Euler de França Belém
Euler de França Belém

A soprano Bidú Sayão, a Elis Regina do canto lírico, ganha biografia de qualidade

Bancada pelo maestro italiano Arturo Toscanini, a cantora brasileira se tornou a rainha do Metropolitan, nos Estados Unidos. A carioca fez sucesso também na Europa

A cantora Bidú Sayão (1904-1999) merece uma biografia exaustiva, o que ainda não se tem. Espécie de Elis Regina (ou Carmen Miranda) da música lírica, sua arte e sua vida precisam ser mais bem estudadas, para além da hagiografia. A soprano, que fez sucesso tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, ganha, finalmente, uma biografia, que, se não é ampla e nuançada — o autor às vezes parece se comportar como fã (felizmente, esclarecido) —, é reveladora e aproxima a brasileira de uma autêntica prima donna. “Bidú Sayão — Paixão e Determinação” (Francisco Alves, 222 páginas, tradução de Marina Parreiras Horta Alvarez), de Dennis Allan Daniel, é, ainda que lacunar, um livro importante e esclarecedor.

O autor começa por estabelecer a verdadeira a data de nascimento de Balduína de Oliveira Sayão, que, não gostando do nome, se chamava de Bidú, como a avó. A cantora nasceu em 11 de maio de 1904 (a certidão de nascimento figura no livro), e não em 1906, ao contrário do que propagava, para se dizer mais jovem. Nasceu no Rio de Janeiro, na Praça Tiradentes, nº 36. O pai, Pedro Luiz de Oliveira, morreu quando ela tinha 5 anos, possivelmente de meningite. Com receio de contaminação, a mãe, Maria José Teixeira da Costa, decidiu educá-la em casa. O tio Alberto Teixeira da Costa, que tocava piano, sugeriu, quando a menina tinha 11 anos, que se tornasse cantora. Mas ela queria ser atriz de cinema. Só que a família não queria que fosse atriz, pois, na época, não era de muito bom tom; então Alberto convenceu-a a estudar música — canto.

Alberto escreveu canções, como “O coração tem dois lados”, e incentivou Bidú, de 12 anos, a cantá-las. Uma amiga da adolescente, Germana Mallet-Jacques, avisou-a de que a soprano romena Helena Theodorini dava aulas de música.

Em um ano, Helena Theodorini começou a se empolgar com a cantora. Bidú queria “aumentar o volume de sua voz” e “aprender o máximo possível das técnicas de canto”. Depois de quatro anos, se tornou “a melhor aluna” da mestre.

Helena Theodorini, que estava voltando para a Romênia, recomendou que Bidú se mudasse para a Europa para estudar canto. A professora ensinou-lhe canções em romeno, pois pretendia apresentar a cantora de 16 anos à rainha Maria da Romênia. Mesmerizada com a voz suave da brasileira, a aristocrata convidou-a a cantar numa recepção para o príncipe Hirohito, que, mais tarde, seria imperador do Japão. A plateia ficou entusiasmada, inclusive com o fato de a artista cantar em romeno.

Bidú Sayão, como Violeta em “La Traviata” | Foto: Metropolitan Opera Archives

Da Romênia, Bidu e a mãe seguiram para Paris. Entretanto, em Istambul, foram detidas por causa do excesso de casacos de pele e joias. Sugeria contrabando. Bidú cantou para os funcionários da alfândega, que, convencidos de que se tratava de uma grande cantora, liberaram as duas.

A grande cantora “nasce” na Itália

Em Paris, Bidú procurou o professor de música Jean de Reszke (1850-1925). O italiano Enrico Caruso o suplantou, mas antes o polonês era “o tenor mais famoso do mundo”. A jovem teve de “implorar” para ser aceita como sua aluna.

Aos 17 anos, depois de um ano e meio de estudos rigorosos, Reszke decidiu que era o momento de Bidú ser preparada para interpretar Julieta na ópera “Roméo et Julliette”. Três a quatro anos depois, poderia “cantar o papel principal na França”. No teatro Opéra de Paris, ao cantar a ópera de Gounod, a jovem encantou a plateia e a crítica a elogiou.

Exigente, Reszke havia conseguido prepará-la, de maneira adequada. “Ensinou-lhe técnicas de interpretação, de movimento corporal, de cortesias sociais e a compreensão psicológica dos personagens que ela viria a interpretar.” Cantar bem é essencial, mas “adornar” o canto com uma interpretação precisa, como cantora-atriz, às vezes é crucial para o sucesso de uma ópera.

Na Itália, Bidú, aos 20 anos, procurou a cantora Emma Carelli, gerente do Teatro Constanzi, o maior de Roma. Mesmo percebendo suas limitações, a italiana decidiu dar-lhe a chance “de representar o papel de Rosina na ópera de Rossini, ‘O Barbeiro de Sevilha’”.

Com a cara e a coragem, além de alguns estudos, subiu ao palco e cantou. Tinha 22 anos. Mesmo exigentes, os críticos de ópera italianos a avaliaram positivamente. “O crítico do ‘Corriere d’Italia’ chegou a afirmar que o desempenho excelente de Bidú como Rosina ‘mostrou que tem total comando da verdadeira arte do canto’.”

Aprovada, interpretou a personagem Rosina, de “O Barbeiro de Servila”, durante “uma temporada completa”. Foi seu primeiro papel numa ópera.

Em Lisboa, cantou no Teatro Nacional de São Carlos, em 1928. De volta ao Rio de Janeiro, interpretou “O Barbeiro de Sevilha”, “Rigoletto” e “O Matrimônio Secreto”. Até o crítico Oscar Guanabarino, que avaliava sua voz como “pequena”, não lhe desancou.

De volta à Itália, cantou no Teatro Constanzi e tomou a decisão de ampliar “seu conhecimento de canto lírico”. No Teatro Reale dell’Opera, fez o papel principal em “‘O Matrimônio Secreto’, a primeira ópera a ser apresentada no novo teatro”.

Fã da brasileira, Benito Mussolini exigiu que, numa recepção ao príncipe Alberto, da Itália, e à princesa Maria José, da Bélgica, Bidú representasse o papel principal na ópera “Don Pasquale”. Desafiando o governante fascista, o comitê organizador disse que só “artistas italianos poderiam participar da ópera”. O duce se impôs e a soprano, interpretando Norina, brilhou.

Numa homenagem a Vincenzo Bellini (1801-1835), em Palermo e Catânia, Bidú cantou as óperas “I Puritani” e “La Sonnambula”. “Depois do sucesso de suas apresentações nas duas óperas de Bellini, Bidú passou a ser reconhecida na Europa como uma soprano de alto nível”, conta Dennis Daniel. “Il Popolo di Roma” disse da cantora: “Bidú Sayão pode alcançar a nota que quiser, tal é sua capacidade vocálica”.

Portanto, como grande cantora lírica, Bidú nasceu na Itália. E sem receber qualquer incentivo financeiro do governo brasileiro. “Bidú ganhou fama e reconhecimento na Europa como nenhuma outra cantora brasileira jamais tivera antes, nem teve depois”, assinala Dennis Daniel.

Beniamino Gigli e Giuseppe Danise

Mesmo de olho no mercado americano, Bidú decidiu passar uma temporada no Brasil. “Em sua primeira ópera no Rio de Janeiro, no Theatro Municipal, cantou ‘O Barbeiro de Sevilha’, seguida de ‘Rigoletto’ e ‘O Matrimônio Secreto’”. O público aprovou, mas parte da crítica torceu o nariz.

De novo em Roma, fez sucesso como Gilda em “Rigoletto”. “Assinou um contrato histórico com o Teatro Reale dell’Opera e cantou em Florença e Nápoles, com críticas excelentes”, informa Dennis Daniel.

Em 1928, agora casada com o empresário italiano Walter Mocchi, apresenta-se no Brasil e na Argentina, no Teatro Colón. “Com enorme sucesso”, diz o biógrafo.

Em 1929, “apresentou-se no papel de Manon pela primeira vez no Theatro Municipal”, no Rio. Em Roma, no Teatro Reale dell’Opera, alcança um imenso sucesso na ópera “Matrimônio Secreto”.

Ao lado da pianista Guiomar Novaes, apresentou-se, em 1930, no Theatro Municipal, no Rio. A dupla agradou ao público.

Nos dois anos seguinte, Bidú cantou e encantou plateias de Paris.

Em São Paulo, em 1933, cantou com o célebre tenor Beniamino Gigli. Em Recife, em 1935, cantou com o barítono italiano Giuseppe Danise.

A parceria com Arturo Toscanini

O maestro (e violoncelista) italiano Arturo Toscanini (1867-1957) convidou Bidú para cantar no Carnegie Hall, em 1936. Em seguida, o que reforçou sua fama, o Metropolitan decidiu contratá-la.

Em Nova York, Toscanini, exigente, procurava uma cantora para a ópera “La Damoiselle Elue”, de Claude Debussy. Bidú, fluente em francês, decidiu se candidatar à vaga. Nenhuma artista havia agradado ao maestro. Pois, ao ouvir a brasileira, o italiano quedou-se encantado. O italiano regeu a Sociedade Filarmônica e Sinfônica de Nova York, no Carnegie Hall, com Bidú cantando a música do compositor francês.

Bidú Sayão e o maestro italiano Arturo Toscanini (de chapéu), mestre da brasileira | Foto: Arquivo da Universidade Princeton

A crítica de Nova York aprovou, em 1937, no Metropolitan, Bidú no papel de Manon, de Massenet. O crítico Olin Downes, de Nova York, louvou-a: “A srta. Sayão triunfou da forma como uma Manon deveria triunfar, com educação, jovialidade e charme, e também pela maneira como fez de sua voz um veículo de expressão dramática”. Aos 34 anos, em 1938, foi recebida, na Casa Branca, pelo presidente Franklin Delano Roosevelt. Havia se tornado ídolo nos Estados Unidos.

O “New York Times”, que mantinha crítico especializado em música lírica, publicou, em 1939, sobre Bidú: “Ela não demorou a mostrar os méritos de sua arte. Sua voz possui doçura, delicadeza e suavidades pronunciadas. Sua escala é excepcionalmente uniforme durante todo o compasso e alcança o Mi bemol mais agudo. Além da suavidade, a técnica vocal da srta. Sayão tem absoluto comando do legato delicado e muito acima da média da flexibilidade e agilidade”.

No Brasil, em 1940, Bidu canta com o tenor italiano Tito Schipa (1888-1965), dirigidos por Toscanini. Em pleno Estado Novo, uma ditadura, nacionalistas começam a criticá-la. O sucesso no exterior não os agradava.

Procópio Ferreira, Bidú Sayão e o cantor Tito Schipa | Foto: Arquivo Museu Villa-Lobos

Mas, se o Brasil a rejeitava, avaliando-a como “americanizada” — fizeram o mesmo com Carmen Miranda —, os Estados Unidos estavam apaixonados pela soprano, de voz entre o “veludo e a seda”. “Em 1941, Bidú novamente conquista o Metropolitan e se torna a principal estrela no mundo da ópera.” Por onde passa, de São Francisco a Chicago, além de Nova York, é saudada como uma diva poderosa.

Separada de Walter Mocchi, que se revelara um escroque, Bidú casa-se com o barítono Giuseppe Danise. “Em 1947, Bidú comemora dez anos com o Metropolitan”, registra Dennis Daniel.

Elegante, Dennis Daniel não é dado a mexericos. Porém, Toscanini e Bidú foram amantes? “Não já qualquer evidência ou referência da existência desse relacionamento.” O maestro era, de fato, muito namorador. A cantora o admirava e o via como “gênio”.

Rainha do Metropolitan Opera House

A fama internacional de Bidú se deve, em larga medida, às suas atuações no Metropolitan. Sob a proteção de Toscanini, que soube perceber a força de sua voz, pequena que fosse, a soprano patropi substituiu Lucrezia Bori no Met. Valeu-lhe saber, muito bem, a língua francesa.

Bidú Sayão e a soprano Maria Lúcia Godoy | Foto: Acervo Maria Lúcia Godoy

No início, o administrador do Metropolitan, Edward Johnson, ao ouvi-la, avaliou que Bidú “tinha uma voz muito pequena para o” Met. Toscanini pediu que a diretoria desse uma chance à soprano. Dada sua estatura de maestro acima da média, uma lenda vida, o conselho foi aceito e a cantora assinou um contrato.

Aos poucos, tanto pela voz esplêndida quanto pelo profissionalismo, Bidu se tornou “a principal soprano lírica do Metropolitan” — o que a tornou famosa em todo o mundo.

Dennis Daniel recolhe, de maneira meticulosa, as principais críticas à cantora Bidú Sayão. Algumas são entusiasmadas, embora, no geral, técnicas.

Bidú foi a rainha da ópera por 15 anos no Metropolitan. “Ela cantou em mais de 200 apresentações no Metropolitan, que incluíram encenar 12 papéis diferentes.” A soprano perdeu espaço quando Rudolf Bing assumiu o cargo de administrador do Met. “Ele não gostava de mim”, sintetizou Bidú. O embaixador brasileiro Maurício Nabuco chegou a escrever-lhe uma carta cobrando apoio à cantora, mas de nada adiantou.

Dennis Daniel afirma que, a partir do que disse a crítica especializada, Bidú Sayão “merece ser considerada como uma das maiores, senão a maior prima donna que já cantou no Metropolitan Opera House”. “A pequena [tinha 1,62m] soprano brasileira nasceu com uma voz particularmente pura e acetinada e com um suprimento inesgotável de charme. (…) Bidú Sayão brilha como um campo de gotas de orvalho ao relento”, escreveu, no “Chicago Daily News”, o crítico Eugene Stinson.

O cantor sueco Jussi Björling

Bidú cantou com vários cantores, mas apreciava particularmente o sueco Jussi Björling. “Ele modulava a sua voz de acordo com a minha, de maneira que os nossos duetos em ‘Romeu e Julieta’ e ‘La Bohème’ tinham sempre uma melodia incrível. Era um colega extraordinário”, disse a soprano.

O crítico Howard Taubman, do “New York Times”, anotou: “O Metropolitan tem, em Bidú Sayão e Jussi Björling, cantores que possuem tanto as vozes quanto o estilo lírico necessários para a música de Puccini; e ‘La Bohème’ necessita de artistas como estes, para alcançar seu brilho sentimental. A srta. Sayão, que atua e canta com um ar sutil e polido que vela pela arte, é uma Mimi frágil, terna, com uma voz doce”.

Edward O’Gorman, do “New York Post”, escreveu: “Como é linda essa voz, e como a srta. Sayão a usa hábil e artisticamente. O Metropolitan não tem nada que se compare a ela”. O crítico estava se referindo à interpretação de Bidú em “Rigoletto”. Publica-se aqui apenas um trecho da crítica, mais ampla no livro.

Bidú Sayão com o cantor sueco Jussi Björling | Foto: Mary Evans

“The Mirror”, pela pena de Raymond Kendall, assinala: “A Mimi [“La Bohème”] de Bidú Sayão deixou pouco a desejar em termos de voz. Até sua caracterização parecia mais imaginativa do que o normal”.

Dennis Daniel observa que algumas críticas se referiam à “pequena voz” de Bidú, mas não como defeito. “Bidú era elogiada e admirada com grande frequência e entusiasmo por suas apresentações como um todo, incluindo sua atuação, delicadeza, graça, charme, beleza, sensibilidade, elegância, técnica de canto, inteligência de palco, entusiasmo, paixão e emoção.”

Falta de sorte no amor e Villa-Lobos

Se obteve sucesso na música, no amor Bidú não se deu bem. Casou-se com dois homens mais velhos, os italianos Walter Mocchi e Giuseppe “Peppino” Danise (este, exigente, ajudou-a muito). Dava-se bem com Giuseppe Danise, que era cantor, mas não se tratava de amor (quando ele morreu, ficou deprimida). Ela própria admitiu que buscava, nos homens mais velhos, a figura do pai que perdeu muito cedo. Segundo o biógrafo, “o único e verdadeiro amor de Bidú foi por sua mãe”. Provavelmente por causa da carreira, não teve filhos.

Lorenzo Fernandez, Bidú Sayão e Villas-Lobos | Foto: Museu Villa-Lobos

Ao conhecer Bidú, de 45 anos, o compositor Heitor Villa-Lobos tinha 60 anos. “A química entre eles foi imediata”, postula Dennis Daniel.

“Ela já havia ouvido suas composições, lindas, mas difíceis para o canto soprano”, frisa Dennis Daniel. “Mas Bidú foi a mais importante intérprete de suas canções, que eram escritas em um idioma clássico e influenciadas por Wagner, Puccini e, em especial, por Bach; este último foi a principal inspiração de Villa-Lobos para as ‘Bachianas Brasileiras’, composições em homenagem a Bach, sendo a mais famosa a de nº 5. As ‘Bachianas Brasileiras nº 5’ tornaram-se o maior sucesso mundial das carreiras tanto de Villa-Lobos quanto de Bidú. A gravação da sinfonia ‘A Floresta do Amazonas’, em 1959, ocorrida em Nova York, no Hotel Manhattan Towers, marcou a última apresentação conjunta desses dois gigantes da música brasileira.”

Maria Callas, Lucia Albanesi e Bidú Sayão. A brasileira disse: “Callas foi um talento fantástico. Mas é espantoso que a carreira dela durou pouco mais de dez anos” | Foto: Reprodução

Villas-Lobos e Bidú Sayão tiveram, afinal, um caso? Dennis Daniel é lacônico: “A intimidade e o relacionamento amoroso dos dois artistas, neste último encontro, foi evidente”. O fato é que os dois se adoravam, e, em tese, não apenas em termos artísticos. O compositor se referiu a ela, numa fotografia que lhe dedicou, como “meu violino humano”. Estava falando do corpo da cantora? A versão do biógrafo: “A referência ao instrumento se prende à capacidade que Bidú possuía de cantar uma parte específica das ‘Bachianas Brasileiras nº 5’ sem a letra, apenas com a boca fechada, sua voz soprano ressonando dentro da cavidade bucal como se saísse pela nariz, uma técnica conhecida como ‘bocca chiusa’”. Inicialmente, Villas-Lobos avaliou que, como “havia composto a música para o violoncelo¹ e não para a voz humana”, Bidú não seria capaz de cantá-la. A cantora acabou agradando o exigente compositor.

“O disco das ‘Bachianas Brasileiras nº 5’ conseguiu ser o mais vendido nos Estados Unidos, por dois anos consecutivos”, revela Dennis Daniel.

Morte do Rouxinol que se tornou Beija-Flor

Aos 89 anos, em 1991, Bidu sofreu um acidente vascular cerebral. Recuperou-se, depois de uma cirurgia delicada. Sofreu outro derrame em 1993, e quase morreu.

Bidú veio ao Brasil para receber homenagem da Escola de Samba Beija-Flor, no Carnaval de 1995. O samba-enredo foi “Bidú Sayão e o Canto de Cristal”.

Certificado de naturalização americana de Bidú Sayão | Foto: Reprodução

“Nada magoava mais Bidú do que ser chamada de antipatriótica.” Consta que o presidente Franklin D. Roosevelt sugeriu que se naturalizasse americana. Mas ela replicou que “era uma artista brasileira e gostaria de morrer brasileira”. Mesmo assim, a cantora naturalizou-se americana, aos 59 anos, em 1963 (criterioso, o biógrafo apresenta o documento). Mas não perdeu “sua cidadania brasileira”. Decidiu morar em Lincolnville, no Maine, nos Estados Unidos, até morrer, em 12 de março de 1999, aos 94 anos, porque, sublinha Dennis Daniel, “se sentia mais confortável e segura do que no Brasil”.

Objetos de Bidú Sayão desapareceram no Brasil, no Theatro Municipal, depois, quando reencontrados, não foram devolvidos à cantora, o que a deixou magoada. Por isso mandou entregar “seus objetos de valor pessoal para os arquivos da Universidade de Boston”. A soprano, que ganhou muito dinheiro, adorava casacos de pele e joias. Amava diamantes, que talvez sejam mais eternos do que qualquer amor.

Com razão, Dennis Daniel lamenta: “É triste ter de aceitar que não há uma só lápide em algum cemitério, ou um monumento no Brasil, para honrar” a “memória” de Bidú Sayão. O amante de música tem sorte: na internet, “de graça”, é possível ouvir a bela voz da soprano. “Em alguns momentos, sua voz elevava-se a alturas quase inacreditáveis e ali permanecia — pendurada, como uma cotovia, desabafando seu coração para o céu”, escreveu um crítico do “Winnipeg Tribune”.

A bela obra de Dennis Daniel contém uma falha: não abre espaço para as gravações populares de Bidú, como “Casinha Pequenina”. Mas, claro, ninguém é perfeito. Quem sabe, adiante, teremos um segundo volume a respeito da grande cantora…

Nota

¹ O livro “Heitor Villa-Lobos — Compositor Brasileiro” (Itatiaia, 233 páginas), de Vasco Mariz, relata: “Composta para soprano e orquestra de celli, a ‘Bachiana Brasileira nº 5 tem duas partes: ária (Cantilena), escrita em 1938 sobre texto de Ruth Valadares Correia, e dança (Martelo), de 1945, com palavras de Manuel Bandeira” (página 175).

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2 respostas para “A soprano Bidú Sayão, a Elis Regina do canto lírico, ganha biografia de qualidade”

  1. Henrique Gonçalves Dias disse:

    Parabéns caríssimo Euler, sempre impecável!

  2. Euler de França Belém disse:

    Obrigado, grande jornalista Henrique Gonçalves Dias.

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