Euler de França Belém
Euler de França Belém

A morte de Eloí Calage, jornalista, contista e quase-biógrafa de Mario Quintana

Profissional brilhante, ela, que trabalhou na TV Globo e escreveu reportagens e contos, teve um AVC em 2005

Eloí Calage, escritora e jornalista, e o filho Luciano Calage | Foto: Facebook de Luciano Cabral

Na segunda metade da década de 1980, o editor-geral do jornal “Diário da Manhã”, jornalista Batista Custódio, decidiu publicar um caderno sobre a Ferrovia Norte-Sul, com o apoio do governador Henrique Santillo e do presidente José Sarney. Convidou para editá-lo o jornalista Washington Novaes, que havia trabalhado na “Folha de S. Paulo”, no “Estadão” e na TV Globo.

Para ajudá-lo na feitura do caderno, Washington Novaes recrutou jornalistas, escritores e artistas plásticas. Carmo Bernardes, escritor que tinha amplo conhecimento sobre meio ambiente, colaborou na redação. Siron Franco e outros artistas criaram belas imagens para ilustrá-lo. Do Rio de Janeiro, depois de uma passagem pela Globo, chegou Eloí Calage, jornalista e escritora.

Eloí, com seu texto primoroso e ideias para diversificar o caderno, entrevistou artistas, como o maestro José Eduardo de Moraes e Gilberto Gil. Com sua graça esfuziante, deu leveza e, ao mesmo tempo, profundidade ao material. Mesclava, com rara habilidade, o texto jornalístico ao de prosadora refinada.

Comecei como repórter e, ao final do processo, atuei como editor assistente do caderno-livro sobre a Ferrovia Norte-Sul. Eloí também aparece como editora-assistente. Ela e Washington Novaes são responsáveis por aquilo que há de melhor no caderno — a qualidade dos textos e das informações. Frise-se, claro, a ousadia de Batista Custódio, que, por sinal, conquistou a simpatia do então presidente José Sarney.

Terminado o caderno, Eloí decidiu continuar em Goiás. Fugia, como antes Washington Novaes, da vida extremamente agitada e perigosa do Rio de Janeiro. Mudou-se, com os filhos e o marido, para uma chácara (dizia que planejava cultivar flores e ter tranquilidade para escrever). De lá, escrevia textos jornalísticos, contos e fazia algum tipo de assessoria para políticos. Era de uma eficiência ímpar. Nas suas mãos precisas e criativas nenhum texto parecia oficialesco. Passava as informações, de maneira objetiva, mas com um toque de texto vivo, de leitura agradável, sem burocratismo.

José J. Veiga, mestre na arte do conto, encantou-se com a literatura de Eloí Calage

José J. Veiga e Mario Quintana

Nas nossas conversas, lembro-me de ter falado de seu apreço pela literatura alemã e do jornalista Günter Wallraff — hoje com 75 anos —, autor do livro “Cabeça de Turco”. Salvo engano, Eloí conheceu-o na Alemanha. Contava de seu apreço pela música de Gilberto Gil, cantor, músico e compositor ao qual éramos devotados.

Numa conversa, Eloí me contou que havia se encontrado com o escritor José J. Veiga, a quem admirava sobretudo pelos contos. Os dois se encontraram na Universidade Federal de Goiás, onde ela prestava assessoria. Os dois ficaram encantados um com o outro. Eloí legou-me um texto a respeito, que, encontrado, será acrescentado a este réquiem.

Os contos de Eloí são muito bem escritos, são prosa de escritora, e não de jornalista que se considera escritora. Há a fluência verbal e aquela naturalidade — como se estivesse, e de fato estava, narrando uma história comum — dos mestres, como José J. Veiga e Hemingway (por sinal, traduzido pelo autor de “Cavalinhos de Platiplanto”).

Mario Quintana teve sua vida pesquisada por Eloí Calage

Certo dia, Eloí me contou que estava pesquisando para escrever a biografia do poeta, cronista e tradutor gaúcho Mario Quintana. Brincando, me disse: “Você sabia que alguém que nasceu numa cidade com o nome de Alegrete tinha mesmo de fazer uma poesia divertida?” Rimos.

Mas recebi a advertência de que o humor, embora onipresente na poética e nas crônicas de Mario Quintana — “sem acento no Mario”, pontuava (por sinal, não apreciava quando, inadvertidamente, chamavam-na de Elói) —, não deve ser visto como característica única do trabalho literário do bardo. Por trás do jogo de palavras, do toque lúdico, há um poeta sério, que dialoga com a vasta e multifacetada poesia ocidental.

Mario de Miranda Quintana — eu nem sabia da existência da “cunha” Miranda entre Mario e Quintana (“mir” é mundo e “anda” não precisa explicar), mas a biógrafa atenta aos detalhes fez o registro (Deus está nos detalhes, anotou o jornalista Marco Antônio Escobar) — tinha uma formação cultural clássica e era um tradutor de alta qualidade de, entre outros, Balzac, Marcel Proust (traduziu parte de “Em Busca do Tempo Perdido”), Virginia Woolf e Graham Greene.

A biografia de Mario Quintana era esperada por jornalistas, escritores, críticos literários e leitores comuns (se algum é). Porque o poeta, cronista e tradutor, que morreu em 1994, aos 87 anos, nunca havia sido biografado. Além da recuperação de sua história, de como se tornou escritor, Eloí resgataria seus, digamos, mistérios de… Manuel Bandeira do Rio Grande do Sul. Há certo parentesco — não se sei tênue ou intenso — entre a poesia e a vida de ambos.

Porém, tempos depois, recebo a informação — não sei se de uma amiga comum, Tânia — de que Eloí havia sofrido um acidente vascular cerebral e estava internada no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília.

Estive lá no Sarah Kubitschek, na companhia do poeta e jornalista Carlos Willian Leite. Eloí chorou muito e eu chorei junto. Ao menos conseguiu me abraçar. Tentava falar e não conseguia. Parece que tentava me dizer alguma coisa a respeito de sua situação. A expressão bonita e inteligente — aquela testa alta, então com um lado afundado — permanecia… altiva. Mas havia um desespero no olhar que eu não havia visto antes.

A morte de Eloí Calage

No fim de semana, minha mulher, Candice Marques, sugere que eu leia um post de Luciano Calage Mello, filho de Eloí e do psicanalista Roberto Mello.

O post de Luciano Calage Mello é de domingo, 1º: “Boa tarde, amigos. É com muito pesar que comunico o falecimento da minha mãezinha, Eloí Calage, aos 75 anos de idade. Quem a conhece sabe de sua luta após um AVC em 2005. Essa semana ela passou mal e acabou sendo internada. Os médicos não souberam precisar a causa da morte, mais provável que tenha sido uma infecção intestinal. A lembrança que ela deixa é a de uma mulher alegre, forte e batalhadora. Um supermãe muito amada pelos seus filhos”. É uma síntese precisa. Eloí amava os dois filhos e os amigos, como Washington Novaes, Valquíria, Tânia, Mara, Fádua, Valteno e Herbert Moraes.

Texto de Eloí Calage sobre o encontro com José J. Veiga

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Luciano Calage Mello

Obrigado pela homenagem, Belém. Minha mãe tinha um enorme carinho por você e achava seu jornalismo “arretado”, palavras dela! Muito obrigado pelas palavras!

Vera Gomes

Gostaria de ler os contos da Eloí Calage.

Marisa Calage

NA chácara há muitos exemplares, se enviar seu e-mail posso providenciar q receba um, no seu endereço que deve constar da mensagem, ok?