Ele trabalhou a noite de sexta para sábado, e de manhã bateu na traseira de um caminhão. Cuidava de duas filhas menores e de sua mãe

Ricardo Silva Rosa, 45 anos, era vigilante do condomínio Housing Flamboyant, nas proximidades do Autódromo de Goiânia, há anos. De início, trabalhava de manhã e à tarde. Separado, cuidava das duas filhas (menores; depois uma foi viver com a mãe e a outra com uma tia) e morava com a mãe, na cidade de Pontalina. Mesmo morando distante, era pontual. Seu veículo era uma moto e ele pensava adquirir, quando pudesse, um automóvel usado. Também pensava em se mudar para Goiânia. Pretendia comprar uma casa.

Ricardo Silva Rocha e uma filha | Foto: Reprodução

Para acompanhar a mãe, idosa e com problemas de saúde (queria levá-la a um neurologista, porque sua memória anda falhando), Ricardo pediu para mudar o turno de trabalho (12 horas diárias) — do dia para a noite. Era impecável. Com pouco mais de 40 anos, nunca parecia cansado e era um ouvinte atento das ponderações e reclamações dos moradores. A rigor, era mais do que um vigilante. Mais do que vigiar, ele zelava do condomínio e cuidava das pessoas — tinha uma paciência infinita com as crianças. Era quase um assistente social. Sempre de bom humor. Um homem simples, um gentleman. Um homem do bem e de bem. Se recebia algum agrado, como um pastel e um refrigerante, demonstrava sua gratidão. Não era um ser indiferente.

Ricardo era careca, aparentemente raspava os cabelos. Cuidava da forma física com esmero. Estava sempre empertigado e firme. Era um samurai do Cerrado.

No sábado, 25, saiu do trabalho, às 6h4, depois de passar a noite trabalhando — sem dormir —, e foi substituído por Lucas Ribeiro. Dirigiu-se para Pontalina. Na rodovia bateu na traseira de um caminhão e morreu.

Ricardo todos os dias comentava sobre Gabriel de Oliveira Jacomini, outro vigilante que se acidentara batendo sua moto. Solidário, estava sempre preocupado com a recuperação do colega, que, depois de dois meses internado, ganhou alta e está em sua casa. “Ele renasceu”, me disse, contente, Ricardo.

Hoje, o condomínio está quieto — em luto. Porque todos perderam, não só um vigilante competente e sério, mas também um amigo. Seus colegas Gabriel, Lucas Ribeiro, Neilson Maciel, Jonhatan e a zeladora Josi estão tristes, como todos os moradores.

Comunicado da síndica a respeito de Ricardo

“Caros condôminos,

Hoje para nós é um dia de profunda tristeza, mas temos certeza que o céu está em festa com a chegada do nosso amigo Ricardo.

O Ricardo era nosso vigilante há muitos anos e dedicava sua vida para cuidar da nossa segurança, sempre com muito carinho, educação e responsabilidade.

Após o plantão dessa noite que se encerrou as 06:00h, durante o trajeto de sua casa, infelizmente ele sofreu um acidente e não resistiu.

Perdemos muito mais que um funcionário, perdemos um anjo protetor que por muitos anos dedicou sua vida a nos proteger.

Que Deus o receba de braços abertos!”

Depoimento

João Cláudio Junqueira — Morador do Housing Flamboyant

“Estou muito triste com o acontecido. Ricardo era uma pessoa bacana e sempre conversava com ele sobre a importância da família em nossas vidas. Gostava de conversar com ele, muito humilde e querido por mim e minha esposa, ele sempre brincava com a Isis.

“Vou sentir a falta dele.

“Que Deus o receba em paz.”

Poema de Emily Dickinson para homenagear Ricardo

Dizem, “com o tempo se esquece”,

Mas isto não é verdade,

Que a dor real endurece,

Como os músculos com a idade.

 

O tempo é o teste da dor,

Mas não é o seu remédio —

Prove-o e, se provador for,

É que não houve moléstia.

(Tradução de Aíla de Oliveira Gomes)