Euler de França Belém
Euler de França Belém

A verdadeira história do mapa que “revela” que Hitler pretendia conquistar o Brasil

Pelo mapa, o líder nazista planejava criar cinco Estados vassalos na América Latina. A história envolve a espionagem britânica

O mapa secreto “de” Hitler que anunciava a conquista da América Latina | Fotos: Reproduções

O repórter Israel Viana, do jornal espanhol “Abc”, publicou, na edição de 18 de janeiro deste ano, a reportagem “El mistério del mapa secreto con el que Hitler iba a conquistar América e dividirla en Estados nazis”.

Em 27 de maio de 1941, quando os Estados Unidos ainda não estavam envolvidos diretamente na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) falou numa “emergência nacional ilimitada”. “Me limito a repetir o que já está escrito no livro [cartilha] nazista da conquista do mundo. Eles planejam tratar as nações latino-americanas tal como tratam hoje aos Balcãs. Logo, planejam estrangular os Estados Unidos”, disse o criador do New Deal.

De fato, em 1941, a política expansionista de Hitler estava a todo vapor. Ele já havia invadido a Áustria (“anexada”, dizia-se), em 1938, a Tchecoslováquia, em março de 1939, a Polônia, em setembro de 1939 (quando estourou a guerra), e a França, em 1940. Conquistadas a Inglaterra e a União Soviética — que chegou a ser invadida mas resistiu bravamente —, o passo seguinte poderia bem ser as Américas, do Brasil aos Estados Unidos.

Já em 1936, numa aliança com a Itália de Benito Mussolini (1883-1944) — nascia, assim, o eixo Roma-Berlim —, a Alemanha de Adolf Hitler (1889-1945) enviou aviões e homens para ajudar o fascista Francisco Franco na luta contra os republicanos (comunistas, socialistas, anarquistas e democratas) na Espanha. A Legião Condor atuou fortemente na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). No país de Federico García Lorca (1898-1936), os alemães treinaram homens e testaram armas e aviões. Era uma preliminar do que os nazistas pretendiam fazer em outros países da Europa que resistissem ao seu poderio.

Stálin, Franklin Roosevelt e Winston Churchill | Foto: Reprodução

A “teoria” do espaço vital — Lebensraum — não tinha a ver apenas com o controle da Europa? (Por sinal , veja-se o caso da Ucrânia de Gógol, hoje em crise com a Rússia. As terras negras da Ucrânia, tremendamente férteis, interessavam a Hitler e aos demais nazistas.)

A América Latina realmente interessava a Hitler, sobretudo por causa da quantidade de alemães que moravam na região. “Por esse motivo, a organização política dos alemães no exterior passou a ser uma tarefa prioritária” do governo alemão. Pretendia-se fortalecer os braços do Partido Nazista no exterior. “Foi tal o esforço de tempo e dinheiro realizado pelo Terceiro Reich para recrutar colonos para trabalhar na causa do Führer que Roosevelt se convenceu de que os nazistas queriam dominar o mundo inteiro”, assinala o “Abc”.

Em outubro de 1941, depois de submarinos alemães terem afundado um navio americano, Roosevelt concluiu que “as ameaças eram muito maiores do que havia” pensado inicialmente. O presidente dos Steites disse: “Estou de posse de um mapa secreto elaborado na Alemanha pelo governo de Hitler, pelos planejadores da nova ordem mundial. É um mapa da América do Sul e de parte da América Central — tal como Hitler se propõe a reorganizá-las”.

Roosevelt completou: “Hoje, nesta área há 14 países distintos. Os geógrafos especializados de Berlim desenharam, inexoravelmente, todas as fronteiras existentes. Dividiram [no mapa] a América do Sul em cinco Estados vassalos, pretendendo submeter todo o continente”. O presidente disse que Hitler planejava também o controle da República do Panamá e sua grande via de comunicação, o canal. “Este é o plano. Nunca deixarei que seja colocado em prática”, advertiu o presidente (eleito para quatro mandatos conecutivos).

Os historiadores Jorge Camarasa e Carlos Basso Prieto, no livro “América Nazi” (Aguilar, 296 páginas, inédito em português), de 2014, relatam que o mapa mostra a “América Latina dividida em cinco territórios: Argentina (abarcava também Uruguai, Paraguai e parte da Bolívia), Chile (incluindo Peru, Equador e o oeste da Bolívia), ‘Nueva España’ (que fundia Colômbia, Venezuela e Panamá), Guiana (permanecia intacta) e Brasil (que somava ao seu território o restante da Bolívia, incluindo sua capital, La Paz)”.

No livro “Inimigos — Uma História do FBI” (Record, 616 páginas, tradução de Alessandra Bonrruquer), Tim Weiner escreve que “o mapa havia sido entregue ao chefe do Escritório de Serviços Estratégicos norte-americano, William Donovan, por membros da Inteligência britânica”.

William Stephenson, o Intrépido, teria forjado o mapa | Foto: Reprodução

Os agentes ingleses “asseguraram tê-lo roubado de um agente nazista no Rio de Janeiro, mas na realidade o haviam falsificado para precipitar a entrada dos Estados Unidos na guerra europeia. Entretanto, a artimanha permaneceu em segredo durante décadas”.

O governo de Hitler contestou a veracidade do “documento”. Porém, a negativa não deu resultado algum. Porque, pouco depois, em dezembro de 1941, os japoneses atacaram Pearl Harbor e os Estados Unidos entraram na guerra, primeiro com o Japão e, logo em seguida, contra a Alemanha (que declarou guerra à nação de Roosevelt).

Por causa da guerra, na qual lutaram britânicos, americanos, soviéticos, franceses, poloneses — e brasileiros (25 mil lutaram na Itália — deles 111 eram goianos, com Aldemar Ferrugem e Benvindo Belém de Lima, goiano homenageado com nome de uma bela rua em Belo Horizonte) —, a história do mapa foi momentaneamente esquecida.

Josef Mengele morou e morreu no Brasil | Foto: Reprodução

Porém, décadas depois, ao estudar os arquivos de Roosevelt, o historiador Nick Cull, da Universidade do Sul da Califórnia, concluiu que, além de falso, o mapa havia sido forjado pelos britânicos, e não pelos nazistas. William Stephenson, o Intrépido, canadense a serviço da espionagem da Inglaterra, seria o principal responsável pela elaboração do mapa.

“O plano inicial”, anota o “Abc”, “era deixá-lo em algum lugar meticulosamente escolhido para que o FBI o descobrisse, mas finalmente decidiram entregá-lo diretamente ao FBI assegurando que havia sido encontrado num depósito nazista. O objetivo era retirar os Estados Unidos de sua neutralidade, e é provável que tenha influenciado, de alguma maneira, à luz dos acontecimentos”.

Ressalve-se que Nick Cull postula que Roosevelt “suspeitava” da história do mapa. “De fato, no manuscrito original do discurso de outubro de 1941, o presidente escreveu: ‘Um mapa de indubitável autenticidade’. Porém logo ‘riscou’ e substituiu essas palavras por ‘um mapa secreto’.”

Gustav Wagner: nazista que se radicou no Brasil | Foto: Reprodução

O fato de o mapa ser falso, uma fabricação britânica para engrupir os americanos — que relutavam em participar da guerra (Roosevelt queria entrar na luta, mas, de olho na opinião pública e na força do Congresso, que eram isolacionistas, estava com as mãos “atadas”) —, não significa que os nazistas de Hitler não tinham interesse na América Latina.

Os nazistas operavam, em certa medida, com alemães que moravam no Brasil (alguns, entre eles Curt Meyer-Clason, o tradutor de Guimarães Rosa, espionaram para a Alemanha; até o poeta cearense Gerardo Mello Mourão foi recrutado). “Em 1937, a filial no Chile do Partido Nazista contava com cerca de mil militantes; no Brasil, com 2.903, e na Argentina, com mais de 1.500. Ademais, desde o princípio dos anos 1930, em todos os países do continente existiam ligas juvenis alemãs, organizações de escolas alemães e enormes quantidades de dinheiro destinadas à propaganda pró-nazista”. Porém, no Brasil, onde havia certo entusiasmo com o nazismo por parte de alguns membros do governo de Getúlio Vargas, como Filinto Müller e o general Eurico Gaspar Dutra, os alemães começaram a ser enquadrados e, até, perseguidos assim que o país passou para o lado dos Aliados.

Stanislaw “Shlomo” Szmajzner, judeu polonês: como partisan russo, ainda adolescente, e em Goiânia, onde morou durante anos

Israel Viana mota que “a América do Sul se converteu durante e depois da Segunda Guerra Mundial no refúgio perfeito para um sinistro grupo de personalidades nazistas. Uma grande quantidade de cientistas, técnicos, ideólogos, oficiais e burocratas que escapou de seus perseguidores” na Europa “encontrou no continente” sul-americano “sua ‘terra prometida’. Assassinos como Josef Mengele [que morreu em Bertioga, em São Paulo, em 1979], Klaus Barbie, Adolf Eichmann [capturado pelo Mossad na Argentina], Whalter Rauff, Fritz Schwend, Herbert Cuckurs, Franz Stangl, Alfons Sassen e Hand Rudel, entre vários outros, se mudaram para cidades importantes e áreas rurais para escapar da pena de morte ou da prisão perpétua”. Um deles, Gustav Wagner, foi preso no Brasil e reconhecido por Stanislaw Szmajzner, um sobrevivente do campo de extermínio de Sóbibor, na Polônia.

Stanislaw Szmajzner mudou-se para Goiás, depois de receber convite de Pedro Ludovico Teixeira, o criador da atual capital goiana. Há poucos dias, integrantes de uma rede de televisão da Alemanha estiveram em Goiânia em busca de informações sobre o judeu que escapou adolescente de Sóbibor e foi entrevistado na capital goiana pela jornalista e historiadora austríaca Gitta Sereny. Entre os pesquisadores e cineastas alemães estava o jornalista Martin Kaul, que havia lido informações sobre “Shlomo” no Jornal Opção (que publicou uma série de textos a respeito). Martin Kaul, que morou no Brasil, fala um português enviesado, mas compreensível. Ele me chama de “Eula”, e não de “Óiler”.

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