Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

A tragédia da “opinião de internet” na execução de Bruno e Dom

Não havia nada de “aventura não recomendável” no que faziam. Na verdade, outros substantivos e adjetivos devem ser utilizados no lugar da expressão

Indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips | Foto: TV Globo/Reprodução

Tragédias humanas como a que vitimou o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips acabam por servir como um divisor de águas para reflexões sobre questões básicas. Uma delas é a “opinião de internet”: de um lado, aqueles que percorrem as lagoas rasas das platitudes e dos julgamentos fáceis; do outro, os que não hesitam em mergulhar e, a partir dessa ação, formar seu próprio conceito.

De um lado estão os que não entenderam “tanta preocupação” com duas pessoas desaparecidas enquanto tantos outros somem todo dia Brasil afora. Essas são puxadas pelo pensamento simplista que caracteriza, tanto culposa como dolosamente, o bolsonarismo que assola estas terras e as assolará ainda por muito tempo, mesmo que seu líder já esteja longe do poder. Do outro lado, estão os que se indignam com os primeiros.

Quem simplesmente não consegue ultrapassar a camada superficial do caso de execução, com requintes de crueldade, de dois profissionais da Amazônia no transcorrer de seu trabalho, precisaria, sim, se houvesse bom senso e empatia, buscar mais conhecimento. Talvez, até mais ainda, um autoconhecimento: de que são formadas minhas próprias opiniões? Em que fonte eu bebo para tecer comentários a respeito de assuntos complexos?

Vale para tudo, mas principalmente para temas delicados e tão complexos como a vida e morte de duas pessoas que não precisariam estar onde estavam, sob um consciente risco de que acabaram sendo vítimas, mas cumpriam um ofício que assumiram por vocação e cujo alcance se mostrou tão altruísta quanto estratégico.

Se assim procedesse o internauta, leitor ou espectador interessado pelo assunto, entenderia rapidamente por que o desaparecimento de Dom e Bruno não era apenas um caso a mais na lista de dezenas de milhares que ocorrem por ano em um país continental como o Brasil.

Bastaria um filtro básico, para começar a destravar o processo: quantas de tais ocorrências se dão com pessoas envolvidas em causas que opõem o direito de populações excluídas e marginalizadas por séculos e séculos ao poder paralelo econômico de um Estado paralelo que ousa cada vez mais tomar conta do território de um negligente – e, no governo atual, também conivente – Estado oficial?

São muitas também as camadas das trajetórias de Bruno e Dom e elas são interessantíssimas em riqueza humana. Bruno Pereira era um servidor de carreira da Fundação Nacional do Índio (Funai) e foi coordenador regional da Funai em Atalaia do Norte (AM) – justamente na área onde ele foi visto pela última vez. Ele saiu do cargo em 2016, durante um intenso conflito registrado entre povos isolados da região.

Em 2018, o indigenista tornou-se chefe da Coordenação Geral de Indígenas Isolados e de Recente Contato. Foi ocupando o cargo que comandou a maior expedição dos últimos 20 anos para encontrar índios isolados. Teve a parceria do jornalista inglês free-lancer Dom Phillips, que fez uma extensa reportagem para o The Guardian, jornal britânico para o qual trabalhava em matérias especiais. O resultado final do trabalho foi exibido com destaque no Fantástico.

O trabalho de Bruno admirado por aqueles a quem servia, especialmente as comunidades indígenas. Mesmo assim – ou até por isso –, foi retirado do cargo na gestão de Jair Bolsonaro (PL) em outubro de 2019, sem motivos técnicos aparentes. Sua exoneração do cargo foi assinada pela Secretaria-Executiva do Ministério da Justiça e Segurança Pública, então comandado pelo ex-juiz Sergio Moro.

Numa carta aberta divulgada após a saída dele da função, 14 indigenistas repudiaram o ato, o colocando como “plenamente qualificado” para as funções e afirmando que a exoneração era um “retrocesso histórico” da política pública para proteção dos povos indígenas isolados.

Insatisfeito com as dificuldades que passou a ter para atuar na Funai, que sofria pressão de superiores, ele decidiu trabalhar diretamente com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), uma organização não governamental, pedindo licença não remunerada do serviço público federal. Em suma, Bruno resolveu se licenciar da Funai por não suportar o que o órgão havia se tornado na nova gestão.

Bruno era uma figura pública na região, com uma capacidade muito forte de mobilizar os órgãos públicos para fazer operações. Isso é testemunhado por quem morava na região e foi assim que seu trabalho também se tornou empecilho a interesses nada republicanos de outros grupos.

O jornalista Dom Phillips era um correspondente experiente que trabalhava para grandes jornais do Reino Unido e dos EUA e que estava no País há 15 anos, casado com uma brasileira. Sua especialidade eram histórias profundas sobre grupos vulneráveis em lugares de difícil acesso na Amazônia. Não era um amalucado no meio da floresta, portanto.

Quem chegou até aqui neste texto um tanto longo para o padrão médio de leitura online talvez tenha conseguido avançar algumas camadas no que sabia sobre as histórias de Bruno e Dom. Não havia nada de “aventura não recomendável” no que faziam. A bem da verdade, outros substantivos e adjetivos devem ser utilizados no lugar da expressão. O que fizeram foi um “trabalho necessário”, uma “expedição em condições adversas”, uma “missão corajosa”.

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