Euler de França Belém
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Afasia leva o chargista Angeli, da Folha de S. Paulo, à aposentadoria

“As pessoas têm que saber que Angeli é uma figura pública, um personagem. Angeli se aposenta, mas o Arnaldo está aqui”, diz filha Sofia

Aos 65 anos, e 51 de profissão, o chargista Angeli (Arnaldo Angeli Filho), da “Folha de S. Paulo”, anunciou sua aposentadoria. Motivo: diagnóstico de afasia (o mesmo problema que levou ao afastamento do ator americano Bruce Willis do cinema).

A família de Angeli postou um comunicado nas redes sociais na quarta-feira, 20:

“É com tristeza e coragem que a família e os amigos de Angeli comunicam o fim, por questões de saúde, da histórica colaboração entre o autor e a Folha de S. Paulo. Após cinquenta e um anos de carreira, quase cinquenta deles no jornal, é num misto de emoção e tristeza e também orgulho que ele se despede desse espaço que foi, ao longo de décadas, uma janela para que os leitores pudessem observar o talento indescritível de um dos maiores artistas que o Brasil tem. Agora que esta nova etapa se inicia, deixamos aqui um agradecimento especial aos leitores que foram os grandes parceiros de Angeli durante essas cinco décadas. Com eles, seguiremos celebrando a obra de Angeli em novas publicações e exposições. Punk is not dead!”

Numa reportagem, “O Globo” informa que “afasia decorre de uma lesão cerebral que pode acometer adultos e idosos e afetar a capacidade de uma pessoa de falar, escrever e entender a linguagem. No entanto, cada um desses aspectos da linguagem está localizado em uma parte diferente, por isso existe mais de um tipo de afasia”.

Laerte, cartunista da “Folha”, disse: “Angeli tem o peso de um Pasquim inteiro em matéria de influência e significado de uma época. Ele foi vital para a existência do que entendemos como humor em São Paulo”. O diretor de redação da “Folha”, Sérgio Dávila, sublinhou: “Angeli é parte importante da história dos quadrinhos brasileiros e da própria ‘Folha’. Influenciou mais de uma geração de autores com seu traço único e seu comentário ácido sobre comportamento e política. Mais que desenhos, Rê Bordosa, Bob Cuspe e tantos outros são personagens literários.”

A Companhia das Letras vai publicar, em dois volumes (com cerca de mil charges), o trabalho de Angeli, com organização de André Conti e da mulher do chargista, Carolina Guaycuru.

Os quadrinhos de Laerte e Angeli, se não são literatura, são humor e, sim, jornalismo de alta qualidade. São críticos, corrosivos e vão além da crítica política, pois examinam também o comportamento das pessoas, independentemente das classes sociais

Angeli criou “personagens” que se tornaram lendários, praticamente da vida cultural do país nas últimas décadas, como Bob Cuspe, Rê Bordosa e Meia Oito.

O chargista começou a trabalhar na “Folha de S. Paulo” em 1973, há 49 anos.

O escritor Luis Fernando Verissimo disse, certa feita: “A literatura de São Paulo são os quadrinhos”. Exagero, evidente. Mas com uma gota de verdade: os quadrinhos de Laerte e Angeli, se não são literatura, são humor e, sim, jornalismo de alta qualidade. São críticos, corrosivos e vão além da crítica política, pois examinam também o comportamento das pessoas, independentemente das classes sociais

Angeli e suas criações | Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

A filha de Angeli, a publicitária Sofia Angeli, assinala, de maneira precisa: “As pessoas têm que saber que Angeli é uma figura pública, um personagem. Angeli se aposenta, mas o Arnaldo está aqui. É uma pessoa incrível que se despede de uma carreira, mas não se despede da vida”.

Quem, com mais de 15 anos, que nunca riu com Rê Bordosa e Meia Oito (o revolucionário meio destrambelhado)? Acredita-se que a maioria riu, se divertiu e, eventualmente, até se instruiu.

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