Euler de França Belém
Euler de França Belém

A grandeza do lutador Glover Teixeira, que pediu desculpas a Anthony Smith por massacrá-lo

O juiz Jason Herzog deixou o brasileiro surrar o americano, quando este não tinha mais condições de lutar. Quem realmente falhou?

Glover Teixeira arrasou Anthony Smith| Foto: Reprodução

Glover Lucas Teixeira é um lutador de MMA, faixa preta em jiu-jítsu, nascido em Sobrália, Minas Gerais, há 40 anos. Meio-pesado dos bons, tem 1,87m (segundo a Wikipédia, mas às vezes, durante as batalhas no octógono, “aparece” com 1,88m — um centímetro a mais). É um sujeito fortão, mas com uma cara doce. Se não fosse antiquado, se poderia dizer que se trata de um “varão de Plutarco”. Na sua longeva carreira, teve o azar de pertencer à mesma categoria do, até agora, invencível Jonathan Dwight Jones, um sujeito simpaticão (bebe, usa drogas — enfim, um jovem de 32 anos com muito dinheiro e cartões na carteira, hormônios em dia e um bocado de falta de bom senso. Mas, assim como “perdoamos” Rimbaud, vamos, por assim dizer, “perdoá-lo” — deixando, claro, que a Justiça cuide de seus problemas mais graves). Com o perdão do uso de terminologia fora de moda, Jon Jones é outro “varão de Plutarco”, ao menos no octógono, segundo os críticos literários e poetas Marcelo Franco, Carlos Higa, Carlos Willian e Raphael Theodoro. O repórter Thiago Arantes entrevistou “Bones” em Goiânia. Para seu desespero, descobriu que a gravação não havia sido feita. Educadamente, o lutador concedeu nova entrevista.

Glover Teixeira, com seu prenome diferente, é um dos grandes vencedores do UFC, daí ser admirado por, entre outros, Dana White. Venceu “feras” como Ryan Bader, Quinton Jackson, Ovince St. Preux, Patrick Cummins, Jared Cannonier, entre outros. Mesmo nas derrotas, sete, no geral Glover Teixeira não fez feio, partiu pra cima, lutou de igual para igual. Não teme ninguém. É, na linguagem dos “uficeiros”, um “monstro”. Sim, mas um gigante de feições doces, que não tripudia dos que vence e nem usa linguagem virulenta para falar sobre seus adversários.

Glover Teixeira, aos 40 anos, um dos grandes lutadores de MMA | Foto: Reprodução

Na terça-feira, 12, na retomada das lutas do UFC — eu estava tão desacostumado que já estou achando qualquer luta sensacional (a de Tony Ferguson e Justin Gaetthje foi mesmo do balacobaco. “Brutal”, diz, com acerto, o narrador do canal Combate) —, Glover Teixeira derrotou o norte-americano Anthony Smith (nascido em Corpus Christi, no Texas), de 31 anos, que não é nenhuma galinha morta, de maneira acachapante. Nocauteou o adversário no último round.

“Brutal” é a palavra. Não é de bom tom dizer isto, não é politicamente correto, mas os aficionados de lutas marciais mistas não apreciam embates mornos, com técnica esmerada, mas escasso contato físico. O que as pessoas querem, quiçá a maioria, são lutas ativas, até brutais. Trata-se de um desejo inconsciente? Talvez consciente mesmo.

Pois Glover Teixeira massacrou Anthony Smith, um gigante de 1,93m. No terceiro round, o americano já estava mal, parecia tonto, sem ânimo para continuar a luta. Mesmo assim, a turma de seu córner não jogou a toalha, tampouco o lutador desistiu — gritando que não dava mais. O árbitro assistia a luta de maneira impassível, deixando o brasileiro “destruir” o oponente.

Glover Teixeira na sua luta pelo título dos meio-pesados contra Jon Jones | Foto: Reprodução

A luta estava tão desigual, com só um atacando, que o próprio Glover Teixeira, durante e depois do encontro, pediu desculpas por bater tanto. O brasileiro mostrou civilidade e, ao final, mal comemorou sua vitória. Por sinal, bela vitória — indicando que está em plena forma. Aproveitou a quarentena gerada pela pandemia do novo coronavírus para treinar e colocar-se em forma.

O UFC pertence a chineses e Dana White — amigo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do partido Republicano — é o principal executivo do grupo, sua cara pública. Pois Dana White disse, nas redes sociais, que não ficou satisfeito com o desempenho do árbitro. Ninguém ficou, nem Glover Teixeira nem Anthony Smith, que, ao final da peleja, entregou um dente para o árbitro Jason Herzog. Mas não culpou ninguém, nem o árbitro: “Ou eu saio da batalha com o meu escudo, ou saio em cima dele. É a minha regra”.

Mas Dana White ficou realmente irritado? Devo aceitar que sim, porque, depois da luta, apontou o “erro” do árbitro.

Jason Herzog: o árbitro admite que errou na luta entre o brasileiro Glover Teixeira e e o norte-americano Anthony Smith | Foto: Reprodução

Mas o fato é que, quanto mais virulentos os combates (seriam mortes simbólicas?), mais os espectadores e telespectadores se entusiasmam e pagam para ver.

Os árbitros ficam numa sinuca. Se interrompem a luta, para preservar o lutador, o público e o próprio atleta, às vezes tontíssimo, reclamam. Se não interrompem, são criticados. Não se sabe se são orientados para deixarem a luta transcorrer “mais um pouco”, mas que parece, parece.

Os médicos que examinam os lutadores de MMA também são (intencionalmente?)  “omissos”. Há atletas com rostos desfigurados e pernas arrebentadas, mas, às vezes sem ter noção de como estão e pensando no que terão para receber depois — o prêmio de luta da noite é cobiçado —, dizem aos médicos que estão bem, que estão enxergando, que têm condições de continuar. Ora, mesmo que a pessoa queira lutar, quem tem de decidir se é possível são o árbitro e, claro, o médico.

Haveria uma orientação para se tolerar um pouco mais de dor, sofrimento? Atletas “moles” não ganham o dinheiro extra das performances da noite? Não sei, talvez sim. Afinal, qual luta está sendo mais comentada: a de Glover versus Smith ou a de Ferguson versus Gaethje — que valia título interino? Claro que o confronto Glover x Smith. Não é exatamente o que querem o público e o grupo que patrocina as lutas do UFC?

A grandeza pertence mais a Glover Teixeira, o gigante doce, que, por sinal, ganhou 1,3 milhão de reais pela vitória e mais 290 mil reais pela performance da noite. Merecidamente. Anthony Smith apanhou muito, de maneira lamentável, mas sua conta bancária ficou um pouco mais gorda — com 754 mil reais.

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