Euler de França Belém
Euler de França Belém

Aldo Arantes conta que AP devolveu dinheiro para Cuba e que Henrique Meirelles atuou na esquerda

O comandante Piñero, de Cuba, ficou estupefato. Era a primeira vez que devolviam dinheiro ao governo cubano

Esperava-se que as memórias do ex-deputado federal Aldo Arantes, “Alma em Fogo — Memórias de um Militante Político” (Fundação Maurício Grabois e Anita Garibaldi, 489 páginas) fossem dogmáticas. Não são. O líder histórico do PC do B expõe sua posição mas inclui, escrupulosamente, as opiniões contrárias. Trata-se da construção de uma história militante? Sim, mas sem excluir e depreciar as outras militâncias (o memorialista pode até criticá-las, mas acrescenta o contexto). Presidente da UNE, eleito em 1961, militante da Ação Popular (AP), até 1973, quando esta foi incorporada pelo PC do B, e líder comunista, Aldo Arantes escreveu um livro que, para além de uma história pessoal, é um grande registro histórico. Mais: a obra é um documento a ser escarafunchado pelos pesquisadores da história recente do país.

Há histórias fascinantes que, juntas ou isoladamente, dariam um belo filme ou documentário. Em 1965, o grupo de Aldo Arantes e Herbert de Souza, o Betinho, recebeu 5 mil dólares de Leonel Brizola para organizar a luta armada. Eles aplicaram o dinheiro na reorganização da Ação Popular. “O dinheiro fazia parte da ajuda dada pelo governo de Cuba a Brizola”, relata Aldo. “A direção da AP recebera 16 mil dólares para enviarmos pessoas para um treinamento militar em Cuba. Ocorre que, com minha ida à China e o processo de discussão que se seguiu, passamos a criticar a ideia de tomada do poder através do caminho cubano, ou seja, o do ‘foco guerrilheiro’, e então optamos pelo caminho chinês da Guerra Popular Prolongada”, conta o líder comunista.

Livro de memórias resgata história de Aldo Arantes, sua luta contra a ditadura militar e debate a Guerrilha do Araguaia

Devido à mudança de rumo ideológico — ou melhor, de tática, pois o pensamento permanecia de esquerda, mais aguçado —, os líderes da AP ficaram sem saber o que fazer do dinheiro. “Ficamos numa situação delicada”, diz Aldo, “pois havíamos decidido não mais enviar pessoas para o treinamento em Cuba. O problema era o que fazer com o dinheiro enviado para este fim e, numa reunião da direção da AP, decidimos devolvê-lo aos cubanos. E Paulo Wright recebeu essa tarefa. Em Cuba, ele foi recebido pelo comandante Pinheiro [ou Piñero] que, com a devolução do dinheiro e a explicação da razão, manifestou grande surpresa, afirmando ter sido a primeira vez que aquilo ocorria”.

Entre os participantes da direção nacional da AP (de origem católica, mas aos poucos revolucionária) estavam, além de Betinho e Aldo, Duarte Pereira, Paulo Wright, Carlos Walter Aumond, Sérgio Bezerra de Menezes e Sérgio Motta, o Serjão, que foi ministro do jogo-duro do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Depois de uma passagem pelo Uruguai, onde articularam com Brizola, Aldo e Betinho voltaram para o Brasil, em setembro de 1965. Ele ficou escondido na casa de Diva e Hegesipo Campos Meireles, pais do engenheiro Henrique Meirelles, durante um mês. Aldo e o ex-presidente do Banco de Boston e do Banco Central são primos.

Em 1967, a AP atuou com firmeza, dentro do possível, no combate à ditadura civil-militar. “Militantes da AP faziam pichações contra a ditadura. Dodora [ex-mulher de Aldo] realizava esta atividade e contava com a ajuda de meu primo Henrique Meirelles, então estudante de engenharia da Faculdade Politécnica (Poli) de São Paulo. Na faculdade, ele era um simpatizante da AP, e apoiara uma chapa desta organização contra a direita. Com o pessoal da Poli, ele fazia também pichações. No passado fora presidente do Grêmio do Liceu [em Goiânia], quando eu era presidente da UNE”, registra Aldo.

Aldo Arantes: autor de um livro importante para pesquisadores | Foto: Reprodução

Os esquerdistas do pós-64 eram radicais — muitos queriam arrancar a ditadura dos militares do poder e instalar outra ditadura, a “simpática” ditadura do proletariado —, mas a maioria deles era abnegada. A AP estava sem dinheiro para a luta política e, por isso, seus líderes estabeleceram uma diretriz pela qual seus militantes e dirigentes deveriam doar seus bens à organização. “Inúmeras pessoas entregaram o que tinham, inclusive joias; e um militante, a fazenda que recebera da família.”

Aldo e Dodora venderam a casa que tinham em São Paulo, no bairro de Pinheiros. “Por ocasião da venda, ela ponderou se não podíamos deixar uma parte para comprar uma pequena casa num bairro popular. Mas meu radicalismo era tamanho que não concordei. (…) O desprendimento era total. Jovens correndo risco de vida e se dispunham a doar seus bens materiais.”

Henrique Meirelles: antes de ser banqueiro, teve militância na esquerda | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em 1965, nasceu o primeiro filho de Aldo, André, no Sanatório Americano, em Montevidéu. O parto foi pago por Lúcia Flecha de Lima (a amiga da princesa Diana), cujo marido, Paulo de Tarso Flecha de Lima, era presidente da Associação do Livre Comércio para a América Latina. “O casal apoiou não só o parto como também foi muito solidário durante o restante do exílio no Uruguai”, anota Aldo. O registro mostra, mais uma vez, a honestidade pessoal e intelectual do líder comunista.

Quando Aldo tinha 8 anos, seu pai, Galileu, decidiu vender a fazenda. Galileu, fiscal do Estado, mostrou a fazenda para um comprador. O negócio estava praticamente selado, mas, de repente, Aldo disse: “Pai, o sr. se esqueceu de falar pro moço da erva que mata o gado”. O comprador desistiu do negócio na hora, mas o pai não repreendeu o garoto. Aldo fala de sua epilepsia, mesmo problema de Dostoiévski e Machado de Assis, e de sua depressão (superada). A honestidade do garoto de 8 anos permanece.

O livro “Alma em Fogo” é doloroso e um verdadeiro ajuste de contas com o passado.

Resenha publicada pelo Jornal Opção em 2013.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.