Euler de França Belém
Euler de França Belém

Adversário de Bolsonaro é Lula e um postulante de centro e não Barroso, Moraes e o STF

O presidente parece entender que, neste momento, é preciso criar um “inimigo” para aglutinar suas bases e enfrentar o PT mais no campo social

Jair Messias Bolsonaro (sem partido) é, como gestor, errático. Aliás, é mais político do que administrador — daí ter terceirizado a economia para Paulo Guedes, a Infraestrutura para Tarcísio de Freitas e a Agricultura para Tereza Cristina, talvez os três melhores ministros do governo, em termos de eficiência e realismo. A arena política é operada pelo presidente, que agora conta com o apoio de um profissional, o senador Ciro Nogueira (Progressistas).

Pintura de Igor Morski | Foto: Reprodução

Se é um realista, por qual motivo Bolsonaro está brigando com o Supremo Tribunal Federal e não com Lula da Silva? Difícil saber o que realmente passa pela cabeça do presidente e de seus aliados, sobretudo daqueles que operam os chamados mictórios do ódio. É provável que pesquisas encomendadas pelo presidente indiquem algum ganho político.

A produção de um “inimigo”, a ser atacado com frequência, de algum modo parece manter os eleitores e apoiadores de Bolsonaro atentos e aglutinados. Um inimigo que, do ponto de vista das redes sociais, não tem como reagir à altura dos ataques — baixando o nível —, às vezes pode ser útil à política daquele que está atacando. Até por decoro, e em respeito às leis, ministros do Supremo reagem com elegância às diatribes do bolsonarismo. Podem até usar as leis para encurralar o presidente e, sobretudo, seus aliados, os supostos autores de uma ampla rede de fake news, mas não têm a mesma repercussão pública do que propaga o bolsonarismo.

De alguma maneira, por intuição ou por entender as regras da comunicação moderna, Bolsonaro, até por ser presidente, é uma máquina de produzir manchetes. Depois da derrota acachapante do voto impresso, ou auditável, na Câmara dos Deputados, no lugar de se recolher, partiu para o ataque, “editando” os títulos dos principais jornais do país. Manchetes de sábado, 14: “Após inquéritos e prisão do aliado Jefferson pelo STF, Bolsonaro diz que pedirá ao Senado ações contra Moraes e Barroso” (“O Globo”), “Bolsonaro diz que Barroso e Moraes ‘extrapolam limites constitucionais’ e pedirá ao Senado abertura de processos” (“Estadão”) e “Bolsonaro diz que pedirá ao Senado abertura de processo contra Barroso e Moraes” (“Folha de S. Paulo”).

Pintura de Igor Morski | Foto: Reprodução

Bolsonaro e os senadores sabem que o “pedido” — quase uma ordem — dará em nada. Porque os ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso seguem o rito da lei, não estão extrapolando. Por que então, sabendo que a solicitação não lhe trará resultado positivo, Bolsonaro permanece acossando o Supremo? Para manter seus aliados sob controle, dizendo-lhes que é preciso apoiá-lo no combate aos “inimigos solertes”? O objetivo talvez seja cristalizar a ideia de que é “vítima” de tudo e de todos, que não o deixam governar.

Se não é um trouxa — nenhum beócio se torna presidente da República —, Bolsonaro não teria de se preocupar com o “inimigo” real: Lula da Silva, o provável candidato do PT a presidente da República? Sim.

Mas não é tão simples assim. O segredo do “sucesso” político de Bolsonaro advém de desmoralizar instituições e pessoas — é o que atrai e une aliados, muitos cheios de ressentimento. Então, com Lula da Silva liderando as pesquisas de intenção de voto, o presidente decidiu que não é hora de atacá-lo frontalmente, exceto pelos flancos. O discurso do bolsonarismo sugere que não se acredita que o petista disputará o pleito de 2022, embora não haja nenhum empecilho para que ele se candidate. Daí, talvez, a escolha de um outro adversário, o Supremo.

Pintura de Igor Morski | Foto: Reprodução

Bolsonaro “ataca” Lula da Silva e o PT de outra maneira. O presidente começa a reformular os programas sociais — com o objetivo de conectá-lo ao povão, que lembra do petista como o presidente que melhorou a vida dos pobres, com o Bolsa Família, e ampliou o consumo das classes médias. O Brasil é o país das motocicletas e, ao isentá-los de pagar pedágio nas rodovias, Bolsonaro está jogando para a disputa eleitoral de 2022 — explorando um novo nicho de pessoas. Tenta “fidelizar” novos apoiadores.

Há, portanto, uma operação de contenção — de tentativa de contenção — da ascensão de Lula da Silva. Dará certo? O tempo dirá. A eleição será disputada daqui a um ano e um mês. Bolsonaro tem 13 meses para reformular seu governo, no campo social, para atrair um eleitorado que ainda não está definido e costuma definir o voto apenas a alguns dias — de 15 a 20 dias — das eleições.

Ao atrair Ciro Nogueira para o governo, Bolsonaro não está pensando mais em governabilidade, e sim em formatação de alianças políticas. O senador do Piauí é, acima de tudo, um hábil articulador político. O que se terá, para além do “orçamento secreto” — que só não é “ilegal” do ponto de vista do procurador-geral da República, Augusto Aras, que, apesar da competência e da seriedade, é visto por políticos como “bolsonarista” —, será uma gastança sem freios entre 2021 e outubro de 2022. A chegada do político do Nordeste à Casa Civil tem como objetivo tentar viabilizar bases eleitorais para Bolsonaro disputar a reeleição no próximo ano em melhores condições do que as atuais.

Pintura de Igor Morski

Em termos políticos, Bolsonaro está jogando “corretamente”? Não dá para saber, neste momento. Mas não está inerte. Sabe, por exemplo, que político, para se tornar vencedor, não pode provocar indiferença. É preciso “mesmerizar” os eleitores, para o bem ou para o mal. É preciso mantê-los conectados. Sobretudo, é preciso manter sob controle os eleitores que já o apoiam e, aos poucos, avançar sobre o eleitorado disperso — que não definiu em quem votar para presidente. Lula da Silva lidera e tem chance de ser eleito no primeiro turno, do ponto de vista da avaliação da circunstância. Mas o quadro atual pode não definir o quadro de outubro de 2022. Não há nada decidido.

O jogo de Bolsonaro pode dar certo, mas também pode resultar num desastre. Talvez ele devesse reduzir a pressão sobre o Supremo — que não é adversário eleitoral — e concentrar energia no confronto com Lula da Silva, seu principal adversário.

Ao se comportar como bárbaro em determinadas questões, como o combate à ciência e os ataques às instituições — democratas verdadeiros não atacam a Suprema Corte —, Bolsonaro pode perder eleitores nas classes médias e nas elites. Ao brigar com a China e ao não proteger a Amazônia, perde força internacional e, ao mesmo tempo, coloca empresários e banqueiros locais contra seu governo. O presidente parece acreditar que tais setores não têm influência, mas está enganado. Têm, e muita. A popularidade de Bolsonaro começou a ser corroída a partir do alto — das elites e das classes médias, que estão assustadas com o caráter errático de seu governo e, essencialmente, de sua fala anti-humanista.

Há outro “problema” (entre aspas porque, a rigor, ainda não é um problema) para Bolsonaro: até agora nenhum candidato de centro cresceu nas pesquisas de intenção de voto — o que indica que pode prevalecer a polarização entre o presidente e Lula da Silva. Mas, como a eleição não será disputada agora, se Bolsonaro continuar caindo, é alta a possibilidade de um postulante de centro, como o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (Democratas, a caminho do PSD), ascender e ameaçá-lo, ocupando o segundo lugar, deixando-o em terceiro, o que, em política, é o mesmo que último. Um nome de centro, se crescer de maneira consistente, representará um perigo tanto para Bolsonaro quanto para Lula da Silva.

Portanto, os adversários de fato de Bolsonaro são Lula da Silva, um político de centro e até mesmo um nome da direita como Sergio Moro (a caminho de se filiar ao Podemos). Talvez tenha chegado a hora de confrontá-los, sobretudo o petista, e deixar o Supremo de lado — adotando a postura de político democrata (sua vocação parece ser outra, a de ditador, mas ainda não é, e talvez não tenha a oportunidade de se tornar um).

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