em balsas por quadro dias sem receber socorro”. Com o afundamento do Bahia, as mortes de brasileiros no mar subiram para mais de 1.400.

O livro “Ultramar Sul — A Última Operação Secreta do Terceiro Reich” (Civilização Brasileira, 489 páginas, 2010, tradução de Sérgio Lamarão), de Juan Salinas e Carlos De Nápoli, apresenta uma versão diferente. “Para alguns sobreviventes, fica claro que reconheceram um submarino. O que não se discute é que o Bahia e o U-977 se encontravam naquele dia no mesmo lugar do vasto oceano, que o primeiro afundou e que o U-Boote fugitivo perdeu pelo menos dois torpedos T-5 acústicos, que se guiavam pelo ruído das hélices de suas presas. E, certamente, quando o objetivo era um navio grande, era obrigatório disparar dois torpedos.”

Muito ferido, com fraturas expostas, o comandante do Bahia, o capitão de fragata Garcia D’Ávila Pires de Carvalho e Albuquerque, foi levado à enfermaria, quando “a popa” do cruzador “afundou e a proa ergueu-se 20 metros acima da linha d’água. O comandante, consciente de que o barco afundaria em poucos minutos, tentou regressar à ponte, mas, imobilizado por dores terríveis, ordenou a ‘Mosquito’ [o suboficial Antônio Luz dos Santos]: ‘Deixe-me, rapaz, e procure salvar-se. Sou um homem morto’. Apenas um oficial sobreviveu, o primeiro-tenente Lúcio Torres Dias”.

Os náufragos, ainda sem orientação do comando da Marinha, disseram, com todas as letras, que não havia ocorrido um acidente. O navio havia sido atacado. O comandante do cruzador USS Omaha, W. L. Freseman, registrou no livro de navegação: “Fui informado pelo almirante de que, sem dúvida alguma, o cruzador Bahia havia sido afundado”. Torres Dias admitiu, mais tarde, “que a maioria dos náufragos atribuía a causa da explosão a um torpedo de submarino”. Na época, aceitando a orientação do comando da Marinha, optou pela tese do acidente, embora estivesse distante do local da explosão, na sala de máquinas.

O almirante Jorge Dodsworth Martins secundou a opinião dos marinheiros e, segundo Salinas e Nápoli, “insistiu na hipótese de que o Bahia fora atingido por um submarino alemão que se refugiou na Argentina”. A tese de “acidente” é vista por Salinas e Nápoli como “colossal mentira”. “Embora as metralhadoras Oerlikon estivessem dotadas de ‘limitadores de conteira e elevação’ que lhes impediam disparar para baixo e para os lados para evitar que algum projétil atingisse a estrutura do navio no calor do combate, a história oficial assegura que as Oerlikon do Bahia os tinham anulados.”

O comandante Gomes Cândido sugeriu uma correção de rumo: “As extremas dificuldades dos Aliados em suas relações com os soviéticos após a rendição da Alemanha podem ter levado os americanos, que perderam quatro marinheiros no cruzador, a aconselhar a Marinha brasileira a não indicar o torpedeamento como causa do naufrágio”.

Qual teria sido a motivação do comandante do submarino U-977, o primeiro-tenente Heinz Schäffer — que pode ter levado nazistas, ouro e dinheiro para a Argentina —, para atacar o Bahia? Gomes Cândido avalia que Schäfer pode ter visto o cruzador como uma presa fácil e, por isso, decidiu atacá-lo. Salinas e Nápoli sugerem que os alemães podem ter torpedeado o navio brasileiro porque estavam alcoolizados e eram poucos disciplinados.

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