A guerra contra o que não se pode matar e leituras para enclausurados

Que tal a leitura de livros de Wesley Peres, Jack Kerouac e Joseph Conrad? E um filme de Francis Ford Coppola baseado em “Coração das Trevas”?

Halley Margon

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

E eis que uma coisinha de nada, protegida apenas por uma película de gordura, desobedece toda e qualquer norma da civilização e guiando-se unicamente por sua própria natureza desorganiza e paralisa os mais sofisticados aparelhos tecnológicos criados pelos homens: da moeda aos sistemas intercontinentais de transporte, do turismo nas grandes metrópoles à pelada no campinho atrás da escola.

Coronavírus: sujeito pequeno e perigoso| Foto: Reprodução

Um pequeno texto que está sendo distribuído pela internet aqui na Espanha nos informa de maneira didática da natureza dessa coisinha chamada vírus (ou coronavírus).

“O vírus não é um organismo vivo, e sim uma molécula de proteína (DNA) coberta por uma camada protetora de lipídios (gordura) que, quando absorvida pelas células da mucosa ocular, nasal ou bucal, altera seu código genético e as convertem em células agressoras e multiplicadoras. Como o vírus não é um organismo vivo, mas uma molécula de proteína, ele não pode ser morto, mas se desintegra por si próprio”. E por aí vai.

Neste domingo o número de infectados por essa coisa coberta de gordura em todo o mundo ultrapassará a cifra dos 1.000.000 de casos, enquanto as vítimas fatais deverão superar os 50.000. Pode parecer esdrúxula a seguinte comparação, mas é tão-somente uma entre tantas possíveis comparações de grandezas, nesses caso quase iguais: trata-se respectivamente do número aproximado de vietnamitas e estadunidenses mortos durante os vinte anos da guerra do Vietnã — para os últimos a cifra é bem precisa, 58 mil mortos, quanto aos vietnamitas o que se sabe é que foram pelo menos 1 milhão e 100 mil mortos.

É bastante gente para um período tão curto — as primeiras mortes foram detectadas em dezembro de 2019, isto é, há pouco mais de 90 dias. E estamos longe do final. As medidas mais duras tomadas no tempo mais curto foram as que deram algum resultado no sentido de paralisar o contágio. Os aventureiros (ou aprendizes de engraçadinhos) que não se importam em jogar com a vida alheia em troca de notoriedade nos meios de comunicação (ou sabe-se lá por qual motivo) tiveram que voltar atrás. O problema é que esse tempo desperdiçado custa vidas a mais, vidas perdidas inutilmente, um plus desnecessário de vítimas provocado por irresponsabilidade e um estúpido oportunismo midiático.

Guerra e guerras

Na televisão ligada ao lado do computador a legenda ininterrupta vai mostrando os destaques da hora. Entre eles uma que diz: “(Loja de) armas entra na lista de produtos ‘essenciais’ nos Estados Unidos”.

Pausa/quarentena/clausura para ler

Para os que têm livros em casa e também para os que não têm (é só comprar pela internet, as livrarias daqui estão entregando, suponho que aí no Brasil também estejam) leituras, muitas leituras. Cada um certamente terá a sua lista de promessas antigas, livros separados e nunca começados por falta de tempo, outros para reler. Mesmo para os que estão realizando em casa o trabalho que antes faziam fora, há um ganho de tempo porque o tempo do deslocamento até o trabalho, esse não existe mais. E esse tempo nas grandes cidades não costuma ser pouco. Ler ou reler, pouco importa. Há grande releituras a serem feitas.

Contaminações

Há umas tantas formas de contágio no cardápio de catástrofes à nossa disposição. Goiânia, por exemplo, certamente ainda se lembra do grave acidente com o césio-137, ocorrido em setembro de 1987. Numa escala que vai de zero a sete, o incidente em Goiânia foi colocado no nível cinco. É considerado até hoje o maior desastre do mundo envolvendo fonte radioativa fora de usinas nucleares. Vinte anos depois do evento mais de uma centena de pessoas já tinham morrido em decorrência da radioatividade e cerca de 1.600 tinham sido afetadas indiretamente.

Na época do acidente o goianiense Wesley Peres tinha 12 anos de idade. Anos depois, em 2013, publicou um romance extraordinário chamado “As Pequenas Mortes” no qual a contaminação pelo césio-137 é uma espécie de invisível fio condutor, uma sombra ameaçadora que acompanha a vida e compõe as obsessões do personagem principal, o músico Felipe Werle. A tragédia foi “um pequeno imenso holocausto, um sacrifício consumado pelo fogo”, diz Felipe. Esse fio condutor, no entanto, o que faz acima de tudo é detonar uma imensa cápsula cujo conteúdo é pura invenção poética, linguagem em carne viva, literatura de grande porte. O tipo de escrita que irrita a corrente sanguínea e contamina irremediavelmente nosso espírito. Esse é um livro que a mim encantaria poder reler agora, aqui em Barcelona, imerso na dramaticidade silenciosa dessa pandemia que paralisa os músculos da humanidade inteira.

Ironia à margem

Agora mesmo, trancafiado em casa, algo ironicamente também me vem à lembrança o “On The Road”, de Jack Kerouac (“Pé na Estrada”, na tradução do Eduardo Bueno). Não, claro que não é provocação. Os livros servem, entre tantas incontáveis coisas, para nos transportar para longe de onde estamos, no tempo e no espaço, nos remeter a realidades que por qualquer circunstância não podemos ou não pudemos viver.

Alguns livros, ao romperam determinadas regras ou tradições e estabelecerem novos padrões de escrita, introduzirem novas formas narrativas dão à luz uma linhagem inteira de novos escritos — e criam uma nova tradição. São, como se costuma dizer, seminais.  Outros o são, mas noutra direção: embora não gerem novas gerações de escritores e de formas literárias, estimulam novos comportamentos. “On The Road” pertence a esse segundo tipo.

Dizem que Kerouac o escreveu numa tacada só, entre 2 e 22 de abril de 1951. Foi lançado apenas seis anos depois. No primeiro parágrafo Sal Paradise (o alter ego de Kerouac) diz: “Com a aparição de Dean Moriarty começou a parte da minha vida que poderia ser chamada de minha vida na estrada”. Dean Moriarty é o nome no livro de Neal Cassidy, inspirador e companheiro de viagem de Kerouac. Outros personagens conhecidos que ilustram a estrada de Paradise-Kerouac são o poeta Allen Ginsberg (Carlo Marx) e o também escritor William Burroughs (Old Bull Lee).

Inscrito no limiar de uma ruptura comportamental da juventude que começava a ficar de saco cheio do boom consumista do pós-guerra, ele mesmo parte dessa ruptura, “On The Road” se mescla a outros tantos estimulantes (culturais ou químicos) propiciados pela época para espicaçar  o bom comportamento do homem domesticado pelo excesso de consumo e enjaulado na vida do lar.

O rio e a selva

Rarissimamente há bons filmes inspirados em bons livros. “Apocalypse Now” (1979) é uma dessas exceções. Eleanor Coppola (mulher do diretor Francis F. Coppola) conta que o marido, tendo levado a família para a floresta das Filipinas, onde rodaram o filme, quis que ela fizesse mais que o acompanhar e, então, decidiram que filmasse as filmagens. O resultado foi “Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse” (“Coração das Trevas — Apocalipse de um Cineasta”) — lançado apenas em 1991. É um belo documentário de um filme que a cada passagem de ano se confirma como um dos grandes clássicos do cinema.

“Coração das Trevas” (Heart of Darkness) é precisamente o título do livro do escritor britânico (essa era sua língua literária) Joseph Conrad no qual se inspirou Coppola para fazer “Apocalypse”. Conrad na verdade se chamava Józef Teodor Konrad Korzeniowski (de família polonesa) e nasceu na cidadezinha de Berdychiv na atual Ucrânia, a 180 quilômetros a oeste de Kiev. Publicado em 1899, o mais conhecido dos livros de Conrad é a narrativa de uma viagem e uma busca — tanto quanto o são “On the Road” ou a “Odisseia”. Uma viagem rumo ao desconhecido. No livro o percurso é pelo Rio Congo no então Congo Belga. E, aqui, uma palavrinha sobre o que é (ou era) o Congo Belga.

Logo após a derrota de Napoleão em Waterloo (1815), as forças vitoriosas lideradas por Inglaterra e Prússia acharam por bem que aquele pequeno território até então pertencente ao Reino Unido dos Países Baixos merecia afinal se tornar um Estado independente. Daí nasceu formalmente, em 1830, a atual Bélgica — com uma área de 30.500 kms quadrados. Waterloo é desde então parte do território belga. Um ano depois, Leopoldo I se tornou rei dos belgas.

Na segunda metade do século 19, Leopoldo II, o segundo dos filhos de Leopoldo I, botou na cabeça que também ele, e seus súditos, mereciam ter um pedaço da África — se os vizinhos tinham, por que a Bélgica não? Uma série de combinações históricas mais ou menos fortuitas fizeram com que seu desejo fosse prontamente satisfeito (sem grandes custos, sem guerras, sem nem mesmo altercações com os vizinhos, também eles muito ambiciosos). E, assim, a partir de 1885, Leopoldo II passou a ser proprietário de um pedaço de terra de 2,3 milhões de quilômetros quadrados (75 vezes maior, portanto, que aquele no qual reinava, a quase 10 mil kms de distância) e cortado por um dos mais extensos rios do planeta —precisamente o Rio Congo no qual se mete Charles Marlow, o personagem de Conrad, para encontrar e trazer de volta à civilização o sr. Kurtz, ou coronel Kurtz no filme de Coppola.

Marlon Brando: estrela de “Apocalipse Now” | Foto: Reprodução

De modo que, se for ler “O Coração das Trevas”, aproveite e leia também “Congo — Uma História Épica” do belga David van Reybrouck, um calhamaço de 800 páginas (não se preocupe com o tempo, a pandemia está apenas no começo) que, apesar de escrito por um belga, está acima de qualquer suspeita. O livro é excelente. Há também “O Fantasma do Rei Leopoldo — Uma História de Cobiça, Terror e Heroísmo na África Colonial”, de Adam Hochschild.

Com a devida autorização…

Não tenho hábito de ler poesia, nunca tive. Sou um completo e envergonhado inepto, em geral incapaz de diferenciar alhos de bugalhos. Muito raramente alguma coisa muito por acaso rompe a couraça da minha ignorância e tosca resistência. Como essa que o Wesley Peres (de “As Pequenas Mortes”, Rocco, mas também de “Casa entre Vértebras” , Record, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, finalista do Prêmio São Paulo e indicado ao antigo Portugal Telecom), me enviou uma ou duas semanas atrás, no burburinho inicial da pandemia, com a seguinte mensagem: “Um poema que traduzi há uns anos. Um poema para este tempo, para todos os tempos”.

“poema 37”  

Roberto Juarroz

“Enquanto fazes qualquer coisa,

alguém está morrendo.

 

“Enquanto lustras sapatos,

enquanto odeias,

enquanto escreves uma carta prolixa

ao teu amor único ou não único.

 

“E ainda que pudesses não fazer nada,

alguém estaria morrendo,

tentando em vão reunir todos os lugares,

tentando em vão não olhar fixo a parede.

 

“E ainda que estivesses morrendo,

alguém estaria morrendo,

apesar de teu legítimo desejo

de morrer um instante com exclusividade.

 

“Então, se te perguntam sobre o mundo,

respondas simplesmente: alguém está morrendo.”

Roberto Juarroz (1925-1995) é poeta e crítico argentino.

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