Pax dos Estados Unidos é o estado de guerra permanente contra os outros e na terra dos outros

Não custa recordar que esse pacificador — os Estados Unidos — é um farsante que está e sempre esteve invadindo e matando em terras alheias

Halley Margon

Da Espanha

Com a sutileza própria dos valentões do velho oeste, o comandante da tropa finalmente decidiu cruzar o Atlântico para dar as caras no Velho Mundo. E que Versalhes que nada. Com a presença do chefe a reunião foi onde deveria mesmo ser, no Forte Apache ou, modernamente, na sede da Otan. Os coadjuvantes já haviam atuado, os servos desempenhado seu papel com toda a pose de protagonistas (que patético, que lamentável papel este destinado à socialdemocracia europeia…). Para isso o presidente Joe Biden aterrissou em Bruxelas, semana passada. Era hora de dar uma volta a mais no parafuso. Em algum momento não muito distante e o Império terá realizado, assim crê e para isso atua com tenacidade, o que desde o fim da União Soviética é o seu mais ansiado sonho de consumo: a derrota definitiva do ex-adversário de Guerra Fria com a instalação no Kremlin de um governo dócil ao Ocidente (um Alexei Navalny ou algum congênere).

Enquanto isso, lá está ele, o Império, na atividade que com mais destreza e voluptuosidade se entrega, para o bem da sua gente (e entenda-se sua gente no sentido o mais estreito possível) e da sua economia: a guerra. A guerra, desde que bem distante do seu próprio território, na terra dos outros e, mais, com a fenomenal máquina de propaganda que maneja com excelência e despudor únicos atuando para convencer o resto do planeta de que é ele o grande pacificador e o outro, sempre o outro, o enfurecido bárbaro, o invasor, o huno (servem também se forem eslavos ou amarelos ou muçulmanos, serve na realidade qualquer rótulo — sua azeitada máquina de propaganda é hábil o suficiente para vender que produto for e convencer as mais variadas clientelas).

Joe Biden, Donald Trump, Barack Obama e George Walker Bush: senhores de um mesmo império, o dos Estados Unidos | Foto: Reprodução

A desmemoria do grande público e a subserviência da free press faz o resto. Por isso mesmo, não custa recordar que esse pacificador é um farsante que está e sempre esteve invadindo e matando em terras alheias. Faz tempo.

Memória e libelo

Uma matéria publicada no “El País”, publicação da Espanha, dois ou três anos atrás, informava que, no “dia 4 de outubro de 2017, quatro boinas verdes caíram numa emboscada em Niger, perto da fronteira com o Mali, quando saíam de uma aldeia chamada Tongo Tongo na qual haviam parado para descansar…”. Segundo o jornal, a notícia da morte desses quatro soldados provocou alarido nos Estados Unidos e uma das razões para isto foi que “ninguém, nem no Congresso nem na opinião pública, sabia direito o que aqueles homens estavam fazendo ali. ‘Não tinha a menor ideia de que havia 1.000 soldados em Niger’, disse o senador Republicano Lindsey Grahan, um dos falcões de Washington”.

A lista se arrasta para muito atrás no tempo, desde que, proclamando-se o grande herói da resistência ao nazismo, o Império se autoproclamou (na surdina dos gabinetes) como o gestor por direito das coisas do mundo e da própria história.

Em consequência, imediatamente passou à ação (abaixo alguns dos países militarmente invadidos e/ou ocupados pelos Estados Unidos a partir de 1950).

1
Coreia  

Mal havia baixado a poeira atômica das bombas lançadas sobre a população de Hiroshima e Nagasaki, o Império inaugurou sua hegemonia planetária intervindo na Coreia. No último ano do conflito, 1953, havia mais de 300 mil estadunidenses na Coreia do Sul. Pouco mais que 10% desses soldados, isto é, 36 mil foram mortos no decorrer daqueles quase três anos, para sabe-se lá quantos nativos.

2

Vietnã

Consequência da Guerra no Vietnã: fotografia emblemática de uma menina atingida por napalm jogado por soldados americanos | Foto: Reprodução

Menos de dois anos depois, em fevereiro de 1955, chegaram os primeiros assessores militares para o Vietnã, logo após a expulsão dos franceses, no começo do ano anterior. Uma década adiante, em 1964, já havia 21 mil militares americanos no Vietnã. Em 1975, foram finalmente batidos e mandados de volta para casa. De acordo com um levantamento feito pelo site da BBC, “mais de 2,5 milhões de americanos serviram na guerra; em 1968 havia 536 mil deles combatendo”, e 58 mil morreram durante as duas décadas que durou a invasão e ocupação. O saldo deixado entre os vietnamitas é significativamente mais elevado: pelo menos 1 milhão e cem mil mortos.

3
Granada

Passados apenas oito anos, em 1983, sob o pretexto de proteger estudantes de medicina americanos (sic), Ronald Reagan, então presidente dos EUA, ordenou a invasão da minúscula ilha caribenha de Granada. Mas que diabos de importância tem isso? Era apenas uma ilhota.

4
Panamá

Em meados da década de 1980, os Estados Unidos e o Panamá entraram em conflito pelos termos da transferência do controle do Canal do Panamá. Em dezembro de 1989, o presidente George Bush (o pai) ordenou a operação militar de destituição do então presidente do país, o general Noriega, capturado e levado preso para os Estados Unidos acusado de tráfico de drogas etc.

5
Afeganistão

No dia 7 de outubro de 2001, menos de um mês depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, as Forças Armadas dos Estados Unidos invadiram o Afeganistão. Duas décadas depois, os militares dos EUA ainda estavam em processo de retirada do Afeganistão. Duas décadas ocupando o país dos outros.

6
Iraque

Saddam Hussein, do Iraque: condenado à morte | Foto: Reprodução

Iraque, 2003. O Império e uns tantos aliados, sem autorização da ONU (o que, afinal, não faz muita diferença), ocuparam o país. Num grandioso show midiático, os Estados Unidos forneceram evidências, comprovadamente falsas, para convencer a plateia mundial de que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa. A operação Iraqi Freedom foi lançada em março de 2003.

No início de maio, o presidente George W. Bush (o filho) anunciou a conclusão da fase ativa das hostilidades. Entre os feitos da invasão está a patética captura do ditador Saddam Hussein. Em 5 de novembro de 2006, após um julgamento montado a toque de caixa, o tribunal iraquiano condenou Saddam à pena de morte por enforcamento por crimes contra a humanidade (a palavra de ordem lançada agora pelo presidente Biden contra Putin foi, literalmente, “criminoso de guerra” — qualquer semelhança, vocês sabem, não será mera coincidência e serve naturalmente ao mesmo tipo de estratégia e de campanha publicitária). Antes do final do ano, um tribunal de apelação do Iraque confirmou a sentença contra o ex-ditador. Saddam foi entregue aos executores iraquianos pelas forças americanas que o custodiavam alguns minutos antes de seu enforcamento, no início do dia 30 de dezembro.

7
Líbia

Muamar Kadafi, ex-dirigente da Líbia | Foto: Reprodução

Líbia, 2011. Em fevereiro, o conflito armado entre forças do governo de Muammar Kadafi e grupos da oposição financiados e estimulados pela CIA tomou conta da Líbia. O Conselho de Segurança da ONU adotou uma resolução para impor sanções ao país. Na sequência, liderados pelos EUA os sócios da OTAN iniciaram uma ofensiva de bombardeios contra o território líbio.

Oficialmente, a guerra terminou com o linchamento de Kadafi pelas mãos de uma turba ensandecida, em outubro de 2011. Não houve necessidade de acusações de crime contra a humanidade ou de vastas campanhas publicitárias.

Essa é uma lista aleatória e provavelmente muito incompleta. Mas você, leitor, muito provavelmente poderá perdoar sua incompletude. Pois se não, peço sua consideração para o que informou a matéria do “El País” citada acima: se até um senador republicano ligado ao inimaginavelmente poderoso lobby da indústria bélica pode, em certo momento, desconhecer um ou outro dos imbróglios militares nos quais seu país está metido, que dizer de um simples leitor de jornais.

De todo modo, a conclusão soa bastante simples: a pax americana é na realidade o estado de guerra permanente contra os outros (aqueles que o Império, suas empresas e seus interesses estratégicos designam como inimigos ou rivais) e na terra dos outros – convencendo o planeta, ou pelo menos boa parte dele, de que é Ele o pacificador e o inimigo o invasor bárbaro.

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