A propósito da guerra e do lucrativo comércio de armas. Confira quem realmente ganha

A indústria armamentista, que está entre as maiores economias do planeta, tem poder suficiente para estimular conflitos onde bem lhe interesse

Halley Margon

da Espanha

A solicitação de gastos para a defesa feita pelo presidente dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2020 foi de 750 bilhões de dólares, superior em 230 bilhões ao total do PIB da Argentina no ano de 2018.

Essa montanha de dinheiro estaria destinada, entre outros itens (tais como gastos com pessoal, deslocamento, despesas correntes da administração etc), para a compra de 77 novos caças F-35 (da Lockeed Martin), novos helicópteros Black Hawk UH-60M (também da Lockeed Martin), o desenvolvimento do bombardeio B-21 Raider (Northrop Grumman Corp), para a Marinha um novo porta-aviões da classe Ford (o quarto), seis quebra-gelo e um submarino tipo Columbia, para o Exército 5.000 novos veículos de combate, entre eles 135 tanques Abrams, 60 Bradley, 197 blindados multiuso e cerca de 4.000 veículos táticos ligeiros.

A Lockeed Martin foi a maior vendedora de armas em escala mundial no ano de 2016, a Northrop Grumman Corp a quinta. O helicóptero Black Hawk é do mesmo tipo daquele que, atingido por um míssil, caiu numa praça de Mogadício e serviu como elemento detonador para a película “Black Hawk Down”, de Ridley Scott (2001) — uma interminável exposição de armas e seus efeitos sobre uma cidade do décimo terceiro mundo, numa evocação de parte das lambanças que os americanos aprontaram na guerra da Somália, em 1993.

As armas, as fábricas onde são forjadas, eles as implantaram estrategicamente em cidades grandes, pequenas, de variados portes e tipos, distribuídas pelo território, numa intricada teia oculta projetada para parecer tão natural e necessária quanto os rios e as montanhas e as árvores mais antigas, de tal maneira que, se algum ser extremamente leviano quiser denunciar a artimanha embutida naquilo, será imediatamente tido como louco e expelido do mapa, porque não há a quem ela não beneficie e interesse.

Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China juntos representam 75% do comércio mundial de armas. A indústria armamentista, uma fração expressiva dessas que estão entre as maiores economias do planeta, tem poder suficiente para estimular conflitos onde bem lhe interesse. E se aos governos por uma ou outra circunstância não lhes interessem provocar uma ou outra guerra, as empresas de armas situadas nesses países se encarregarão de fazê-lo. Em 2019, o primeiro colocado comercializou 75% mais armas que o segundo. É o dono do quintal.

A indústria bélica dos Estados Unidos arma o exército, a marinha, a aeronáutica, mas também as diversas forças policiais, além de disputar o mercado mundial indiscriminadamente, onde houver guerra ou a possibilidade de conflito armado. Vende para o exército do país que invade e para os que se opõem à invasão, para vermelhos e para amarelos, azuis e incolores. Se dá ao luxo de negociar até com adversários dos Estados Unidos. Se se considerar apenas as compras do departamento de defesa, essa indústria já parte de um patamar difícil de ser acompanhado pelos competidores – uma vantagem que não começou ontem, e que vem, pelo menos, desde o limiar da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Dificilmente teremos acesso aos números reais dessa economia, ainda que ano a ano números oficiais sejam anunciados. E mesmo esses já são alarmantes. Ou fantasticamente positivos, dependendo do ponto de vista.

Os mais cotados
Sonho de consumo de quem frequenta esse supermercado
    1        

Os caças americanos F-35 (aviões de combate de quinta geração);

2

Mísseis;

3

Sistemas antimísseis;

4

Helicópteros.

Foram estes os itens mais procurados e os mais vendidos durante o quinquênio 2015-2020.

(De uma maneira ou de outra é preciso prover, construir e manter o escudo do mundo próspero, a reluzente vitrine que nos agasalha. Não há preço que não se possa pagar para que a redoma se mantenha intacta.)

A disponibilidade é para sortidos apetites e todos os bolsos. A África, que deve ser considerada uma consumidora com pouco poder de fogo, é uma animada compradora não de caças de última geração, mas de armas pequenas e ligeiras como metralhadoras de mão, fuzis, pistolas, minas e granadas. O que não pode é ficar fora do mercado. A nenhum país se permite tal excentricidade.

Uns tantos ainda creem na necessidade de afirmar que as armas e os exércitos são feitos para a manutenção da paz. Já não são muitos. Pode ser que sigam falseando a realidade, mas muito mais porque a fraude se fez hábito e mecanismo natural dos sistemas, das falas e dos comportamentos. Não porque de fato seja necessário. Ninguém mais dá a mínima.

Não se diga que é apenas negócio e ganância. Não será verdade. Mesmo com as veementes forças do convencimento e da sedução as armas ainda são parte imprescindível para a manutenção da superfície perfeitamente lisa debaixo da qual o inferno fervilha. Lá do alto cobram a manutenção dos estritos limites do controle. Persistentemente, amparo, alvo e alimento, a paz social custe o que custar, e a prometida prosperidade universal.

Quem controla o paiol

Os bandidos tomaram de assalto arsenal e paiol e nunca mais os devolveram. Controlam também o abastecimento. Com o que ficaram muito satisfeitos os envolvidos no negócio, fabricantes, intermediários e usuários. Menos as vítimas dos apetrechos.

Se a guerra é apagada da memória a expectativa de que volte a acontecer pode se extinguir. Isso constitui uma ameaça. Isso pode não ser bom para os negócios. A ninguém interessa o que quer que seja sem perspectiva de uso ou, como mínimo, necessidade simbólica. Assim, é imprescindível que as guerras aconteçam e estejam o tempo todo acontecendo.

Que se mantenha acesa a chama do medo e a ameaça da morte.

Mas isso é depois, ou antes ou, de qualquer modo, é a outra face do negócio. Por enquanto basta imaginar que os fabricantes de armas ignoram a natureza específica do produto que fabricam — ou façam de conta que ignoram. Como sabemos, nós, os humanos, temos essa extraordinária qualidade de nos enganarmos das mais variadas formas sempre a serviço da nossa conveniência. Portanto, prossigamos.

A indústria bélica fabrica e vende seus produtos como se fossem, por exemplo, furadeiras elétricas. E como tais estarão permanentemente empenhados em pesquisar novos desenvolvimentos, aperfeiçoar os componentes e designs, baratear custos e ampliar o poder das máquinas e equipamentos que colocam no mercado de modo a que possam atingir a melhor relação custo-benefício para os clientes. Simultaneamente, estará também empenhada em vender esses produtos, faça sol ou faça chuva e, se não houver demanda ou se essa demanda estiver desaquecida, atuará decisivamente e por todos os meios disponíveis para recuperá-la e/ou estimulá-la.

Mas não se trata de furadeiras elétricas, e sim de armas. Armas são produtos desenvolvidos, fabricados e comercializados com o fim específico de matar. Assim, voltemos atrás umas tantas linhas: se a paz se estende e se prolonga, como justificar a necessidade daqueles produtos? Apenas a manutenção do medo e do terror para garantir nossa obediência não é suficiente para sustentar a demanda da capacidade instalada pelo Complexo Industrial Militar, sequer de uma mínima parte dela. Portanto.

As guerras estão por toda parte. Nunca cessaram. Tente encontrar nos livros de história um só período no decorrer do século XX, em que n’algum lugar da Terra não acontecia uma guerra, não estivéssemos levando a cabo uma matança. Feito isso, tente fazer o mesmo para essas curtas duas primeiras décadas desse tão autoconfiante século XXI. Justamente essas que dão início ao novíssimo milênio. Logo verá como começamos bem.

O orçamento americano para gastos com defesa aprovado pelo Congresso representava 18% do orçamento total dos Estados Unidos no ano fiscal de 2019.

A primeira viagem de Donald Trump ao exterior, após sua eleição para presidenente em 2016, foi à Arábia Saudita. Foi vender armas. Deixou Riad a bordo de um exultante Air Force One com contratos no valor de 110 bilhões de dólares para abastecer os sauditas de tanques, aviões, barcos e mísseis nos próximos dez anos. Depois virão os devidos aditivos aos tais contratos que os farão engordar substancialmente, como é de praxe. De 2012 a 2016, as importações de armas pelos países do Oriente Médio aumentaram em 86%.

O progresso técnico aplicado à construção das armas não é algo que nos seja tão acessível como, por exemplo, o dos automóveis, mas será tão difícil imaginar?

Um relatório divulgado pelo Sipri no final da década de 2010, indicava que os 100 maiores desenvolvedores de armas do planeta venderam em 2016, há seis anos,  38% mais dos seus produtos do que haviam vendido em 2002.

A produção mundial de veículos comerciais automotores no ano 2000 foi de 58.374.000 milhões de unidades. Em 2010 foram produzidas 77.700.000 milhões de unidades. Um crescimento de 13,19% (fonte: International Organization of Motor Vehicle Manufactures [Oica]).

Entre 2000 e 2015, a população mundial cresceu em torno de 1,2%.

Números, números, a orgia dos algarismos e dos lucros. E lá embaixo, os corpos de homens, mulheres, idosos e crianças cortados em pedaços pela eficácia dos equipamentos.

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