Euler de França Belém
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Abdulrazak Gurnah não mereceu ganhar o Prêmio Nobel de Literatura?

A publicação e a leitura de sua obra, com matizações críticas, poderão justificar a láurea. Marcelo Coelho avalia, por um livro, que não merecia o Nobel

Abdulrazak Gurnah: Prêmio Nobel de Literatura de 2021 | Foto: Reprodução

Se um resenhista avaliar a obra de William Faulkner (1897-1962) pela trilogia Snopes (“O Povoado”, “A Cidade” e “A Mansão”) concluirá que se trata de um grande escritor, com pleno domínio da forma, mas certamente não o incluirá ao lado de Marcel Proust, James Joyce, Virginia Woolf e Guimarães Rosa. Para colocá-lo nesta lista de gigantes, é crucial lembrar que também é o autor de “Enquanto Agonizo”, “O Som e a Fúria”, “Absalão, Absalão!” e “Luz em Agosto”.

Mas um romance, ou um livro de contos, pode e deve ser analisado como obra autônoma, mesmo no que diz respeito a Faulkner, cujas histórias se conectam, como partes de uma mitologia geral a respeito do Sul dos Estados Unidos, com sua imensa e poderosa maldição — a escravidão, que, até hoje, é a matriz do racismo no país (recentemente, policiais arrancaram Clifford Owensby, um homem negro, à força de seu automóvel. O arrastaram pelos cabelos e o jogaram no chão. Não havia necessidade nenhuma disso, pois o jovem não estava resistindo, alertou que é paraplégico e chegou a avisar que iria chamar seu advogado).

O que não se deve, insista-se, é avaliar a obra, o conjunto, por um único livro, que, às vezes, pode ter sido um mau passo do escritor. Acrescente-se que livros que se tornaram referenciais, como “O Som e a Fúria” (espécie de resposta americana ao “Ulysses”, de Joyce) e “Enquanto Agonizo” — com suas múltiplas vozes, é uma ópera literária —, não podem levar o leitor a pensar que os demais romances de Faulkner, como “Absalão, Absalão!” e “Luz em Agosto”, são descartáveis.

O romance será publicado em 2022 pela Companhia das Letras

O “conjunto da obra” do escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah pode ser avaliado pelo romance “Gravel Heart”, de 2017? Difícil dizer, se, ao contrário da obra de Faulkner, não li todos os seus livros ou pelo menos os “principais”(na verdade, não li nenhum). A editora Difel, de Portugal, publicou o romance “Junto ao Mar” (“By the Sea”), de 2001. As editoras brasileiras haviam ignorado a obra do professor aposentado da Universidade de Kent, na Inglaterra. A boa notícia é que a Editora Companhia das Letras vai publicar quatro romances de Gurnah: “Afterlives” (2020), “Paradise” (1994), “By the Sea” e “Desertion” (2005). “Afterlivres” será lançado em 2022.

Ao ser anunciado como Prêmio Nobel de Literatura de 2021, há poucos dias, houve, por assim dizer, uma comoção nas redações. Aparentemente, ninguém havia lido nenhum livro de Gurnah. Na academia, o clima era de consternação, porque pouquíssimos sabiam de quem se tratava. Walter Porto, da “Folha de S. Paulo”, encontrou a professora Elena Brugioni, da Unicamp, que, tendo lido a obra do autor, pôde dizer: “Mais que a migração, o fio condutor da obra de Gurnah é a ideia de viagem, de itinerância. Ele faz um exercício de vaivém entre presente e passado para entender como os encontros e desencontros das personagens têm origem em questões históricas”. Pouco? Talvez. Mas demonstra leitura dos livros, e não apenas de reportagens e críticas que saíram na imprensa europeia e americana.

Elena Brugioni, mestre da Unicamp

Por que Gurnah ganhou o Nobel de Literatura? Segundo a Academia Sueca, ele foi laureado por sua “percepção intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino do refugiado no abismo entre culturas e continentes”. Na Inglaterra, deu aulas de Literatura Pós-Colonial.

Num artigo para “O Globo”, o escritor angolano José Eduardo Agualusa diz que, se a imprensa brasileira, europeia e americana mencionou Gurnah como “escritor africano negro”, “na África ninguém o vê assim. Gurnah nasceu no seio de uma família com raízes no Iêmen, tendo sido forçado a abandonar a sua ilha natal logo após a independência, na sequência de uma série de ataques à minoria de origem árabe por parte da maioria negra. Tornou-se refugiado, condição que se reflete em todos os livros que escreveu, precisamente por não ser visto como negro pelos seus compatriotas”.

José Eduardo Agualusa: polêmica em Moçambique e Angola

Em Moçambique, registra Agualusa, deu-se uma polêmica sobre Gurnah. O poeta e crítico literário Nelson Saúte pôs em questão a africanidade do nobelizado: “Gurnah nasceu em 1948 no antigo Sultanato de Zanzibar e de lá saiu aos 20 anos, tendo feito a sua vida e a sua carreira no Reino Unido. É um escritor britânico”. Freddie Mercury, também de Zanzibar, era um cantor africano? Agualusa faz um reparo: “A obra de Gurnah é africana”. A música de Fred Mercury, não.

O sociólogo Elísio Macamo, de Moçambique, propôs outra análise: a Academia Sueca não tem o hábito de “premiar a diferença, como pretende, e sim a proximidade” (a frase entre as aspas é uma síntese feita por Agualusa). “Estes prêmios não passam de gestos simbólicos que os europeus usam para não se interpelarem de forma profunda, como o deviam ter feito aquando da descolonização”, critica Macamo.

A justificativa para o prêmio irritou o escritor angolano João Melo e Macamo. O escritor, postulam, não é um etnógrafo de sua cultura. “Reivindico o meu direito de escrever sobre o que quiser e como quiser”, pontua João Melo.

O prêmio parece ter sido concedido porque a literatura de Gurnah revolve preocupações atuais, como a questão dos imigrantes refugiados que tantas discussões provocam na Europa, continente, apesar de certas resistências, mais acolhedor. O Nobel de Literatura e o Nobel da Paz de 2021 — que premiou dois jornalistas que combatem regimes de exceção, nas Filipinas e na Rússia — podem ser considerados como decorrentes de uma atitude política.

A leitura de Marcelo Coelho

Uma crítica ousada à literatura de Gurnah — a rigor, a apenas um de seus livros, “Gravel Heart” (“Coração de Cascalho”) —, no Brasil, é de autoria do jornalista e crítico Marcelo Coelho, da “Folha de S. Paulo”. É sugestivo o título de seu artigo: “Nada justifica Nobel de Literatura a Abdulrazak Gurnah pelo livro que li” (publicado na edição de 12 de outubro).

Marcelo Coelho, jornalista da “Folha de S. Paulo” | Foto: Reprodução

De novo, a questão: um romance define o conjunto da obra? Não, certamente. Porém, se mal escrito e mal formulado, põe em dúvida a qualidade literária de seu autor. A rigor, Marcelo Coelho não diz que “Gravel Heart”, o único livro que leu de Gurnah, define sua obra. O que postula é que, a se avaliar pelo romance, não merecia o Nobel.

De cara, Marcelo Coelho admite: antes do anúncio do Nobel, “não sabia nada de Gurnah”. “Zanzibar livrou-se do domínio britânico na década de 1960; um processo sangrento (entre 5.000 e 12 mil mortos) instalou ali a hegemonia soviética”, anota o crítico. “‘Gravel Heart’, ou coração de cascalho, romance de Gurnah publicado em 2017, trata dos efeitos desse acontecimento sobre a família do adolescente Salim, que é o narrador da história.”

O crítico da “Folha” sublinha que, “do ponto de vista literário, não encontrei nada ali que justificasse a concessão do Nobel. O texto é cheio de descrições genéricas, sem sinal de qualquer percepção própria da realidade”.

Segundo Marcelo Coelho, “tudo se assemelha a um relato rotineiro, ou a uma carta que somos obrigados a escrever para a família contando o que fizemos no mês passado”.

O analista sugere que “o interesse humano do livro provavelmente” foi “o que mais contou para a comissão do prêmio”. Portanto, frisa, “há mais o que comentar”.

“Em ‘Gravel Heart’, a arbitrariedade dos governantes se faz sentir apenas por suas consequências na família do protagonista. Um avô, erudito islâmico, foge para Dubai com a mulher e as filhas. Seu primogênito, sem muita profissão, teima em ficar na terra natal, e se recolhe numa revolta depressiva e silenciosa”, destaca Marcelo Coelho. “Salim, o filho dele, também não tem muito o que fazer da vida e acaba emigrando para a Inglaterra e vegeta na rotina de estudante relapso e trabalhador mal pago. O principal interesse de ‘Gravel Heart’ talvez seja o de mostrar personagens que ficam no meio do caminho entre o imigrante e o refugiado político”.

Faltou à crítica de Marcelo Coelho um exame detido da prosa de Gurnah, explicando se há inovação na linguagem, se é tributária de algum outro prosador, se há originalidade. Ou se é um mero narrador tradicional (e há autores tradicionais de qualidade). Quanto à abordagem do tema, o mundo do imigrante-refugiado político, talvez — e a palavra talvez aqui é decisiva — Gurnah quis mostrar como sua imaginação o percebe ou como realmente é. Aquilo que é “insosso” possivelmente incomoda nossa sensibilidade contemporânea — que “exige” agitação, movimento, grandes acontecimentos.

Sobre o autor da Tanzânia — e, de algum modo, da Inglaterra, onde vive há anos —, pode-se sugerir que sua obra está em andamento? Como tem quase 73 anos (completa em dezembro), é difícil responder “sim”. Mas saudável, e dada sua rigorosa e densa formação intelectual, é provável que ainda dê aos seus leitores mais obras de qualidade. O importante do Nobel é que sua obra poderá ser lida e discutida em todo o mundo — o que, com ele vivo, poderá ajudá-lo a continuar no mesmo caminho ou repensar sua literatura.

Ainda sobre a crítica, e não exatamente à de Marcelo Coelho — que é meramente preliminar; um artigo de jornal, com tese a ser revista ou reafirmada, adiante —, o que se precisa é de (mais) tempo para assimilar a obra de Gurnah. Análises mais densas da obra — de um romance ou de toda a prosa — serão úteis para entender inclusive o “lugar” (e sua especificidade) da literatura do autor tanzaniano na literatura africana, europeia e global.

Toni Morrison

Toni Morrison: notável escritora dos Estados Unidos | Foto: Reprodução

A norte-americana Toni Morrison (1931-2019), autora das obras-primas “A Canção de Solomon” e “Amada”, era lida e respeitada antes do Nobel de Literatura. Mas se tornou conhecida globalmente depois do prêmio, altamente merecido. Ela foi laureada por ser negra? Não dá para saber.

O que importa mesmo é que escreveu obras relevantes e, a rigor, menos militantes do que postulam alguns críticos, como Harold Bloom, admirador de “A Canção de Solomon”. E há obras engajadas, politicamente, que não são meros panfletos.

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