A guerra ideológica para “apagar” fatos e indivíduos da história da Espanha

É um “paradoxo querer converter em golpistas àqueles que sofreram o golpe”, afirma um historiador

Halley Margon

De Barcelona

Há um século os movimentos fascistas começavam a grassar pelos lados de cá. Os primeiros foram os italianos. Benito Mussolini tornou-se primeiro-ministro em 1922 e permaneceu no cargo até meados de 1943, quando seu principal aliado começou a perder a guerra. Em 1933, Adolf Hitler, também pela via eleitoral, fez-se chanceler da Alemanha. Na Espanha foi mais complicado. Três anos e pico após a assunção dos Nacional Socialistas, quando os comandados de Francisco Franco assaltaram o poder, a resistência que encontraram foi feroz e teve como primeiro resultado a guerra civil que dividiu o país entre julho de 1936 e abril de 1939. A ameaça representada pelos nazifascistas controlando dois dos mais importantes Estados da Europa ligou o sinal de alarme da consciência democrática e humanista do Ocidente.

Adolf Hitler, ditador da Alemanha, e Francisco Franco, ditador da Espanha | Foto: Reprodução

Em meados da década de 1930, a tensão se aproximava ao paroxismo. Uma onda de entusiasmo fazia crer que era possível resistir e estancar o avanço da ultradireita. A Espanha poderia ser o ponto de inflexão, ou assim parecia.

No entanto, toda aquela espetacular mobilização internacional não foi suficiente. Contrariando o “No Pasarán”, lema difundido em nome da folclórica figura do ultrastalinista Partido Comunista Espanhol La Pasionaria (Dolores Ibárruri), os fascistas afinal passaram. E cinco meses depois Hitler invadiu a Polônia, em setembro de 1939. Ainda assim, os espanhóis de todos os matizes (anarquistas, trotskistas, socialdemocratas, comunistas etc), tanto quanto os que vindo de todas as partes do planeta se juntaram a eles para resistir, sempre se orgulharam da guerra que travaram contra as forças do mal.

Mais de oitenta anos após o seu encerramento e o início da mais longeva e agressiva ditadura da Europa ocidental (o salazarismo durou uns anos mais), a guerra civil ainda é um fato vivo na memória dos espanhóis. Volta e meia vem à tona. Agora mesmo, um novo livro está provocando polêmica. Seu autor é Arturo Pérez-Reverte, membro da Real Academia Espanhola, jornalista e um dos mais populares escritores em atividade no país. Para todos os efeitos, um cara do bem, como se usa dizer nas boas rodas. Ninguém melhor que um tipo assim para botar panos quentes em antigas feridas, ou “blanquear” o lado daqueles que venceram a guerra (e na sequência seguiram praticando os horrores que as ditaduras de praxe praticam).

Francisco Largo Caballero e Indalecio Prieto, líderes políticos da Espanha, na década de 1930 | Fotos: Reproduções

“Blanquear” é a palavra espanhola para lavar (dinheiro). Segundo o Larousse “blanquear (é) legalizar ou investir o dinheiro gerado por negócios fraudulentos em outros legais”. O termo tem sido usado também para essas situações onde o que se pretende é apagar o passado negativo ou claramente criminoso de determinadas pessoas ou bandos políticos, relativizar o banditismo, suavizar o safadeza e coisas que tais. Ao Vox (partido da ultradireita), por exemplo, interessa criminalizar figuras da República inventando delitos que não cometeram ou tornar o ambiente nebuloso o suficiente para que se tornem obscuros os crimes dos seus aliados do passado e, ao fim e ao cabo, se possa pelo menos dizer que ambos os lados cometeram mais ou menos os mesmos pecados. O peso da história (dos assassinatos, das torturas, dos trinta e seis anos de ditadura) deixaria de recair-lhes sobre os ombros. A guerra civil, sob essa perspectiva, seria “o horror enfrentando a outro horror” e não, como havia acreditado no princípio um dos personagens do livro de Péres-Reverte, “a luta do bem contra o mal”.

Não, ainda que bem e mal nunca devam ser tomados como coisas apartadas e absolutas, não são a mesma coisa e não é uma operação fácil fazer com que um espanhol (e de resto qualquer cidadão bem informado de qualquer parte do planeta) engula a guerra civil como um enfrentamento entre um e outro mal. E, não, a polêmica não se restringe a uma ou outra frase de um livro recém-lançado por um autor de sucesso. A disputa é por corações e mentes, é política.

Um dos complicadores dessa história é que de vez em quando, e mais ou menos de repente, os bons moços resolvem entrar na história e em nome do sacrossanto equilíbrio apaziguar os ânimos para estabelecer a paz. A alguns (talvez a muitíssimos) soam extremamente encantadores. Podem ser também de extrema utilidade — aos criminosos, aos assassinos, sobretudo.

Arturo Pérez-Reverte: escritor espanhol | Foto: Reprodução

Guerras fratricidas (todos são igualmente culpáveis)

A fracassada moção de censura que o Vox tentou aprovar no final de outubro do ano passado afirmava que nos anos trinta a sociedade espanhola “se dividiu em duas metades, que lutaram até a morte numa guerra fratricida”. Segundo eles, uma guerra onde “nenhum dos lados tinha superioridade moral ou legal sobre o outro”.

Pode até ser que guerras fratricidas existissem nas imemoriais épocas nas quais os homens usavam chifres de búfalos enfeitando a cabeça e se cobriam com mantas de peles de animais selvagens, vestimentas que já não vemos mais, não ao menos no lado de cá do Atlântico e não, pelo menos, em espaços considerados civilizados. Afora isso, guerras serão sempre a expressão ou a representação de interesses sociais perfeitamente identificáveis. A Guerra Civil Espanhola não fugia à regra e seu resultado foi calamitoso para o aperfeiçoamento das instituições sociais e democráticas do Estado. Enquanto a construção do Estado de bem estar social avançava no resto da Europa, na península Ibérica a situação era bem outra.

A morte de Franco, em 1975, permitiu um novo pacto na sociedade e desde então algumas conquistas dos governos socialdemocratas aproximaram a Espanha (e Portugal) do resto do continente. Agora mesmo, quando um partido como o ultradireitista Vox (aliado ao tradicional PP) tenta grosseiramente manipular a Lei da Memória Histórica aprovada durante o governo do socialista José Rodríguez Zapatero, em 2007, alterando o nome de ruas dedicadas a Largo Caballero e Indalecio Prieto (socialistas históricos e membros destacados do governo republicano durante a Guerra Civil), o que na verdade objetivam é mais uma vez obliterar o passado para enfraquecer o governo PSOE-Podemos e frear a continuidade das reformas que façam a Espanha recuperar o terreno perdido.

Os detalhes da história toda não caberiam no espaço deste artigo. Basicamente, a Lei da Memória Histórica proíbe homenagens a pessoas envolvidas em sublevações. Para justificar a retirada do nome dos homenageados das referidas ruas (em Madri) os seguidores de Santiago Abascal acusam Caballero e Prieto de golpistas. Lançaram mão daquilo que um dos historiadores da Guerra Civil chamou de fake news. Aqueles homens pertenciam “a governo eleitos democraticamente”. É um “paradoxo querer converter em golpistas àqueles que sofreram o golpe”, diz outro dos historiadores ouvidos pelo jornal “El País”.

Mas a verdade é que, para os fabricantes de fake News, pouco importam os paradoxos. Não há nada de inocente na disputa das narrativas históricas. Importa é que na imagem o monstrengo aparente ter equilíbrio e se mantenha de pé tanto quanto seja possível. Até pelo menos que uma nova arrumação possa substituir a anterior.

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