Elder Dias
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A Pedro Bial, Sergio Moro diz que é preciso combater o sebastianismo – se apresentando como Dom Sebastião

O ex-juiz, ex-ministro e futuro candidato a presidente dá aula de senso comum em entrevista morna ao talk show da Globo

Sérgio Moro, com Pedro Bial: entrevista de um “Dom Sebastião” que vê sebastianismo nos outros | Foto: Reprodução

Você já foi a São Sebastião do Rio de Janeiro? Se não foi, muito provavelmente gostaria de ter ido. É uma cidade bem antiga e que, como o próprio nome diz, fica no Estado do Rio de Janeiro. Mais do que isso: é sua capital. Sim, esse é o nome completo da Cidade Maravilhosa, das belezas naturais e nas desigualdades sociais lado a lado na paisagem.

O nome foi uma homenagem ao ainda príncipe Sebastião, o herdeiro do trono de Portugal que não tinha, naquele momento, idade para assumi-lo – seis anos depois, já como rei, ele transferiria de Salvador para lá a capital da colônia. Mas seu reinado durou muito pouco: foi de junho de 1573 a agosto de 1574, terminando de forma insólita e triste: ao liderar as tropas portuguesas com 18 mil homens numa cruzada, em um ataque estabanado contra a ocupação do Império Turco-Otomano no norte da África – que ficou conhecido como Batalha de Alcácae-Quibir, metade deles morreu no confronto. E Dom Sebastião desapareceu.

Sem rei após o tio-avô de Sebastião, Dom Henrique, também morrer, na disputa pelo reino os portugueses acabaram dominados pela Espanha, que, com Felipe II uniu as coroas. Como o corpo de seu soberano nunca foi encontrado, nasceu um movimento nacionalista que acreditava que ele voltaria para resgatar Portugal das mãos dos espanhóis e redimir a nação. Era o sebastianismo, uma cultura místico-política que acabaria também fazendo escola no Brasil – o maior exemplo é o de Antônio Conselheiro e sua Canudos no início da República, um movimento que acreditava na restauração da monarquia, além de pregar a moral e os bons costumes.

Na entrevista que concedeu a Pedro Bial no talk show do jornalista na TV Globo, o Conversa Com Bial, Sergio Moro é confrontado logo de início, pelo apresentador, com os mitos do herói e do vilão diante de sua pessoa. “Dá para ser herói e vilão da mesma história?”, pergunta Bial, que se dirigiria o tempo todo ao ex-juiz como “Dr. Moro”. O entrevistado agradece a introdução generosa que ganhou (“todo mundo gosta de um bom filme”), mas ressalta: “Não sei se concordo com a caracterização de vilão.” Voltaremos a essa história de herói/vilão daqui a alguns parágrafos. Agora, vamos falar um pouco do conteúdo da entrevista.

Primeiramente, Pedro Bial, que sempre trata seus convidados com cortesia, diga-se, tratou com mais rapapés ainda o convidado da noite. Fez perguntas com teor para serem contundentes e polêmicas, como o da publicação da delação do ex-petista Antonio Palocci contra Lula às vésperas do primeiro turno das eleições de 2018 e se satisfez rapidamente com uma resposta que seria passível de polígrafo – a de que ele não poderia interferir em favor de Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad naquele momento porque ainda havia todos os outros candidatos. Praticamente na hora de ir às urnas, tal declaração seria, no máximo, uma meia verdade.

Ele ainda afirmou – na verdade, voltou a relatar – que foi convidado a aceitar o convite para ministro de Bolsonaro entre o primeiro e o segundo turnos da eleição, pelo então apoiador e já “Posto Ipiranga”, Paulo Guedes. Ele considerou prova de isenção para si não ter aceito a proposta naquele momento. “Podia (sic) ter aceito isso na semana antecedente ao segundo turno e aí o presidente [Bolsonaro] ganharia de lavada”, em uma falha da falsa modéstia.

Quando instado a falar de suas propostas para o País, como pré-candidato, só saiu do tema corrupção para falar de inflação e dólar. Nada de combate à desigualdade, políticas para educação, saúde ou meio ambiente. Falou a palavra “projeto” 27 vezes em 30 minutos, mas nada expôs claramente.

O ponto alto da entrevista da pauta acabou sendo a voz de Moro. Bial perguntou se ele estava fazendo tratamento com fonoaudióloga e o ex-juiz acabou por perguntar, mostrando certa insegurança, se sua fala havia mesmo melhorado. Pedro Bial respondeu positivamente: “Todo mundo tá comentando!”. A voz de Sergio Moro virou meme nas redes sociais, principalmente depois das revelações advindas dos vazamentos de conversas entre o então juiz e os procuradores da Lava Jato, obtidos pelo site The Intercept Brasil e que serviram de base para sua suspeição. Assunto, aliás, não abordado pela entrevista.

É aqui que voltamos ao mito do herói/vilão. Ou ao sebastianismo. Na continuidade da conversa do início da entrevista, Moro se refere ao caso de Dom Sebastião, já relatado. Nós temos essa tradição que veio de Portugal [de salvadores da pátria]. Mas nós precisamos é de bons líderes e instituições fortes”, disse.

Ocorre que a atuação de Moro na Operação Lava Jato sempre ultrapassou a de um “simples” juiz. As ações cinematográficas de apreensões, conduções coercitivas e prisões o levaram ao papel de um Batman, alguém que foi elevado a uma posição de justiceiro pelo clamor popular e acreditou no personagem. É um recorte no qual o ex-juiz merece todas as críticas mas recebe muita condescendência da grande imprensa. A grande repercussão de medidas que se mostraram arbitrárias ou parciais, mais cedo ou mais tarde, contribuiu para afundar ainda mais a confiança da população nas instituições, especialmente aos ocupantes de cargos no Executivo e no Legislativo. Fomentando o ódio à política, consolidou a antipolítica, da qual Bolsonaro é a maior herança.

Condenando a estética do “salvador da pátria”, é exatamente como um que ele volta a se colocar, como nos tempos da Lava Jato e como nos primeiros meses como ministro da Justiça. Agora, como o político que uma vez, em 2016, disse que jamais seria, ele retorna, de seu pequeno exílio nos Estados Unidos pós-governo.

2 respostas para “A Pedro Bial, Sergio Moro diz que é preciso combater o sebastianismo – se apresentando como Dom Sebastião”

  1. Avatar ziro disse:

    Surgiu uma luz no fim do túnel: Sérgio Moro, já tem voto da minha família inteira….

  2. Avatar Claro Arantes Heimj disse:

    Sergio Moro me lembra um pouco o atual presidente dos Estados Unidos. Uma pessoa ” normal” ,bem preparada, democrata e honesta, sem as loucuras e falta de preparo do atual presidente e a visão de mundo distorcida do ex presidente.

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